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Paris: encaixando os fragmentos

Os atentados que tiveram lugar no dia 13 de Novembro revelam a ameaça que representa o Daesh, escreve David Hayes desde Londres. Esta realidade implica que uma resposta coerente é vital. English. Español. 

Jean Jullien: simbolo 'Peace for Paris'

“O homem com a bomba passará sempre”. Durante a depressão dos anos 30, uma frase usada pelo político conservador britânico Stanley Baldwin veio representar o sentimento de pessimismo da democracia europeia perante a possibilidade de una nova guerra. Hoje, depois do último massacre de inocentes em Paris às mãos de uma célula jihadista, é difícil para muitos cidadãos franceses e para os seus vizinhos escapar ao mesmo sentimento de pessimismo e fatalismo.

Tão desiguais eram os bandos naquela jovial noite, tao “fácil” atacar os alvos em restaurantes e discotecas onde os jovens Parisienses se juntam, e infinitas as oportunidades dadas pelas sociedades abertas àqueles com intenções de matar sem discriminação ou razão: não é de estranhar que as expressões de solidariedade e compaixão que se seguiram aos eventos do 13 de novembro fossem ensombrecidas por “um medo em relação ao futuro”, semelhante àquele descrito por Baldiwn em 1932.

Em estado de choque no Sábado, quando o horror ázimo da noite anterior se tornou comum, o pensamento mais aterrador de todos (adaptando Albert Camus) foi que aqueles guiados por uma ideologia niilista sempre arranjariam forma “de passar” e matar e morrer numa cidade que emana felicidade.  

Desta vez, a resposta dada pela França contrasta com a sua resposta aos assassinatos de Janeiro nos quais morreram 17 pessoas na revista satírica Charlie Hebdo e no supermercado kosher, após os quais centenas de pessoas marcharam detrás de uma sucessão de líderes mundiais baixo o slogan “Somos todos Charlie”. Não se deve só a que o estado de emergência decretado em França impeça demostrações de união na histórica Praça de la République, apesar de que algumas centenas se reunissem ali em vigília na noite de sábado e no domingo. Esta vez o estado de espirito é mais recatado. A diferença devesse em parte à natureza amorfa dos ataques, à normalidade do seu cenário, à sua escala mais amplia e á caracterização de “they-are-us” dos 132 mortos e 350 feridos. (O número de mortos aumento em três no dia 15 de novembro tendo sido os serviços de emergência hospitalares incapazes de salvá-los).   

Os eventos sucederam-se numa confusa sequência que as autoridades e jornalistas só conseguiram entender horas depois. Antes das 9 horas, hora local, cinco comandos especiais realizaram de forma simultânea “raids” nos distritos X e XI de Paris. Dispararam sobre um bar, uma restaurante Cambojano e uma pizaria perto da Place de la République, matando trinta e nove pessoas, ao mesmo tempo que uma incursão na sala de concertos Bataclan na Boulevard Voltaire (onde uma banda de rock alternativo atuava) custou a vida de 90 pessoas. Quase em simultâneo, três terroristas fizeram-se explodir nas imediações do Stade de France, no norte da cidade, onde as seleções da Franca e da Alemanha jogavam um amigável (Pelo menos um dos terroristas tentou entrar no recinto mas foi impedido pelas forças de segurança).

O presidente francês, François Hollande, foi rapidamente evacuado do estádio quando soou a explosão. Duas horas depois estava a anunciar na televisão o estado de emergência, incluindo o encerramento das fronteiras internas francesas. Três dias de luto nacional foram decretados. Através da cidade e da Europa, as primeiras capas dos jornais eram rescritas uma e outra vez, ao mesmo tempo que não paravam de chegar comunicados expressando a simpatia de diversos líderes mundiais, juntamente com os já simbólicos gestos: a iluminação tricolor da Ópera House em Sydney, da Torre de Londres, referencias do Presidente Obama “ao mais antigo aliado dos Estados Unidos” e as espontâneas vigílias e intepretações da Marselhesa. O universalismo Francês, não só é parte integral da sua identidade nacional, mas também tem uma enorme relevância a nível mundial.

Mas esta vez, o dia depois exigirá muito mais: mais debate, mais liderança, mais cooperação internacional e um objetivo compartilhado.  Em retrospectiva, o massacre de janeiro passado, e o frustrado ataque ao comboio entre Amsterdao-Paris em agosto, converteram-se em símbolos demasiado cedo. A “sexta-feira negra” pode significar uma verdadeira catarse para a França e talvez para o mundo, mostrando a verdadeira dimensão do desafio que personifica o ISIS. Mas, que pode a “securitização” mais vigorosa significar para a liberdade incrustrada nas almas dos Parisienses e dos Franceses? Aqui, muitos citam a ubiquidade da CCTV como a preço a pagar por uma maior segurança. Não é que só que não haja respostas fáceis; numa Europa diversa pode haver inclusive uma resposta não uniforme.

Em qualquer evento, a prioridade imediata das autoridades é a de mapear os detalhes exatos do que aconteceu e o contexto, para poder determinar e atuar em relação aos riscos para a vida dos seus cidadãos. Mais urgente é encontrar a pista da conexão entre o que as agências de segurança chamam de “ponto de origem” e o “ponto de conexão”: neste caso, talvez Raqqa, a “capital do ISIS, e Paris. Provas de que entre os perpetradores se encontravam três irmãos franceses – respetivamente, um morto, um preso e o terceiro em fuga – dão momentum à investigação, tal como o dão as prisões de possíveis cúmplices em Bruxelas. Outras informações, como as de um passaporte Sírio e outro Egípcio que supostamente estavam na posse dos atacantes, e as conexões do ataque (incluído transferências de armas) com o fluxo de refugiados que provem da Grécia e dos Balcãs ainda estão por confirmar.

O testemunho dos sobreviventes, muitas vezes subestimado, é também inestimável nesta fase. Apesar do trauma, muitos confirmam o ataque a cara descoberta dos atacantes, jovens, que calmamente recarregavam as suas armas. Um dos sobreviventes referiu-se a um “inimigo fantasmagórico” que parecia aparecer do nada para disparar sobre pessoas sentadas tranquilamente na esplanada dum restaurante. Como o refletem as palavras de Pascual Bruckne, um proeminente escritor francês: “estamos a viver num estado de guerra – uma guerra especial com inimigos invisíveis que nos atacam quando querem”.

A localização, o timing e o horror da atrocidade asseguraram o seu impacto global. Mas outorga também uma perceção crucial das mentes daqueles que os planearam. Em perspetiva, Paris representa o epicentro do terror islamita desde mediados dos anos 90´s (quando uma onda de bombas se abateu sobre a cidade, matando oito pessoas na sua rede de comboios). O massacre de jovens em Paris recorda o atentado numa discoteca em Bali em outubro de 2002 e reflete a retórica da ISIS em reivindicar responsabilidade – Paris como a “capital da prostituição e do vício, portadora da Cruz da Europa”. Por outra parte, converter vítimas em reféns, situação pela que passaram diversas pessoas no Bataclan antes que a polícia entrasse na sala de concertos, remonta aos casos dos raptos chechenos em Moscovo e Beslan ao princípio do século XXI.

O ataque ao Stade de France reproduz o “espetáculo” do 9/11 em si mesmo. Por outra parte, um grande ataque a uma capital europeia relaciona-se facilmente com os ataques aos centros de transporte de Madrid e Londres em 2004/2005. Sobretudo, a mobilidade dos ataques, que voltou a liberdade da cidade contra ela mesma, – como uma oportunidade para cometer assassinatos a larga escala – tem semelhanças com operação que teve lugar em Mumbai em Novembro de 2008 (dirigida desde o Paquistão), onde uma célula de dez homens acabou com a vida de 166 pessoas.

Juntamente com a explosão num avião de passageiros russos sobre o Sinai, e outros recentes massacres em Tunes, Ankara, Bagdá e Beirute (por citar só alguns), o ISIS desenvolveu a capacidade de aplicar as estratégias da Al-Qaeda duma forma mais professional e militarizada. O estudioso francês Jean-Pierre Filiu, autor do From Deep State to Islamic State define o movimento como “uma bem-sucedida Al-Qaeda capaz de coordenar grandes ataques terroristas à escala mundial”. 

É o precedente de Mumbai que mais preocupa os planeadores de emergências britânicos, que ensaiaram a resposta a este tipo de situação em junho passado. Raffaelo Pantucci, autor de We Love Death As You Love Life: Britain’s Suburban Terrorists, diz que a “forma de horror” exibida em Paris “requere uma doutrinação profunda, preparação e treino…ao estilo dos ataques de Mumbai…um tipo de terrorismo que agora chegou às costas da Europa”.

Muitas tentativas de atentado no Reino Unido foram evitadas numa fase ainda de planeamento devido a um bom trabalho de inteligência, mas também por pura sorte e heroísmo. Em junho de 2007, um ataque similar ao que teve lugar em Bali foi frustrado numa discoteca na Leicester Square em Londres. No dia seguinte foi frustrado um atentado no aeroporto de Glasgow. Ambos falharam por pouco. Todo os elementos do “status in statu” tem incutido a lembrança do arrepiante ataque do IRA em Brighton, no ano de 1984, que por pouco não alcançou Margaret Thatcher: “somente temos que ter sorte uma vez”, dizia o IRA.

O foco da preocupação centra-se em aproximadamente nos 750 britânicos muçulmanos que viajaram à Síria para juntar-se ao ISIS, dos quais aproximadamente 450 voltaram. Tanto os retornados como os simpatizantes são sujeitos ao que Charles Farr, chefe do departamento de segurança e contraterrorismo, define como “aliciamento ideológico” por parte dos cyber-propagandistas do ISIS. Os programas de monitoramento e desradicalização tentam desesperadamente estar um passo à frente. Uma análise no New Statesman por parte de Shiraz Maher do International Centre for the Study of Radicalisation em Londres – publicado no dia dos ataques em Paris – aponta que a ameaça do ISIS “se está a diversificar, a aperfeiçoar-se e a ficar cada vez mais sofisticada”.

Patrick Cockburn, jornalista do The Indepemdent, desenvolveu a ideia após o massacre. O Estado Islâmico “é uma máquina de luta eficiente porque as suas habilidades militares…supõem uma mistura potente de terrorismo urbano, tácticas de guerrilha e guerra convencional”. Os seus fins, são claros: aliciar os estados ocidentais a enviar tropas por uma parte e por outra fomentar ódios sectários no Ocidente que reforcem a alienação dos muçulmanos que ali vivem e aumente a sua receptividade à mensagem da jihad.

Uma lição a extrair de Paris é a necessidade de que os líderes mundiais – agora reunidos na reunião do G20 em Antalya, Turquia – desenvolvam uma estratégica coerente cujos vários elementos (políticos, militares, inteligência, diplomáticos) emerjam de uma análise decisiva e estejam ligados a um resultado desejado. Pôr fim à violência criminosa e aos seus detonantes é o objetivo vital, a prioridade de cada dia, mas não é em si mesmo uma estratégia. Dito objetivo tem de ser relacionado com uma renovação democrática, harmonia social e progresso económico que liguem a Europa, o Médio Oriente e outras regiões. Sobretudo, dita estratégia precisa do que desesperadamente falta hoje em dia: confiança nos melhores princípios ocidentais.

Há poucos sinais que os mesmos emerjam. E a margem de liberdade da Europa, como diz Nicky Cohen no Observer, "está a encolher". Mas um ponto positivo, mesmo que sirva unicamente como consolação, é o facto que a Europa resiste ao conflito desejado pela Jihad e outros extremistas, num ambiente economicamente difícil e fortemente pressionada por um enorme fluxo de refugiados e migrantes. A resposta de Paris ao trauma do 13/11, apesar de ter sido menos demonstrativa que a que teve lugar depois do ataque ao Charlie Hebdo, tem sido igualmente nobre.

O jornalista do Sunday Times, Patrick Bishop, que vive no noroeste de Paris, fala com Ammar, o gerente de uma sapataria, que diz: “Todos sabíamos que um atentado vinha aí…É preciso ser um certo tipo de pessoa para estar determinado a matar outros quando os mesmos estão a divertir-se – a comer, beber, ouvindo música. Demonstra o muito que estes indivíduos odeiam a vida e a querem destruir”. Eles podem ganhar? “Nunca! Sou Argelino, Francês e muçulmano, e orgulhoso de ser as três coisas. Vivo aqui em amizade com os meus vizinhos judeus, católicos, é indiferente. O que aconteceu é horrível, mas os Parisienses ultrapassaremos esta situação e continuaremos a viver a vida e a disfrutar dos seus prazeres. Temos que o fazer. Caso contrário, ganhariam os terroristas.”

É um fragmento entre milhões. E há tanto na outra direção. Mas cada fragmento, cada vida destruída ou ferida, importa. A tristeza de Paris mede a beleza que a mesma e o mundo perderam. Essas vidas de esperança e promessas tem que de alguma forma conter as respostas para um mundo mais além do medo.

Este artigo foi publicado por primeira vez em InsideStory.

About the author

David Hayes is a co-founder of openDemocracy. He has written textbooks on human rights and terrorism, and was a contributor to Town and Country (Jonathan Cape, 1998). His work has been published in PN Review, the Irish Times, El Pais, the Iran Times International, the Canberra Times, the Scotsman, the New Statesman and The Absolute Game. He has edited five print collections of material from the openDemocracy website, including Europe and Islam; Turkey: Writers, Politics, and Free Speech; and Europe: Visions, Realities, Futures. He is the editor of Fred Halliday's Political Journeys - the openDemocracy Essays (Saqi, 2011)


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