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Dois e dois são efectivamente quatro

Pode ser verdade que nos enfrentamos a uma crise existencial e que os prognósticos não são os melhores. Mas não vamos ficar calados. A democracia está em jogo. English Español

Donald Trump durante uma conferência de imprensa na Sala Este da Casa Branca. Washington, DC. 16 de Fevereiro de 2017. Riccardo Savi/SIPA USA/PA Images. Todos os direitos reservados.

Mas, uma e outra vez, chega um momento na história em que o homem que se atreve a dizer que dois e dois são quatro é condenado à morte. O professor é muito consciente disso. E a questão não consiste em saber que castigo ou recompensa devirá deste cálculo. A questão é saber se dois mais dois são efectivamente quatro.

― Albert Camus, A peste.

O senhor pode dizer que vai transferir o poder do establishment para as pessoas, mas não é suficiente dizê-lo para que seja verdade. O seu secretário de imprensa pode dizer que a audiência que assistiu à sua tomada de posse foi a maior da história, mas não é por gritar muito que vai alterar a realidade. A sua assessora pode dizer que inventar um “massacre” foi um erro inocente, mas todos sabemos que se tratou duma tentativa deliberada para assustar as pessoas para que aceitassem a proibição de entrada dos muçulmanos nos Estados Unidos. Pode fazer de conta que perdeu o voto popular porque houveram milhões de votos ilegais, mas não existe prova absolutamente nenhuma que evidencie uma fraude eleitoral.

Parafraseando o grande êxito de Carly Simon You´re So Vain (1972), provavelmente pensa que este artigo é sobre o senhor. Todos sabemos o quanto o senhor se preocupa consigo mesmo. O fantástico que o senhor pensa que é. O grande que o senhor acha que é o seu governo. E os maus que somos nós, os jornalistas. Mas não, este não é um artigo sobre o senhor. É sobre nós. Sobre um panorama mais amplio. Há civis em situações de risco em todo o mundo por causa do que o senhor diz. Há refugiados que estão a fugir de zonas de guerra que estão a ser bombardeadas pelo seu amigo Putin. A União Europeia está a tentar lutar contra os discursos populistas e nacionalistas similares ao seu que ameaçam com pôr fim a um período sem precedentes de 70 anos de paz na Europa. E o senhor está a enganar os trabalhadores norte-americanos levando-os a acreditar que a automatização e a globalização económica e financeira são coisas do passado. Mas o mundo não para por si, por muito que o senhor recorra ao Twitter ou por muito que assedie os jornalistas. Por isso quero dirigir-me aos outros, ao resto – a todos nós – e comprometer-me a não responder unicamente às perguntas fáceis. O senhor pode dizer o mesmo?

Empatia para superar o classismo

Desde qualquer perspectiva da que se observe, está a acontecer: nós somos nós, eles são eles; estão enganados, temos razão; eles mentiram, nós não; disseram-nos a verdade, deram-nos noticias falsas. Isto não nos leva a lugar nenhum. Por entendível que seja criticar – eu mesmo o fiz – aqueles que votaram no Sr. Trump, o tiro está-nos a sair pela culatra. Não precisamos de convencer os que votaram em Hillary Clinton, nem os que teriam votado em Bernie Sanders de que estamos do lado certo da história. O que temos que fazer é convencer os que votaram em Trump que, sem querer, eles estão do lado errado. No dia 17 de Fevereiro, a taxa de aprovação de Trump estava 21 pontos por debaixo da media histórica, em meados de Fevereiro, dos presidentes recém-eleitos. A sua taxa de aprovação entre os democratas era dum 8%, enquanto que, de acordo com a Gallup, somente 35% daqueles que se autodefinem como independentes consideravam positivo o seu desempenho no cargo. Mas entre os republicanos, a sua taxa de aprovação era de 87%.

Não precisamos de convencer os que votaram em Hillary Clinton, nem os que teriam votado em Bernie Sanders, de que estamos do lado certo da história.

Apesar das suas ordens executivas para paralisar a admissão de refugiados durante um período de 120 dias e proibir a entrada de cidadãos de sete países de maioria muçulmana durante 90 dias, das questionáveis relações do seu circulo mais próximo com a Rússia, antes e depois das eleições, e do seu desprezo pela realidade, os votantes republicanos não perderam fé nele. A sua taxa de aprovação entre os republicanos tinha caído somente três pontos nesse mesmo período. O que ilustra perfeitamente o problema: os democratas e a maioria dos independentes são consciente de quem o Sr. Trump é e das terríveis consequências que a sua presidência poderá supor para os Estados Unidos e para o mundo; mas os republicanos – pelo menos a maioria deles – parecem estar satisfeitos com o seu primeiro mês no cargo. Que podemos fazer em relação a isto?

Podemos começar por reconhecer que falhámos. Que nós também, os chamados progressistas e liberais, talvez não sejamos assim tão progressistas. Como expõe de forma brilhante Ken Wilber em Trump e o mundo da pós-verdade, nós também sofremos de classismo. O nosso desdém pelas bases de apoio do Sr. Trump – pessoas incultas, brancas, de classe baixa, de linhagem rural – não se discute. Consideramos que os seus valores e ideias são algo que temos que ultrapassar, algo que não tem lugar no mundo de hoje: por exemplo, fundamentalismo religiosos, as exigências nacionalistas ou a desconfiança em relação à ciência. Era lógico esperar que votassem numa candidata que acreditava que essas ideias não tinham cabida num mundo moderno e livre?

Podemos começar por reconhecer que falhámos. Que nós também, os chamados progressistas e liberais, talvez não sejamos assim tão progressistas.

Claro que não. No final, apesar de termos os factos, os valores e as políticas do nosso lado, não ganhámos. Perdemos porque nos comportámos com os partidários do Sr. Trump um pouco como se comporta o próprio Trump: de forma arrogante. Assumimos que tínhamos tudo controlado e que, obviamente, um número suficiente de pessoas ia votar pelo candidato que representava a democracia. Que, obviamente, os votantes não iam votar num candidato disposto a construir um muro para deter a imigração ou promulgar uma proibição para manter afastados os muçulmanos. Mas votaram.

O comentário de Hillary Clinton chamando aos partidários do Sr. Trump “um cabaz de deploráveis” não a fez perder as eleições. Simplesmente reflectia o que muitos democratas, liberais e esquerdistas pensam sobre a base de apoio do Sr. Trump. Como escreve Ken Wilber, citando Jeremy Flood, autor de A Revolução deve sentir-se, “a esquerda fracassou porque a história que estava a vender não foi suficientemente potente para superar esses ressentimentos, por outra parte, antigos.”

A questão não gravita em aceitar uma narrativa racista, sexista e tendenciosa. Pelo contrário: tratasse de reconhecer que também nós podemos cair no erro de acreditar que somos superiores de alguma forma a muitos dos nossos cidadãos, simplesmente porque fomos à universidade e eles não. E que, ao cair neste erro, perdemos a nossa vantagem em relação aos autocratas, aos racistas, e aos populistas. Perdemos contacto com a democracia. A substancia da narrativa do Sr. Trump deve ser combatida através de todos os mecanismos legais e pacíficos que temos a nossa disposição. Mas o aspecto fundamental de manter um debate democrático, mais além de tornar possível uma sociedade pacífica e umas políticas acordes com o sistema jurídico, é o seu potencial para alterar aqueles que participam nele. Só debatendo e ouvindo o que dizem os outros podemos melhorar o nosso sistema democrático. E nós mesmos.

A substancia da narrativa do Sr. Trump deve ser combatida através de todos os mecanismos legais e pacíficos que temos a nossa disposição.

A empatia deve desempenhar aqui um papel chave. O astuto lema de Hillary Clinton – “O amor triunfa sobre o ódio” – só pode funcionar se este “amor” estiver disponível para todos os cidadãos, independentemente de quão atrasadas nos possam parecer as suas ideias, e não só daqueles que estão de acordo connosco. A esta altura, já devíamos ter aprendido isto. Não ganhamos nada ao falar desde os nossos pedestais, dirigindo-nos a audiências que pensam exactamente como nós. Entender os partidários do Sr. Trump não é fácil, mas é absolutamente necessário pormo-nos no seu lugar se quisermos afastar o Sr. Trump do cargo em 2020. A empatia pode, e deve triunfar sobre todos os tipos de ismos, venham eles de onde vierem.

O aspecto fundamental de manter um debate democrático, mais além de tornar possível uma sociedade pacífica e umas políticas acordes com o sistema jurídico, é o seu potencial para alterar aqueles que participam nele.

Os verdadeiros inimigos do povo

O Sr. Trump não sabe construir pontes. Mas sabe muito sobre como levantar muros. E, tal qual como a grande maioria dos autocratas, teme a imprensa. Por tanto, decidiu atacá-la fazendo acusações contra a mesma. A magnitude e a intensidade dos ataques cresceram de forma exponencial, ao mesmo tempo que tentava distrair os seus partidários – ao menos tanto como a ele mesmo – da realidade. Mas no dia 16 de Fevereiro, o Sr. Trump soltou-se : numa conferência de imprensa de 77 minutos, o Presidente dos Estados Unidos acusou a imprensa de actuar de forma desonesta, de difundir noticias falsas sobre os vínculos dos membros do seu governo com a Rússia e de pôr em causa de forma injusta a sua preparação para ser e actuar como presidente da democracia ininterrompida mais antiga do mundo. Não contente com a sua exibição, no dia seguinte decidiu ir ainda mais longe. Num tweet – o seu instrumento preferido de pronunciamento autocrático, tal como o classifica David Remnick –, o Sr. Trump declarava que os meios de comunicação eram o “inimigo do povo americano”.

Mas enganou-se. Os inimigos do povo americano – e de todos os povos do mundo – não são os manifestantes, os juízes, os jornalistas, os activistas ou os políticos que decidem sacrificar a sua carreira e a sua vida pessoal para cumprir com aquele que consideram ser o seu dever para com a sociedade. Os inimigos do povo americano – e de todos os povos do mundo – são os autocratas como o Sr. Trump, o Sr. Putin e o Sr. Erdogan. Os que dividem o seu país em vez de uni-lo. Os que desconhecem o que é governar uma sociedade diversa e complexa. Os que, fundamentalmente, não estão de acordo com o conceito de liberdade de imprensa e, por tanto, com a democracia.

Os inimigos do povo americano não são os manifestantes, os juízes, os jornalistas, os activistas ou os políticos que decidem sacrificar a sua carreira e a sua vida pessoal para cumprir com aquele que consideram ser o seu dever para com a sociedade.

Durante a conferência de imprensa do dia 16 de Fevereiro, perguntaram ao Sr. Trump “se ao atacar as noticias falsas, não estaria a socavar a imprensa”. É difícil entender a sua resposta, mas o parágrafo final diz textualmente:

“Olhe, eu quero uma imprensa honesta. Quando comecei hoje dizendo que é tao importante para as pessoas ter uma imprensa honesta, a imprensa… o público já não acredita em vocês. Talvez eu tenha tido algo a ver com isso, não sei. Mas não acreditam em vocês. Se vocês fossem directos e dissessem as coisas como são realmente, como dizia Howard Cosell…não é assim?”

Aqui, seguramente, o Sr. Trump tem razão. O público já não acredita nos meios de comunicação. E a culpa é nossa. Falhámos-lhes. Não porque fabriquemos noticias ou nos dediquemos a difundir mensagens de ódio – algo sobre o que o Sr. Trump e sobretudo o seu chefe de estratégica Steve Bannon podiam dar uma master class –, mas sim porque subestimámos a capacidade do Sr. Trump de crescer sobre a base do ressentimento daqueles pelos quais nós, progressistas, fomos incapazes de demonstrar empatia. E porque sobrestimámos a nossa capacidade de falarmos com os cidadãos – especialmente com a base de apoio do Sr. Trump – e explicar-lhes que a democracia, a liberdade e os direitos civis não são palavras vazias.

O caminho não será fácil, mas a luta continua. Isto acabou de começar. Pode ser verdade que nos enfrentamos a uma crise existencial e que os prognósticos não são os melhores. Mas não vamos ficar calados. A democracia está em jogo e ninguém pode ficar à margem desta luta. Ponto. 

About the author

Manuel Serrano holds a Bachelor’s degree in Law from ESADE Business and Law School and a Master´s degree in International Relations from the Barcelona Institute for International Studies (IBEI). He is an international affairs analyst, journalist and editor. He worked as Junior Editor at openDemocracy (2015-2017) and currently is freelance correspondent in Lisbon.

Manuel Serrano es licenciado en Derecho por la ESADE Business and Law School y Máster en Relaciones Internacionales por el Instituto Barcelona de Estudios Internacionales (IBEI). Es analista político, periodista e editor. Trabajó como Editor Asistente en openDemocracy (2015-2017) y actualmente es corresponsal freelance en Lisboa.

Manuel Serrano é licenciado em Direito pela ESADE Business and Law School e completou o Mestrado em Relações Internacionais no Instituto Barcelona de Estudos Internacionais (IBEI). É analista político, jornalista e editor. Trabalhou como Editor Júnior na openDemocracy (2015-2017) e actualmente é correspondente freelance em Lisboa.


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