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A América Latina terá que redefinir as suas relações com a China

De acordo com um novo relatório da OCDE, a América Latina terá que redefinir as suas relações com a China se quiser retomar o crescimento económico. Español English

A América Latina terá que redefinir suas relações com a China se quiser retomar sua rota de crescimento econômico e beneficiar-se dos investimentos do gigante asiático, que ainda continuará como o grande credor da região. Esta é a conclusão do relatório “Perspectivas econômicas da América Latina 2016 – rumo a uma nova associação com a China”, elaborado conjuntamente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) e Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF).

“A América Latina tem sido pouco proativa na sua relação com a China e com o mundo. Tem sido muito passiva e a grande mensagem é que a demanda chinesa por minerais na ordem de dois dígitos não voltará mais a ocorrer. A América Latina terá que redefinir sua estrutura econômica”, afirmou Ángel Melguizo, chefe da unidade de América Latina e Caribe da OCDE, em entrevista ao Diálogo Chino.

A necessidade de se tornar mais atraente para os investimentos chineses fará com que as economias latino americanas tenham que diversificar e modernizar suas estruturas produtivas, indica o documento lançado na sede do Wilson Center, em Washington (USA). O informe faz recomendações para que a região melhore e aprofunde a relação com a China como parte de sua agenda de desenvolvimento. A China é e continuará sendo um ator importante e de “mudança real” para a região, prevê o documento.

Um modelo esgotado

Nas últimas décadas, o centro de gravidade da economia mundial tirou as economias da OCDE do foco e voltou-se para as emergentes. Os vínculos da América Latina com a China têm evoluído para além do comércio e levado os países latino-americanos a adotarem reformas específicas que estimulem seu crescimento inclusivo e construam uma parceria que tenda a beneficiar mutuamente os dois lados.

O comércio com a China teve uma expansão sem precedentes nos últimos 15 anos, informa a OCDE. Desde 2000, o fluxo comercial entre os dois se multiplicou 22 vezes. Entre 2001 e 2010, as exportações latino-americanas de produtos de origem mineral e combustíveis fósseis para a China cresceram ao ritmo de 16% todos os anos.

Atualmente, a China é o maior sócio comercial do Brasil, Chile e Peru. As matérias-primas representam 73% das exportações da região para satisfazer a fome chinesa, enquanto os produtos tecnológicos manufaturados não passam de 6%.

Contudo, este modelo de crescimento baseado em matérias-primas já chegou ao seu limite, apontaram os autores do estudo. Hoje já se sente uma forte queda na demanda chinesa de matérias-primas que, junto com a queda global dos preços das commodities, está afetando as economias da região que dependem das divisas geradas pela exportação primária.

A América Latina cresceu apenas 1% em 2014, muito inferior às taxas de 5% registradas em meados dos anos 2000. A vulnerabilidade da região frente às condições externas explica a atual desaceleração, indica o estudo. As projeções informam que o crescimento da região este ano será de -1% a 0,5% – cerca de 3% menos que o esperado.

A desaceleração tem um componente estrutural, explica Adriana Arreaza Coll, diretora de Estudos Macroeconômicos do CAF. “Se a região quiser ter um crescimento estável e forte terá que aumentar seus níveis de produtividade”, acredita. O crescimento econômico da região continuará fraco e, para restabelecer uma agenda de crescimento, será preciso preencher as lacunas de infraestrutura, sustenta.

A OCDE estima que, nos próximos cinco anos, o crescimento estará em torno de 2%, “extremamente baixo”. O que, na opinião de Melguizo, mostra a “debilidade da estrutura produtiva”. A aceleração das economias na região registrada no início dos anos 2000 ajudou a reduzir a pobreza “de forma espetacular”, segundo o dossiê, mas ainda persistem profundos desafios socioeconômicos. A pobreza afeta 28% da população da região – 164 milhões de pessoas – o que a mantém na posição líder como a região mais desigual do mundo.

A agenda de desenvolvimento

Enquanto a desaceleração chinesa é um dos fatores que explicam o baixo crescimento na região latino-americana, a China pode tornar-se um ator chave para melhorar a agenda de desenvolvimento da América Latina. No entanto, as relações são ainda muito “assimétricas”, destacaram os autores.

“O modelo do crescimento econômico dos anos 2000 acabou, agora será o momento de ativar outro modelo e ter a China em conta para ajudar nesta nova etapa. Acreditamos que, nas próximas duas décadas, haverá uma nova associação com a China, pois ela continuará investindo e emprestando à região”, analisou Melguizo.

Na sua avaliação, poderão ser abertas novas oportunidades como no setor de alimentos, por exemplo, uma vez que a China tem muito mais população que terras cultiváveis e água. “Será um importador bruto de alimentos com mais proteínas, porque uma nova classe média chinesa está ascendendo. Estimamos que, em 2030, um bilhão de chineses estarão na classe média”, destacou.

A China declarou a região como prioritária para seus investimentos financeiros. Desde 2010, os empréstimos chineses alcançaram US$ 94 bilhões, frente aos US$ 156 bilhões emprestados pelo Banco Mundial, o CAF e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) juntos.

Essa virada da China poderia servir de estímulo. No entanto, para aproveitar ao máximo a transformação chinesa, a região terá que contar com melhores regulações, maiores capacidades de governo para desenvolver projetos rentáveis, além de sustentabilidade ambiental, compromisso com a transparência e boa governança, indica o estudo.

Nas palavras de Melguizo, a região tem que deixar de responsabilizar a China pela assimetria nas relações. “A America Latina vende pouquíssima tecnologia. A oferta de exportações seguiu única e exclusivamente a demanda chinesa. Agora é o momento de identificar quais são as estruturas produtivas que a região quer ter e oferecer”.

Inovação para diversificar

Outro aspecto ainda bastante frágil na região é a falta de investimento em inovação. E, é este fator que, segundo o estudo, fará alavancar e diversificar as potencialidades da América Latina frente a seu parceiro asiático.

Depender de commodities, já ficou no passado. Segundo as projeções da OCDE, para 2030, o crescimento médio das exportações de metais e minério deve cair de 16% para 4% em comparação com a década anterior; este número é o mesmo para as exportações de combustíveis fósseis; e para produtos alimentícios, a queda seria de 12% a 3%.

A América Latina precisa investir em inovação, na qualidade e adequação de suas habilidades e conhecimento para sanar deficiências de infraestrutura, diz o estudo.

O capital de inovação latino-americano é muito menor que o dos países que compõem a OCDE. Apenas a título de comparação, projeta-se que, para 2030, a China terá 220 milhões de chineses com estudos superiores (representando 21% de sua força de trabalho). Este número é mais que o dobro do que se espera para os latino americanos. Ou seja, para 2030, 90 milhões de latinos terão concluído a educação superior, 19% da força laboral.

Enquanto um em cada cinco estudantes latino-americanos estuda ciência e tecnologia, um em cada dois chineses se gradua nesta área.

Uma relação “ganha-ganha”

Esta relação ainda pode tornar-se uma “ganha-ganha”, em que todos ganham, mas apenas quando as economias latino-americanas conseguirem aplicar algumas destas recomendações feitas no informe, defendem os autores.

“Estamos fazendo uma chamada para a diversificação e melhoria do que vendemos e vendê-los com maior qualidade”, destacou Melguizo.

A redefinição desta nova forma de fazer negócios com a China também passa pela capacidade das economias latinas se integrarem em uma posição mais concertada.

O informe diz que a relação com a China não alcançará seu pleno potencial se a região não der um passo além dos esforços para firmar acordos bilaterais como países individuais. O estudo aponta a Comunidade Caribenha (Caricom), o Mercado Comum Centro-americano, o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a Aliança do Pacífico como o que poderia ser a base para uma coordenação com a China.

Por outro lado, a China também se beneficiaria desta nova relação com a América Latina ao apresentar-se como um “mercado seguro para suas exportações e um destino atrativo para a diversificação de seus investimentos no exterior”, aponta o relatório.

Melguizo é um dos fortes defensores de uma posição mais integrada na região para que seja capaz de beneficiar-se dos fluxos de investimentos e créditos que continuarão chegando.

“O que há é mais um diálogo bilateral dos países com a China. Faria todo o sentido existir um diálogo da região com a China. Esta é uma questão de lógica econômica para se alcançar uma relação mais harmônica. Precisamos de uma posição mais unificada”, disse.

A integração na região é crucial para que os investimentos em infraestrutura sejam mais efetivos e eficientes e que a região possa tirar proveito dos investimentos estrangeiros diretos, recomenda o relatório.

Este artigo foi publicado anteriormente pelo Diálogo Chino.

About the author

Fabiola Ortiz es una periodista Brasilera basada en Rio de Janeiro que trata de temas como los derechos humanos, la política, asuntos internacionales, el medioambiente, desrollo sostenible y también de otros temas sociales y de género.

Fabiola Ortiz é jornalista brasileira baseada no Rio de Janeiro. Escreve sobre os direitos humanos, política, assuntos internacionais, meio ambiente, desenvolvimento sustentável, de gênero e assuntos sociais.

Fabiola Ortiz is a Brazilian journalist and reports from Rio de Janeiro, Brazil, about human rights, politics, international affairs, environment, sustainable development gender and social issues.


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