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Laboratórios livres para ativistas

A criação de tecnologias combina o saber político com a cultura hacker para democratizar e qualificar o desenvolvimento no Brasil. English

Acreditamos que o desenvolvimento dos aplicativos livres de participação social deve estar na mão dos coletivos e movimentos sociais. Isso é fundamental para que eles possam responder à dinâmica política e social, potencializando ação coletiva autônoma e distribuição de poder.

Esta concepção tem guiado o desenvolvimento dos concursos de ideias do Instituto Cidade Democrática e agora orienta a ação dos “Laboratórios livres de participação social” que estamos realizando na cidade de São Paulo. Nosso objetivo é trabalhar em diferentes bairros da capital, junto com pelo menos sete pontos de cultura. Queremos conhecer suas ações políticas e, a partir delas, modelar juntos o uso de aplicativos digitais livres que as potencializem. E faremos isso com muita presença e muito olho no olho, em cerca de 35 atividades.

Buscamos ser muito criteriosos na escolha dos aplicativos que aproximamos ao projeto. Dentre os fatores que guiaram nossa escolha, os mais importantes são: (1) Ser livre, com o código e API abertos; (2) Ter adesão do Estado e de instituições públicas nas comunidades destes softwares, no que consideramos um critério para desenvolver capacidades estatais, transformando as instituições e gerando impacto; (3) Ter comunidade ativa, preferencialmente já com grupos sociais e coletivos atuantes, em especial na cidade de São Paulo. Estes critérios, já debatidos por nós em artigo anterior, parecem ser fundamentais para construir ações com mais impacto político, institucional e social e de maneira mais sustentável no tempo.

Também nos parece ser a melhor forma para facilitar a entrada dos pontos de cultura e demais coletivos como novos sujeitos das comunidades dos aplicativos, qualificando as decisões de desenvolvimento. O pano de fundo é aprimorar a construção de bens comuns que possam ser efetivamente apropriados pelas comunidades locais e pela sociedade em geral, via articulação da ponta com as comunidades de desenvolvedores. A palavra chave aqui é autonomia. E por outro lado, produzir bens comuns que também possam ser apropriados pelo Estado, em uma relação de soberania — em contraste a um papel de refém de quem produz as tecnologias proprietárias — e de colaboração com a sociedade — em contraste ao modelo monopolista de produção tecnológica.

Em resumo, a ação dos “Laboratórios livres de participação social” terá três fases:

  1. Começa entendendo a realidade de cada ponto de cultura, projetos em andamento e constrói a estratégia de intervenção no território com os aplicativos. Mão na massa para aplicar os aplicativos no projeto do ponto, entender como eles funcionam e identificar melhorias;
  2. Vai desvendar os códigos e a filosofia por trás do desenvolvimento de aplicativos livres de participação social, entendendo como qualquer pessoa pode colaborar com tarefas simples que não envolvem programação;
  3. Na rodada final, hackers que desenvolvem aplicativos livres de participação vão se encontrar com os participantes, conhecendo as melhorias necessárias que foram identificadas e trabalhando juntos.

E quais são os aplicativos livres que pretendemos experimentar nos laboratórios?

Mapas Culturais

O que é? Mapas Culturais é um software livre para mapeamento colaborativo para a Cultura, que contribui para a gestão coletiva da vida cultural dos territórios.

Qual o papel do ponto na comunidade do software? O mapas normalmente é gerido pelo poder público, tendo se adaptado a esse tipo de “cliente”. Porém ele tem muito potencial de dar esse zoom nos territórios a partir da gestão pelos próprios agentes, inclusive deslocando o foco do aplicativo de gestão para os aplicativos de “agenda cultural” construídos com base em sua API. Isso certamente vai gerar um novo tipo de apropriação da ferramenta que vai enriquecer seus usos. A entrada desse novo “usuário” pode animar os desenvolvedores a pensar soluções a partir dos desafios desse novo tipo de uso.

Onde tá funcionando? http://spcultura.prefeitura.sp.gov.br/ — http://mapas.cultura.gov.br/

Cadê o código? https://github.com/hacklabr/mapasculturais

Pol.is

O que é? O Pol.is é um aplicativo open source de deliberação coletiva desenvolvido por uma startup de Seatle e disponível sob uma licença BSD. A primeira utilização em grande escala está sendo feita pelo governo de Taiwan, na plataforma de participação vTaiwan, oriunda do movimento de ocupação do parlamento em 2014, o ”Sunflower Student Movement”. A novidade do Pol.is é usar algoritmos de machine learning para ajudar as pessoas a se encontrar em grupos com base na forma que participam nas propostas.

Qual o papel do ponto na comunidade do software? Tanto o teste de novas funcionalidades como o registro de melhorias, além de poder contribuir pra pensar como evoluir o sotfware de forma a melhorar sua capacidade de incicidência no tecido social do território (como usar melhor a informação dos grupos, como isso gerar ação concreta etc)

Onde tá funcionando? Experimento não oficial sobre propostas para governo aberto na cidade de São Paulo: https://pol.is/9z7kduuuet

Cadê o código? https://github.com/pol-is

Pairwise

O que é? É um aplicativo open source de deliberação coletiva disponibilizado sob uma licença BSD, desenvolvido por um projeto na universidade de Princeton, e que vem sendo aprimorado desde então. A arquitetura do pairwise é de tipo discussão crowdsource, assim como o Pol.is. O pairwise já foi utilizado em alguns debates de escala propostos pelo Governo Federal no âmbito da Conferência Netmundial e pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul no contexto do seu Gabinete Digital. As consultas que utilizaram pairwise no Brasil, envolveram mais de 200 mil pessoas em cada processo com resultados importantes em termos de engajamento e qualidade das propostas.

Qual o papel do ponto na comunidade do software? Melhorias de interface, novos experimentos de sistematização dos resultados.

Onde tá funcionando? http://allourideas.org/ — Relatório da experiencia com pairwise do Governo Federal em 2014: http://www.participa.br/articles/public/0007/0286/resultado-consulta-publica-pt.pdf

Cadê o código? https://github.com/allourideas/pairwise-api

Cidade Democrática

O que é? O Concurso de Ideias Cidade Democrática é uma tecnologia social certificada pela Fundação Banco do Brasil (FBB) e pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), duas das principais organizações que investigam, reconhecem e certificam tecnologias sociais no Brasil. Esta tecnologia articula o uso do software livre Cidade Democrática com um método de engajamento e articulação social nos territórios, como foco na ação local, que consegue estimular a participação social de pessoas comuns e fomenta a emergência de comunidades de colaboração em torno de propostas públicas, em um processo que lança mão de algumas técnicas e inspirações do design thinking aplicado para processos participativos e a inteligência coletiva. O Concurso de Ideias Cidade Democrática já foi realizado em 15 cidades desde 2011, tendo sido realizado em dois estados brasileiros (São Paulo e Pará) e em cidades de diferentes perfis socio-econômicos e portes populacionais. Além disso, a tecnologia social já foi utilizada para o desenho e desenvolvimento da etapa digital da Conferência Nacional de Juventude realizada pelo Governo Federal. Neste caso, o software livre Cidade Democrática não foi utilizado diretamente, mas suas eurísticas, algoritmos e arquitetura inspiraram o desenvolvimento de um aplicativo digital específico da Conferência.

Qual o papel do ponto na comunidade do software? Melhorias de interface, formas de usar os dados e resultados do concurso.

Onde tá funcionando? http://www.cidadedemocratica.org.br/

Cadê o código? https://github.com/cidadedemocratica/cidadedemocratica

Dá pra perceber que são ferramentas distintas. Enquanto o Mapas Culturais é uma ferramenta colaborativa para dados de Cultura, o Pol.is, Pairwise e Cidade Democrática são ferramentas de deliberação coletiva. Algumas delas farão mais sentido outras menos, a depender dos projetos nos territórios. Algumas mixagens também são possíveis!

De nossa parte há muita vontade de experimentar as duas primeiras, já que conhecemos bastante a ferramenta do Pairwise e do Cidade Democrática. Também estamos curiosos com o uso do pol.is — o primeiro de que temos notícia no Brasil e do qual já fazemos parte da comunidade — e das experiências com o Mapas Culturais, que tem uma forte e ativa comunidade de desenvolvedores na capital o que nos empolga ainda mais em estimular os pontos a entrar para ela! Vamos compartilhando os avanços!

About the author

Henrique Parra Filho é graduado em Ciência Sociais na Universidade de São Paulo (USP). Co-fundador do Cidade Democrática, que alavanca a influência da sociedade civil sobre ações e políticas públicas a partir da inteligência coletiva.

Henrique Parra Filho is Co-founder of Cidade Democrática Institute. Graduated in Social Sciences – Universidade de São Paulo - USP. Coordinator of Mobilization, supporting and facilitating collaborative processes around public issues.  


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