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“Por favor, estamos a morrer”

Mohanned Jammo, médico Sírio a bordo dum barco a 61 milhas de Lampedusa, pediu ajuda à Guarda Costeira Italiana. “Por favor, estamos a morrer”, disse. English Español

Migrantes e refugiados num barco aproximando-se da ilha grega de Kos. Fotografia: Jonathan Brady/ PA Fio/ PA. 22 Fevereiro de 2017. Todos os direitos reservados.

Aquele que se desespera perante a condição humana é um cobarde, mas aquele que conserva esperança acerca da mesma é um insensato.” – Albert Camus 

Há artigos que escrevemos porque temos que fazê-lo. E há artigos que escrevemos só porque precisamos fazê-lo –não poderíamos dormir se não o fizéssemos.

Depois da publicação dos resultados das eleições presidenciais franceses e a proclamação do Sr. Macron, senti-me aliviado. Para mim, como para a maioria dos europeus, a possibilidade de que a Madame Le Pen fosse eleita presidente da França era um pesadelo. A vitória de Macron indicava que, apesar de tudo, ainda há esperança para a Europa. Os populistas perderam duas batalhas importantes: a Holanda e a França escolheram a liberdade e o pluralismo em vez do nativismo e da intolerância.

Uns dias mais tarde, contudo, enquanto estava a rever as minhas notas para terminar um artigo sobre a vitória do Sr. Macron e o ressurgir da Europa, deparei-me com um artigo que me chamou a atenção. Dizia: as forças italianas ignoraram um barco cheio de refugiados sírios que se afundava em alto mar. O artigo, publicado pelo semanário italiano L´Espresso, faz referencia a cinco gravações que indicariam que as autoridades italianas em 2013 ignoraram o pedido de auxilio dum barco procedente da Líbia que transportava refugiados. O barco afundou-se a umas 61 milhas a sul de Lampedusa. Mais de 260 refugiados morreram. Sessenta deles eram crianças.

A bordo do barco estavam quatrocentas e oitenta pessoas. Eram cidadãos Sírios que tinham procurado primeiro asilo na Líbia – para escapar à guerra que está a arrasar o seu país desde 2011 – e que, quando estalou o conflito também na Líbia, decidiram fugir de novo. Desta vez, infelizmente, a maioria deles não chegaram ao porto. Não é uma história nova nem, infelizmente, única. Mas foi no dia 8 de Maio de 2017 quando ficámos a saber o que aconteceu exactamente naquele 10 de Outubro de 2013. As cinco conversas telefónicas registadas reflectem como as autoridades italianas abandonaram – desta vez, pelo menos – os refugiados ao seu destino.

Quando estalou o conflito também na Líbia, decidiram fugir de novo. Desta vez, infelizmente, a maioria deles não chegaram ao porto.

Na primeira gravação, podemos ouvir um dos passageiros – Mohanned Jammo, um médico – a pedir ajuda à sede da Guarda Costeira italiana em Roma. O Dr. Jammo diz à pessoa que atende a chamada que o “barco se está a afundar”. Ela pergunta-lhe pela sua posição. Ele dá-lha. Isto acontecia às 12.39 p.m.

Na segunda gravação, o médico pergunta à Guarda Costeira se já enviaram ajuda. Um homem responde e diz-lhe, várias vezes, que ligue para Malta. “Por favor, por favor, ligue para Malta directamente, estão perto, de acordo? Isto acontecia às 1.17 p.m.

Na terceira gravação, o médico voltou a ligar à Guarda Costeira italiana, informando que as autoridades maltesas lhe tinham dito que se encontravam mais perto de Lampedusa. A mulher do outro lado da linha telefónica continua a dizer que “tem que ligar para Malta”. O médico pergunta: “Lampedusa é Itália? Por favor, estamos a morrer”. Isto acontecia às 1.48 p.m.

Numa quarta gravação, pode-se ouvir as autoridades maltesas a pedir às autoridades italianas que mandem um barco que esteja perto para resgatar os refugiados. O oficial italiano recusa fazê-lo, uma vez que isto poria Itália “na situação de ter que assumir a responsabilidade pela transferência dos refugiados para a costa mais próxima”. Pelo que parece, o oficial estava preocupado que caso enviasse um barco de patrulha, esta deveria transportar os refugiados para Lampedusa. Isto acontecia às 4.44 p.m.

Na quinta e última gravação, as autoridades maltesas informam os italianos que o barco se afundou. Isto acontecia às 5.07 p.m. O oficial maltês diz ao seu homólogo italiano que têm que enviar o seu barco patrulha, porque o de Malta não chegaria a tempo para resgatar os refugiados. Foi só nesse momento, quase quatro horas depois da primeira chamada, que as autoridades italianas acederam a enviar o seu barco, o Libra, que se encontrava a 20 milhas de distancia dos refugiados – entre trinta e sessenta minutos. O Libra chegou ao lugar do naufrágio às 6. O barco que transportava os refugiados tinha-se afundado e 268 dos passageiros morreram afogados. Só se recuperaram 26 cadáveres. E só sobreviveram 212 das 480 pessoas que viajavam a bordo.

Mais de 1.300 refugiados morreram no Mediterrâneo este ano – quase 250 durante o segundo fim-de-semana de Maio. O clima favorável, as más condições das embarcações e o cinismo dos desalmados que fazem negocio com o desespero dos refugiados não farão mais que piorar a situação nos próximos messes. O número de refugiados que tentarão chegara as nossas costas aumentará sem nenhuma dúvida. Apesar das tentativas de criminalizar as ONG´s – que são acusadas de “conivência” com as máfias do tráfico de pessoas e de propiciar um “efeito chamada” –, estas resgataram mais de 46.000 pessoas nas aguas do Mediterrâneo em 2016 – o que equivale a mais de 26% de todas as operações de resgate. E espera-se que, este ano, a percentagem chegue a um 33%.

Aproximadamente 380 refugiados são resgatados no dia 11 de Dezembro de 2016 em águas internacionais ao largo da costa da Líbia no mar Mediterrâneo pela ONG SOS Mediterranee e transferidos para a Sicília. Laurin Schmid SOS Mediterranee/DPA/PAL Images. Todos os direitos reservados.

Sem pôr em causa os esforços realizados pela Frontex, – a Agência Europeia de Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas – a abordagem europeia perante esta crise europeia humanitária só pode ser classificada como um trágico fracasso. As missões de busca e salvamento podem não ser a solução para o problema dos refugiados, mas, qual é a alternativa? Durante quanto tempo teremos que esperar para que os lideres europeus adoptem políticas de sentido comum humanitário para nos enfrentarmos a esta crise?

Não fomos capazes de estabelecer rotas legais e seguras para que os refugiados possam chegar às nossas costas. E esta falta de assistência parece-se cada vez mais a uma estratégia de dissuasão: uma estratégia para prevenir futuras travessias. O Mediterrâneo é agora a principal via de entrada para os refugiados porque as fronteiras terrestres estão fechadas. A política de tentar manter os refugiados fora da Europa não só vai contra tudo o que a Europa representa, mas como também fracassa estrepitosamente.

Durante quanto tempo teremos que esperar para que os lideres europeus adoptem políticas de sentido comum humanitário para nos enfrentarmos a esta crise?

Se vocês estivessem, como eu estava, preparados para celebrar a vitória de mais um político que promete um futuro melhor para o seu país e uma melhor União Europeia para todos, deveriam ouvir primeiro estas gravações. E enquanto o fazem, por favor, imaginem que estão no meio do mar, a pedir ajuda desesperadamente, provavelmente com os vossos filhos, e que aqueles que esperam que venham ao vosso resgate – e que se encontram somente a 20 milhas de distância – demorem quatro horas a chegar. É verdade que, felizmente, isto não é a norma. Há pessoas valentes e desinteressadas que trabalham todos os dias para salvar vidas arriscando a sua própria, no mar ou em terra firme. Contudo, casos como o descrito nas gravações tornadas públicas em Itália reflectem a falta de vontade subjacente de União Europeia – e da maioria dos seus países membros – para defender com tanto afinco os direitos humanos dentro da UE como o fazem fora. Mostram um Europa muito diferente daquela que se fundamenta no conceito de dignidade humana.

Confesso que, depois de ouvir as gravações, me foi impossível escrever sobre as eleições francesas. Ou sobre a União Europeia. Continuava a ouvir as palavras do Dr. Mohanned Jammo: “Por favor, estamos a morrer”, “Por favor, estamos a morrer”, “Por favor, estamos a morrer”.

Suponho que este artigo se classifica como um daqueles que uma pessoa precisa de escrever. Mas ainda me custa adormecer.

About the author

Manuel Serrano holds a Bachelor’s degree in Law from ESADE Business and Law School and a Master´s degree in International Relations from the Barcelona Institute for International Studies (IBEI). He is an international affairs analyst, journalist and editor. He worked as Junior Editor at openDemocracy (2015-2017) and currently is freelance correspondent in Lisbon.

Manuel Serrano es licenciado en Derecho por la ESADE Business and Law School y Máster en Relaciones Internacionales por el Instituto Barcelona de Estudios Internacionales (IBEI). Es analista político, periodista e editor. Trabajó como Editor Asistente en openDemocracy (2015-2017) y actualmente es corresponsal freelance en Lisboa.

Manuel Serrano é licenciado em Direito pela ESADE Business and Law School e completou o Mestrado em Relações Internacionais no Instituto Barcelona de Estudos Internacionais (IBEI). É analista político, jornalista e editor. Trabalhou como Editor Júnior na openDemocracy (2015-2017) e actualmente é correspondente freelance em Lisboa.


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