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Morte e vida da teologia da libertação

Uma geração de teólogos radicais da América Latina está morrendo. O quê esse legado significa para o resto do mundo? Español English

Igreja zapatista: um monumento muito pequeno à teologia da libertação. Crédito: Flickr/David Sasaki. CC BY-NC 2.0.

Em junho, morreram dois dos sacerdotes católicos mais fascinantes e controversos da nossa geração: François Houtart e Miguel D'Escoto Brockmann. Houtart era um sacerdote jesuíta e erudito prolífico da faculdade de sociologia da Universidade de Louvain na Bélgica. Sua liderança no diálogo entre marxismo e cristianismo, sua pesquisa sobre a religião em diversas sociedades desde o Sri Lanka até a Nicarágua e seu desejo de conectar os movimentos sociais no Sul global através do Centro Tricontinental (CETRI), que ele fundou em 1976, iguala-se à sua produção acadêmica de cerca de 50 livros. 

No plano teológica, ajudou na elaboração da Constituição Pastoral e a relação da Igreja com o mundo moderno (Gaudium et Spes ou "Alegria e Esperança"), um dos documentos mais influentes do Concílio Vaticano II. Houtart era um herói para muitos em todo o mundo, mas certamente não era santo. Em 2010, ele abortou uma campanha global para nomeá-lo para o Prêmio Nobel da Paz quando admitiu ter abusado sexualmente de um menino de oito anos em 1970.

Ele talvez seja melhor lembrado por seu trabalho pioneiro sobre a análise, e resistência, da globalização econômica corporativa. Observando a influência generalizada do Fórum Econômico Mundial, ele propôs o "Outro Davos" em 1996, um movimento contra o crescente poder da economia neoliberal.

Cinco anos depois, outros, incluindo Chico Whitaker, ativista católico laico e secretário da Comissão Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, foram construídos sobre as iniciativas da Houtart para lançar o Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, lugar de encontro anual para os altermundialistas que buscam solidariedade sob a bandeira de "Outro mundo é possível!" Houtart serviu no seu Conselho Internacional.

Miguel D'Escoto serviu como um sacerdote missionário de Maryknoll em sua Nicarágua natal, após sua educação e ordenação nos EUA. Um teólogo da libertação, ele se juntou ao movimento sandinista da Nicarágua (FSLN) durante a queda do regime ditatorial de Samoza e sua resistência aos grupos armados conhecidos como os "contras" liderados pelos EUA, servindo no governo sandinista – inclusive como ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1979 e 1990. Em 2008, foi eleito presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas. Embora nunca tenha sido completamente repudiado pelo Vaticano por seu trabalho político, ele foi suprimido por décadas antes de ter seus deveres pastorais restaurados pelo Papa Francisco em 2014.

Houtart e D'Escoto eram dois homens de seu tempo. Durante sua geração, a libertação estava em alta através dos movimentos nacionais contra o colonialismo, das revoluções e do ativismo da Nova Esquerda em todo o mundo. Após a "abertura ao mundo" do Vaticano e o novo engajamento da Igreja com a modernidade, sacerdotes católicos, missionários e líderes laicos se viram livres para buscar novas formas de ministério.

Esse novo ativismo religioso não era inteiramente novo. O arcebispo brasileiro Hélder Câmara, o "bispo das favelas", já exibia uma abordagem radical em seu ministério com os pobres uma década antes do Vaticano II; e os antecedentes do que se chamaria teologia da libertação já estavam sendo construídos nos círculos católicos e protestantes há anos. Mas a reunião dos bispos católicos de 1968 na Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM) em Medellín, Colômbia, marcou um ponto de inflexão onde a igreja passou a se distanciar das elites sociais tradicionais. A teologia da libertação foi, assim, liberada para prosseguir com sua "opção preferencial aos pobres".

Este movimento se espalhou poderosamente pela América Latina – e com a assistência de Houtart e outros, também na Ásia e na África. Mas o epicentro era a América Latina, onde o movimento se alinhou com outros grupos da sociedade civil em oposição às ditaduras militares de direita. 

Os teólogos católicos romanos Gustavo Gutiérrez (agora com 89 anos), Leonardo Boff (78) e Jon Sobrino (78), e o metodista José Míguez Bonino (que morreu em 2012) estão entre os liberacionistas mais conhecidos dessa geração. Muitas de suas ideias foram desenvolvidas em associação com Paulo Freire (que morreu em 1997), o ativista educacional cristão brasileiro, proponente da educação popular e autor da aclamada Pedagogia do Oprimido.

Fez também parte desse grupo o paraguaio Fernando Lugo (ainda jovem aos 66 anos), que foi ordenado sacerdote missionário pela Sociedade do Verbo Divino e voltou à sua terra natal para se tornar bispo de San Pedro onde era conhecido como "amigo dos pobres". Em 2008, foi eleito presidente do Paraguai, mas sofreu um impeachment em 2012 por um "golpe de estado constitucional", como assim denominaram seus países vizinhos.

 

Por que esta geração ganhou proeminência na América Latina? Existem inúmeros motivos. Por um lado, no período pós-Segunda Guerra Mundial, alguns como Houtart na Bélgica foram radicalizados pela situação da classe trabalhadora europeia e desafiados pela sua irreligiosidade para encontrar novas formas de articulação e identificação com os pobres. Esta experiência se espalhou para a América Latina quase acidentalmente, pela simples razão de que a Europa estava saturada de sacerdotes e a América Latina precisava de mais deles; conscientemente ou não, a América Latina importou sacerdotes radicalizados em números significativos. Os sacerdotes latino-americanos também estudaram na Europa, absorvendo o pensamento radical. Essas influências foram desempenhadas em sociedades dominadas pela fé católica.

Mas os motivos maiores eram dois: primeiro, a pobreza abjeta da maioria latino-americana, que até mesmo o Vaticano não podia mais ignorar; e, segundo, o surgimento de regimes militares opressivos e amargas revoluções políticas no Brasil, Argentina, Chile, Nicarágua, El Salvador e Guatemala. A necessidade de libertação sentida entre os pobres, os povos marginalizados e indígenas eram tão palpável como era necessária. A partir da década de 1960 até a década de 1980, a luta pela libertação era muito real. 

Esses dias já se foram. A democracia voltou a grande parte da América Latina, bem como uma forma mais pragmática de social-democracia, e a teologia da libertação perdeu algumas das suas razões de ser revolucionária. Em seu aberto e honesto post-mortem sobre o movimento, o belga-latino-americano José Comblin (que morreu em 2011) admite que, em muitos aspectos, os liberacionistas interpretaram mal a experiência de vida dos pobres latino-americanos. 

Enquanto eles se concentraram em camponeses rurais, esqueceram-se de prestar atenção à migração para as cidades. Eles também não entenderam o clima da religiosidade popular dos camponeses, que se manifestaram fortemente contra as igrejas protestante e pentecostal. E ignoraram o desejo do pobre de se tornar consumidores. "Os católicos optaram pelos pobres", como diz o ditado, mas "os pobres optaram pelos mercados".

Portanto, a teologia da libertação não foi mais que um momento. Foi uma resposta particular teo-política a um conjunto específico de circunstâncias – a rebelião de uma geração contra a extrema pobreza dos campos de matança da América Latina revolucionária. Mas a vasta teologia dos liberacionistas perdura como um desafio para toda tradição da igreja. A análise das causas da pobreza e a forma como ela está estruturada em sistemas globais prevalecentes – recentemente articulada por Houtart em seu manifesto de 2011 “Dos bens comuns ao Bem Comum da Humanidade” – desafia toda igreja a abrir os olhos à análise difícil e fria necessária para entender as mudanças do mundo a seu redor. Existe alguma outra coisa que o resto do mundo possa aprender com os liberacionistas? 

No ocidente, o protestante do norte da Europa Anglicana e o católico do Sul Ibérico produziram tradições sociopolíticas muito diferentes, mesmo que compartilhem a história de ser donos de escravos, de supressão de povos indígenas e da exploração de classe capitalista. Se as tendências do Sul são aquelas relacionadas a social-democracia e lutas contra poderosas elites conservadoras, as tendências do Norte são mais liberais de capitalismo laissez-faire e de individualismo expressivo. Do jeito que ela foi conceitualizada na América Latina, a teologia da libertação nunca poderia ter tido sucesso no Norte.

No entanto, tem muitas lições para ensinar. A primeira está na sua consciência – sua vontade de transformar o roteiro social de servir as elites para privilegiar os pobres. A teologia da libertação nunca foi apenas sobre política e revolução. Trata-se também de superar a alienação: a alienação que distancia os seres humanos, as pessoas da Terra, formas de vida ocidental das formas pré-ocidentais, e alienou psiques da transcendência. Ensinou pessoas comuns a perceberem a realidade das suas próprias circunstâncias – a conscientizarem-se, como os liberacionistas diziam – através da autorreflexão, de modo que pudessem libertar-se para construir uma realidade social que resistiu aos poderes da era. 

Em segundo lugar, podemos aprender com sua metodologia, simples e profunda: "Veja-Julgue-Aja". Ou seja, viver no mundo concreto. Descreva a realidade tal como é, não apenas como a teoria nos diz. Mas também julgue a realidade a partir do horizonte de uma humanidade reconciliada, e aja de acordo com a realidade. Os liberacionistas dedicaram muito tempo à análise, e isso lhes permitiu contar, em grande detalhe, a dura verdade de que o mundo que construímos está reduzindo as pessoas à pó, e que isso deve parar, tanto para nossa própria salvação como para o bem-estar dos outros. 

Em terceiro lugar, talvez possamos aprender também com seus erros. Ignorar a religiosidade popular – porque as elites intelectuais e religiosas não estão interessadas na vida cotidiana dos fiéis, ou porque os moradores ricos da cidade esquecem a vida rural e riem das suas tradições, ou porque as classes bem-sucedidas desmerecem as classes trabalhadoras e as culpam por seu próprio sofrimento ­– é deixar grandes segmentos da sociedade sem os recursos materiais, intelectuais e espirituais para encontrar seu caminho no mundo.

Por último, podemos aprender a levar as nossas igrejas mais a sério. Os liberacionistas acreditavam na comunidade espiritual, na comunhão vivificante e nas estruturas históricas da igreja para mantê-los unidos mais do que qualquer movimento religioso que conheço. Eles acreditavam em uma "nova maneira de ser igreja" – confiando que o poder social da fé pode libertar as sociedades tão facilmente quanto pode oprimi-las. 

Desde o fim do socialismo estilo soviético em 1989, a "alter-globalização" e não a "libertação" passou a definir a imaginação radical, mas os problemas da pobreza e da opressão persistem – assim como a possibilidade de que tenhamos que voltar a extrair recursos da teo-política proveniente de uma notável comunidade de sacerdotes radicais para inspirar uma nova geração de ativistas e teólogos alter-globalistas.

About the author

Gregory Leffel, Ph.D., is a missiologist working on collective action, social movements and theo-politics, and is director of One Horizon Institute in Lexington, Kentucky. He is author of Faith Seeking Action: Mission, Social Movements, and the Church in Motion; and is past president of the American Society of Missiology.  


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