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O Carnaval politico do Brasil

Em meio a turbulenta crise econômica e política que assola o pais, o carnaval se transforma em palco para críticas, contestação e sarcasmo politico. Spanish English

Papangus no Carnaval de Olinda. Fuente: Wikimedia Commons

O Brasil tem sido representado na mídia Anglo-Americana como um dos países que compõem o BRICS, enfatizando o seu status como potência emergente, ou como o país que celebra seu carnaval de maneira mais exuberante e colorida. 

No presente momento em que o país se encontra em meio a uma crise política e econômica era de se esperar que o carnaval viesse como uma válvula de escape, sendo aquele período de 4 dias no qual, todo ano, as pessoas deixam de lado todos os problemas e se esquecem dos dilemas e obstáculos do dia a dia. Contudo, não foi o que se viu, neste ano.

A celebração de beleza e gloria que tipicamente caracterizam o legendário desfile no Rio cedeu lugar a um inédito espetáculo de críticas: pela primeira vez na história, o carnaval do Rio assumiu um viés fortemente político.

O desfile de 2018 e a respectiva resposta a ele, levantam questões importantes sobre o cenário político do pais.

O carnaval no Brasil teve sua origem na época do império, quando os primeiros colonos Portugueses celebravam o então intitulado Entrudo.

Este ano, o que prevaleceu na Marques de Sapucaí foi algo inusitado: o foco principal na representação do feio, do desagradável, dos aspectos problemáticos e enfermos do país.

Entretanto, o carnaval viu seu formato alterado ao longo dos anos. Após a proclamação da independência, a elite carioca decidiu se desconectar dos costumes “antiquados” de Portugal e se assemelhar mais às novas potencias capitalistas europeias no que diz respeito ao estilo de vida e do viver, importando assim o formato carnavalesco dos bailes parisienses.

Este processo foi chamado de “civilização” do carnaval brasileiro. Em 1932, foi criada a competição formal entre as escolas de samba oficializando o desfile que se transformou em um espetáculo extraordinário.

Nos aproximados 50 minutos que cada escola tem para se apresentar, historicamente se observa a prevalência de temas enaltecendo heróis e virtudes nacionais, uma verdadeira ode aos recursos naturais e humanos do pais, contados de maneira épica nos versos dos samba-enredo, no desenrolar das alas e em cada detalhe das fantasias e carros alegóricos.

Este ano, o que prevaleceu na Marques de Sapucaí foi algo inusitado: o foco principal na representação do feio, do desagradável, dos aspectos problemáticos e enfermos do país.

Criticas pontuais já haviam sido feitas em anos anteriores, mas de forma mais isolada, em uma ou outra escola ou ala especifica. Nunca havia se visto tantas manifestações em tantas escolas quanto no carnaval de 2018.

A Beija-Flor retratou o Brasil como um monstro. A escola abriu mão do seu luxo característico para revelar os monstros que compõem a atual sociedade brasileira.

A inspiração foi o clássico literário Frankenstein, da autora britânica Mary Shelly, que comemora este ano o bicentenário de sua primeira publicação. A escola fez isso de maneira a oferecer reflexões sobre enfermidades sociais, tais como, como corrupção, violência e intolerância - as feias criaturas que atormentam o Brasil contemporâneo.

O primeiro carro alegórico foi uma caravela gigante e veio representando o nascimento de Frankenstein, uma metáfora para a gênese do monstro que o pais se tornou. De maneira inteligente, a Beija-flor exibiu o Brasil como uma colcha de retalhos, fazendo um paralelo interessante com a natureza remendada de Frankenstein que e o produto de uma junção de partes do corpo de diferentes pessoas costuradas forçosamente.

A Paraiso Tuiuti questionou a premissa de que a escravidão está de fato encerrada no Brasil de hoje e trouxe para a Marquês de Sapucaí o samba-enredo intitulado Meu deus, meu deus! Está extinta a escravidão? (Parafraseando a frase celebre do abolicionista Jose do Patrocínio quando da assinatura da Lei Aurea, que a Tuiuti reformula como uma interpelação. 

O tópico escolhido pela escola foi a exploração do homem pelo homem, em comemoração aos 130 anos de abolição da escravidão no Brasil, de maneira a conectar os fatos históricos atrelados à imigração forçada de africanos escravizados aos eventos políticos e sociais do Brasil atual.

A comissão de frente foi um chocante e poderoso display do sofrimento ao qual essas pessoas eram submetidas e a lente desumanizada pela qual a sociedade as enxergavam.

Outro destaque foi a ala intitulada Os Manifestoches que criticou os protestos pré-impeachment e contra corrupção de 2016 protagonizado por camadas da classe média nos quais os manifestantes vestiam camisas da CBF (instituição com dirigentes reconhecidamente corruptos), no desfile sendo controlados como fantoches por mãos gigantes de indivíduos trajando ternos.

A cereja do bolo foi Michel Temer, sendo representado como vampiro, sugador de sangue da população Brasileira que foi recebido pela plateia entonando em alto e bom tom o clássico jargão fora Temer!

Não há como negar que, este ano, o carnaval do rio se tornou uma arena para resistência e subversão.

Estas duas foram as escolas que encabeçaram a lista das campeãs. Ambas compartilharam uma visão extremamente crítica do pais (seu histórico racial, presente liderança e imagem), o que é algo bem diferente da convencional celebração da gloria nacional que comumente caracteriza o desfile.

Várias outras escolas incluíram em seu enredo críticas políticas. A Mangueira, por exemplo, reciclou o material utilizado no ano passado e criticou o corte de verba destinadas ao carnaval realizado pela prefeitura do Rio este ano.

A Salgueiro abordou as políticas de gênero e racial ao retratar a história das mulheres negras no Brasil. Já a Portela, trouxe para a avenida a questão dos refugiados.

Apesar do grande impacto desta nova abordagem em relação ao desfile, a mídia brasileira não deu à questão a mesma importância que a mídia internacional.

Não há como negar que, este ano, o carnaval do rio se tornou uma arena para resistência e subversão. O filosofo russo Mikhail Bakhtin diria que o carnaval deste ano foi genuína e primordialmente Carnivalesque (Carnavalesco), uma vez que se tornou ferramenta de contestação politica através do humor e da caracterização. Se lideres políticos fazem piada da política, então o povo deve zomba-los em retribuição.

A colorida mostra de resistência não contestou unicamente o status quo político, mas também confrontou a narrativa de caráter pós-racial da identidade nacional brasileira – ou seja, a narrativa amplamente aceita de que o Brasil é, ao contrário dos EUA, uma democracia racial.

Como o governo recebeu isso tudo? Tomando uma posição autoritária e colocando oficialmente o exército como responsável pela segurança pública no estado do Rio de Janeiro.

O carnaval deste ano assume ainda maior importância ao demonstrar como um espetáculo de massa pode se tornar palco para crítica política.

Um decreto presidencial, que foi posteriormente sancionado pelo congresso, deu as forças armadas o poder decisório sobre todas as operações relacionadas a segurança no estado, o que significa que todas as decisões acerca de segurança publica no estado estão nas mãos do exército ao invés de nas mãos do governo democraticamente eleito (ainda que de maneira falha), com mandato até 31 de Dezembro.

Devemos ter em mente que o Brasil tem testemunhado um grande número de desdobramentos políticos caóticos nos últimos dois anos: a operação Lava-Jato; o controverso processo de impeachment da primeira mulher Brasileira a governar o pais; a crise no Sistema penitenciário, a continua proliferação da corrupção policial; o retrocesso no que tange a leis progressistas (a criminalização do aborto mesmo em ocasião de estupro e/ou risco de vida da mãe), a perda de direitos trabalhistas e de seguridade social, a perda de direitos de propriedade de indígenas e quilombolas, o retorno da religião como matéria obrigatória no currículo escolar, para citar alguns), somado a condenação do ex-presidente Lula e à criação do Ministério da Segurança, oficialmente anunciado dia 26 de Fevereiro. 

O carnaval deste ano assume ainda maior importância ao demonstrar como um espetáculo de massa pode se tornar palco para crítica política em um momento crucial da história do país, marcado por uma nítida mudança de rumo na política e pela ascensão da Direita - personificada em líderes que, como Bolsonaro, são famosos por suas visões reacionárias, homofobias, racistas e sexistas e pela advocacia por restrições a liberdade de expressão e outros direitos civis.

A popularidade de Bolsonaro é uma indicação de que tais ideais estão tomando força no país, onde intolerância frente a diversidade está em alta - como exemplificado pelas demonstrações contra a visita da filosofa e teórica de gênero Americana, Judith Butler; o cancelamento de exibições de arte e retrocesso em basicamente todas as esferas da vida pública em comunidade.

Pode-se defender que, até certo ponto, isto faz parte de uma tendência global. O presente dilema brasileiro possui várias características similares ao que ocorre em outras partes do mundo, onde uma nova leva de lideres políticos autoritários vem ganhando espaço.

E onde desfiles como mostras da identidade nacional vem se tornando mais importantes: não é coincidência que Trump requisitou a elaboração de planos para uma eventual parada (desfile) militar, inspirado no Dia da Bastilha francês, para refletir a ideia celebratória que os EUA têm de si mesmo – o que é contrastante ao que foi exibido no carnaval deste ano.

No Brasil, o espetáculo foi subvertido e a subversão resultou em repressão pelas autoridades. Deve-se ter em mente que o Brasil- como muitos países em circunstancias similares - viveu e vive uma difícil transição do regime militar para democracia.

Sob essa luz que devemos considerar o fato de o exército estar retornando em função administrativa no Rio, e que um novo ministério (o de Segurança) está sendo criado no país.

O que isso significa em relação às eleições presidenciais e de governos dos estados que ocorrerão em outubro? Foi isso apenas uma mera demonstração de iniciativa "forte" e "eficaz" pelo atual governo, com o objetivo de atrair eleitores? Ou é a consolidação de pontos de vista semelhantes aos de Bolsonaro, sobre como dirigir o país?

Os próximos meses serão cruciais, pois, as forças de resistência e de autoritarismo serão cada vez mais lançadas umas contra as outras apresentando então um grande desafio para a já vacilante democracia brasileira.

About the author

Eduarda Fontes is a doctoral researcher at the Department of Politics and International Relations of the University of Westminster.

Eduarda Fontes es investigadora doctoral en el Departamento de Política y Relaciones Internacionales de la Universidad de Westminster. 


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