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Um país, dois Brasis

Num momento decisivo para o futuro do Brasil, falámos com o um pai e um filho sobre o país do futuro e sobre a sobrevivência da democracia na região. Entrevista (Parte II)

Sebástian Freire/Flickr. Alguns direitos reservados

“Somos todos estranhos uns em relação aos outros. Podemos usar as mesmas palavras, mas não falamos a mesma língua.”

― José Eduardo Agualusa

Às vezes o melhor é não escrever. Às vezes o melhor é ouvir. Este é um desses momentos. A democracia garante que, independentemente do quão fino se corte, sempre existirão dois (muitos) lados. E neste caso, respeitar a democracia supõe rejeitar a possibilidade de que cinquenta milhões de pessoas sejam fascistas, apesar das mesmas terem votado num candidato que parece fascista, e que fala como um fascista.

Quero acreditar que as milhões de pessoas que vivem no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Fortaleza e no Recife votaram em Jair Bolsonaro porque estão desesperadas. E que apenas algumas votaram no candidato do PSL porque ele prometeu acabar com os criminosos e traficantes, acabar com os activismos e devolver o Brasil a um passado sombrio. Pessoalmente, não tenho dúvidas sobre quem Bolsonaro é: um populista que despreza os direitos humanos e a liberdade. Um apologista da tortura que foi crescendo em popularidade com o caos gerado pela corrupção, pela insegurança e pela instabilidade económica.

Apesar de tudo isto, Bolsonaro obteve 46% dos votos na primeira volta das eleições presidenciais brasileiras. Não me compete, portanto, voltar a escrever; chegou a hora de ouvir. 

A democracia garante que, independentemente do quão fino se corte, sempre existirão dois (muitos) lados. 

Manuel Serrano: O Brasil já foi descrito como o país do futuro. O que aconteceu?

Leonardo Lopes da Silva: O Brasil vive uma crise de identidade. E o Brasil que conheço está passando por uma crise institucional que surgiu a partir de uma crise económica, que por sua vez mostrou a forma errada como as administrações desde Sarney até o Temer tem gerido as finanças públicas, algumas políticas económicas e as prioridades sociais.

Nunca se acordou numa visão de estado e país que fosse protegida a todo custo, independentemente da posição política deste ou daquele partido político no poder. E a manutenção de um modelo patrimonialista e clientelista de governo para a realização de projectos de ambos PSDB e PT – sempre com o PMDB ligado parasitariamente a qualquer governo em qualquer circunstância – acabou por manchar permanentemente o processo político, com o inchaço de poder do Executivo, o atolamento do Legislativo em crises, e o activismo muitas vezes arriscado do Judiciário.

O pior de tudo isso é o isolamento e a miopia da classe política, afastada dos centros urbanos e do contacto com os cidadãos, numa cidade no meio do nada – Brasília -  onde todo o tipo de negociata pode ocorrer na calada da noite, com impunidade, sem a necessária pressão da população em cima dos seus representantes.

Criámos governantes que querem governar sem o povo, legisladores que criam leis que beneficiam interesses de grupos escusos e se beneficiam a si próprios, e juízes que julgam com uma formalidade e uma frieza técnica que os afastam da execução da justiça. Em suma, vivemos num país de castas políticas, e agora estas castas estão sendo postas à prova, atendendo a uma narrativa dominante do “nenhum deles presta”.

Criámos governantes que querem governar sem o povo, legisladores que criam leis que beneficiam interesses de grupos escusos e se beneficiam a si próprios.

Paulo Calixto da Silva: Tenho 63 anos, nos quais fui e sou testemunho das muitas fases que o Brasil passou ao longo de sua história recente, até o momento actual. O “Brasil, país do Futuro”, teve esse memorável título, pelo qual fora rotulado por muitos anos, principalmente pela excelente visão e obra do escritor judeu-austríaco Stefan Zweig na metade do século XX, onde descreve nosso país com suas riquezas naturais, culturais, orgânicas, potencialidades, a beleza e características seu povo, para ser grande perante o mundo.

Infelizmente o Brasil, apesar de toda sua pujança, descrita, conhecida e cobiçadas por muitos, tem desperdiçado esses valores, jogando no lixo da História um património valiosíssimo que será muito tarde se não tomarmos urgente medidas (talvez extremas), más necessárias para recuperar o mínimo que ainda resta de um país ou nação soberana. “O que deu errado? Ou o que tem dado errado?”

Eu diria: quase tudo que deveria ser o “certo” dentro de parâmetro de valores que deveriam ter sido aprendidos, criados e preservados. Isso compreendendo na cultura de parte de um povo que não foi preparado para herdar esse país como o Brasil. Aí está à base de tudo: o brasileiro não aprendeu a conhecer, amar e valorizar a sua pátria, deixando de cultivar a sua grandeza, dando lugar aos desmandos e acções de lideranças corruptas e políticas de governos sectários, ideologias casuísticas e modelos danosos.

O brasileiro não aprendeu a conhecer, amar e valorizar a sua pátria, deixando de cultivar a sua grandeza. 

Exemplo disso mesmo são os governos pós-ocupação militar de 1985 até os dias de hoje, tendo seu ponto máximo no governo de Fernando Henrique Cardoso, o mais maléfico e destrutivo de todos, continuando com Lula a Temer, todos eles dentro de projecto ideológico e fisiológico de uma esquerda corrupta e destruidora de valores fundamentais do ser humano. Chegámos a um momento de mudança, e essa mudança precisa de ser radical.

Manuel Serrano: Devemos culpar os políticos por esta situação? Confia neles?

Leonardo Lopes da Silva: Os políticos têm a sua parcela de culpa pela situação. Já seja o PT, que deu ao país uma narrativa de esperança, desenvolvimento e mobilidade que não existe mais, pela sua própria incompetência, inabilidade de analisar a conjuntura na qual o país se encontrava, e pela sua própria sede de querer se entronizar no poder a qualquer custo.

Seja pelo PSDB, que se enveredou numa trilha de total sabotagem da institucionalidade ao buscar a derrubada de Dilma com o PMDB e que quis impor ao país o aprofundamento de uma receita neoliberal reciclada da era Fernando Henrique Cardoso. Seja todos os partidos maiores e menores, imersos numa cultura de fisiologismo e da defesa dos interesses próprios.

Mas a política não se deve perder, deve se reajustar, deve morfar de forma que haja mais participação da população, que se vê como vítima e como ser passivo num processo onde ela perde a sua segurança, vê o seu custo de vida aumentar, os impostos aumentarem, e o seu salário, a sua saúde, a sua educação piorar.

Os cidadãos que agora acordam com um interesse em política devem assumir a responsabilidade pela criação de uma sociedade que conhece as suas leis e os seus legisladores, reivindica os seus direitos, dialoga pacificamente com os seus opositores, e acima de tudo, preza por valores éticos e morais que valorizem e não demonizem maiorias e minorias. Uma sociedade que fala menos sobre moralidade e ponha em práticas de diminuir a corrupção no seu próprio dia a dia, desde o pagar dos impostos até o respeito às leis do trânsito.

Vivemos num país de castas políticas, e agora estas castas estão sendo postas à prova, atendendo a uma narrativa dominante do nenhum deles presta.

Paulo Calixto da Silva: Em parte sim, mas também toda uma estrutura de um sistema caótico de impunidade e selectividade entranhado no cerne de uma justiça corrupta e leniente. De uma população carente de uma cultura de valores, direitos, deveres intrinsecamente fundamentados numa formação matricial de família e na educação.

Manuel Serrano: Posso perguntar em quem você votou? Você é de esquerda? É conservador? Petista? Bolsonarista? Votaria noutra pessoa se tivesse a oportunidade?

Leonardo Lopes da Silva: estou impossibilitado de votar por problemas burocráticos, mas teria votado no Ciro Gomes no primeiro turno, e votaria no Haddad no segundo, com todas as ressalvas possíveis e imagináveis.

Sou alguém que estava na extrema-esquerda na juventude, tendo militado num dos minúsculos partidos trotskistas que existem no Brasil, e que agora se alinha com os valores de uma esquerda reformista, que não deseja a revolução, mas a preservação da democracia, dos aspectos positivos do liberalismo, de uma visão onde o individuo, na busca pela afirmação das suas liberdades, não pode se esquecer da sociedade na qual está inserido, e vice-versa.

A política não se deve perder, deve morfar de forma que haja mais participação da população, que se vê como vítima e como ser passivo. 

Um mundo onde os poucos que detém quase tudo trabalham com os muitos que quase nada tem para que haja pelo menos desigualdades menores, disparidades menores., transformando o capitalismo predatório numa força sustentável, ética, humanitária, libertadora.

Como alguém deste lado do espectro, repudio todo e qualquer totalitarismo, toda e qualquer ditadura, e repudio a mim mesmo por ter abraçado uma causa totalitária, apesar de nunca ter causado mal a ninguém ou brigado com ninguém na defesa da mesma. Desejo buscar um diálogo inclusivo e não sectário na defesa de um número cada vez maior de pessoas que estão sendo excluídas das benesses de uma globalização que beneficia a poucos, governos e blocos económicos que não contemplam a classe trabalhadora e media, e a exploração sem limites dos recursos naturais do planeta a causar catástrofes cada vez maiores.

Repudio todo e qualquer totalitarismo, toda e qualquer ditadura, e repudio a mim mesmo por ter abraçado uma causa totalitária.

Paulo Calixto da Silva: Sim, votei no primeiro turno e votarei no segundo turno no candidato à Presidência do Brasil Jair Bolsonaro porque ele representa, não só para mim, más também para aproximadamente mais de 80 milhões de brasileiros, a única e última esperança de mudar e barrar o rumo obscuro que está a conduzir o Brasil para uma esquerda totalitária e extremista do abominável comunismo.

Jair Bolsonaro representa o desejo de mudança de uma gigantesca massa de brasileiros que com trabalho e dedicação sustentam a economia desse país e são as últimas reservas dos valores familiares, religiosos e patriotas que amam o Brasil.

Sou sim conservador dos valores pátrios, culturais, históricos, humanos e familiares. Não sou de esquerda, más fui um fervoroso defensor e sempre votei em todas as candidaturas de Fernando Henrique Cardoso, Lula e até Dilma Rousseff, mas felizmente tive a oportunidade de enxergar a razão, e mudei completamente minha visão da política e dos políticos. 

Ao ficar a conhecer a esquerda, o comunismo e tudo que representam de mal para o Brasil, para a sociedade e para o mundo, não tenho a menor dúvida que sou de direita. Não sou ligado a nenhum partido, nem pretendo me filiar a nenhum: o meu partido é o Brasil.

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About the authors

Leonardo Lopes da Silva ê um cidadão brasileiro residente em Lisboa, Portugal. Um leitor voraz, ele escreve poesia desde os seus 16 anos, publicou o seu primeiro livro de poemas, “A Língua do Pulsar”, aos 34 anos, e deseja explorar mais mundos nos seus escritos e nas suas viagens.

Paulo Calixto da Silva é natural de Pirapozinho, São Paulo. Paulo é topógrafo, designer de interiores e especialista em manutenção de maquinaria siderúrgica. Actualmente trabalha como chefe de manutenção na usina termeléctrica de Linhares (Espírito Santo).  

Manuel Serrano is a Portuguese journalist and political analyst. He currently works as a freelance Foreign Correspondent for DemocraciaAbierta. Previously, he worked as a Robert Schuman Journalist at the European Parliament and as a Junior Editor at DemocraciaAbierta (2015-2017). He holds a Bachelor’s degree in Law from ESADE Law School and a Master´s degree in International Relations (IBEI).


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