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Brasil: 1964 X 2018, um paralelo

O que sabemos é que a sociedade brasileira permitiu que os militares interviessem, declarando a tática era necessária para proteger sua amada democracia, e o resultado foram 21 anos de ditadura. Español English

A sociedade brasileira apoiou o golpe militar de 1964.

A mídia alegou que a intervenção era necessária para impedir um golpe do presidente João Goulart. O medo pode ou não ter tido fundamento. Já que Goulart não tentou deu um golpe, nunca saberemos.

O que sabemos é que a sociedade brasileira permitiu que os militares interviessem, declarando a tática era necessária para proteger sua amada democracia, e o resultado foram 21 anos de ditadura.

“Ressurge a Democracia!“ anunciou a manchete do O Globoum dos veículos mais importantes do país. 

“Vive a nação dias gloriosos”, continua o artigo publicado dia 2 de abril de 1964, um dia após a instauração do novo governo. “Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sôbre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem”.

Passados 54 anos, o cenário é surpreendentemente semelhante. Os brasileiros de ambos os lados do espectro político estão lutando em nome da democracia, mesmo quando um dos lados claramente não o seja.

O Globo estava longe de ser o único. A publicação foi acompanhada pelo O Estado de S. PauloFolha de S.PauloJornal do Brasil e o Correio da Manhã, para citar apenas alguns. A maioria dos brasileiros estava comemorando, como ficou evidente pelas demonstrações e marchas que aconteceram em todas as grandes cidades.

Passados 54 anos, o cenário é surpreendentemente semelhante. Os brasileiros de ambos os lados do espectro político estão lutando em nome da democracia, mesmo quando um dos lados claramente não o seja.

Os que apoiam o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro afirmam que os 13 anos de governo sob a liderança do Partido dos Trabalhadores levaram o Brasil a uma das piores crises econômicas que já atingiu o país. Unindo-se a Bolsonaro no segundo turno está Fernando Haddad, que também é do PT, o que marcaria um quinto mandato consecutivo para o partido.

Cenário econômico atual

A aversão ao PT, por mais justificada que seja, significa apenas que o Brasil está mais próximo de 1964 do que gosta de admitir (ou ver). O que o país está enfrentando agora é um cenário que envolve dois lados familiares. O PT governou o Brasil durantetempos de colheita farta, mas também durante tempos duros.

Sob o PT, milhões de brasileiros saíram da pobreza, o crescimento da renda dos assalariados baixos aumentou (entre 2001 e 2012, a renda dos 5% mais pobres cresceu 550% mais rápido do que os 5% mais ricos) e o país exibiu uma queda na desigualdade (de um coeficiente GINI de 0,59 em 2001 para 0,53 em 2012).

Mas o partido também governou o Brasil durante uma brutal recessão econômica que se tornou um dos mais lentos ciclos de retomada econômica da história. Em 2015, o país exibiu um crescimento de 3,5%, que despencou para -3,6% em 2016, algo que o país não vivencia desde 1990.

Das oito recessões econômicas que atingiram o Brasil desde a década de 1980, quando o país voltou a um modelo democrático, o mais recente marca a crise da qual o Brasil está sofrendo mais para se recuperar.

O cenário econômico de 1964

A rápida industrialização de meados do século XX transformou o Brasil rural em uma sociedade urbana em crescimento. O número de trabalhadores industriais cresceu para 2,9 milhões em 1960, mais que dobro do nível de 1940, quando o número era de 1,6 milhão. A indústria chegou a representar 25,2% do PIB, superando a parcela da agricultura, com 22,5%.

Mas essa industrialização também significou uma urbanização rápida e descontrolada. Em 1960, 44% dos 70 milhões de brasileiros viviam em áreas urbanas. A inflação disparou, subindo de 12% em 1949 para 26% em 1959 e chocantes 39,5% em 1960.

Nesse cenário, a economia tropeçava para sustentar o desenvolvimento. As poupanças estavam depreciadas, os credores se recusavam a oferecer empréstimos de longo prazo, as taxas de juros caíram e o governo se recusava a realizar programas modelados de acordo com os do Fundo Monetário Internacional.

Além disso, a desigualdade continuar disparando, com 40% da renda nacional indo para 10% da população, 36% para os próximos 30% e 24% divididos entre os 60% mais pobres dos brasileiros. Os governos locais tiveram dificuldade em formular um plano econômico que satisfizesse os credores e mantivesse o comércio fluindo ao mesmo tempo.

Violência hoje

Para piorar o cenário, o Brasil recentemente bateu seu próprio recorde de homicídios, chegando a 63.880 assassinatos em todo o país em 2017, um aumento de 3% em relação ao ano anterior. Crimes associados ao narcotráfico estão desenfreados, e a maior parte das vítimas vem de comunidades marginalizadas, que estão legitimamente frustradas com a situação. Eles foram deixados para trás e têm todo o direito de estarem desapontados com o partido que supostamente tinha seus melhores interesses como base.

Os brasileiros são reféns em seus próprios bairros e comunidades. Eles não se sentem seguros andando pelas ruas em que cresceram. O único candidato que oferece uma solução rápida para o seu pedido é Bolsonaro.

Infelizmente, sua solução não é apenas inviável e enganosa, é também perigosa. Bolsonaro prometeu armar a população para que os cidadãos possam se proteger, embora estudos mostrem que mais armas resultam em mais violência, e não o contrário.

Mas o que as populações marginalizadas ouvem é alguém que fala com eles e enxerga sua situação quando os partidos esquerdistas aparentemente os negligenciam e os jogaram nas mãos do tráfico de drogas.

O PT falhou, assim como os movimentos sociais esquerdistas, o que deixou um vácuo que progressivamente passou a ser ocupado por forças direitistas, particularmente forças de extrema-direita, que sabem exatamente como transformar questões reais em mentiras incendiárias para favorecer sua causa.

A ameaça "comunista", 2018

Qualquer um que já tenha conversado com um eleitor de Bolsonaro já ouviu a palavra "Venezuela" repetida como o mantra. Se a PT vencer, o Brasil virará a próxima Venezuela, afirmam. A extrema direita brasileira luta uma batalha quase quixotesca contra a venezuelização do Brasil.

Qualquer um que já tenha conversado com um eleitor de Bolsonaro já ouviu a palavra "Venezuela" repetida como o mantra. 

Por meio de "notícias falsas" divulgadas principalmente via WhatsApp - ato pelo qual Bolsonaro está sendo investigado - a direita nacional promove a noção de que o PT é equivalente ao governo chavista de seu vizinho a noroeste, pois os dois eram de fato aliados a princípio dos anos 2000.

Esse medo gerou polêmica sobre o retorno do comunismo. Tanto que Haddad optou por deixar a vermelho característico do seu partido, substituindo-o pelo verde, amarelo e azul da bandeira após uma primeira rodada difícil.

Cada instituição e pessoa que critica Bolsonaro, ou “O Mito” como seus seguidores o chamam, foram chamados de “comunistas”, incluindo liberais conhecidos como The Economist, que chamou o candidato de extrema direita de “a mais recente ameaça da América Latina” em sua edição de setembro, e do cientista político e economista Francis Fukuyama, conhecido por sua defesa das democracias liberais e do capitalismo de livre mercado.

“Muitos brasileiros parecem pensar que sou comunista porque estou preocupado com a presidência de Bolsonaro. E você acha que os americanos estão polarizados ... ”Fukuyama twittou no início deste mês.

O medo de cair em armadilhas parecidas a da Venezuela, com uma inflação de 1.000.000% e emigração em massa, pode não ser totalmente infundado. No entanto, o candidato com maior probabilidade de realizá-lo não é Haddad ou o PT, mas o próprio Bolsonaro. Assim como Hugo Chávez antes e depois Nicólas Maduro, Bolsonaro é um populista. Apesar de pertenceram a lados opostos do espectro político, o populista brasileiro é mais semelhante aos chavistas do que seus seguidores gostam de admitir.

Como Chávez, Bolsonaro leva uma campanha que critica o sistema político e ataca o chamado establishment. Essa estratégia populista, embora eficaz nas pesquisas, tende a levar a uma crise institucional, especialmente na América Latina, como mostra a história com os exemplos de Perón na Argentina, Fujimori no Peru e Rafael Correa no Equador.

A semelhança mais marcante de Bolsonaro com Chávez é sua ligação com os militares.

Mas, mais importante, a semelhança mais marcante de Bolsonaro com Chávez é sua ligação com os militares. Bolsonaro, ex-capitão da reserva do Exército, se referiu publicamente à ditadura militar como um período "glorioso" na história do Brasil, e elogiou que, sob a ditadura militar, o Brasil desfrutou de "20 anos de ordem e progresso".

Além disso, para seu companheiro de chapa, Bolsonaro escolheu o general aposentado do Exército Hamilton Mourão, que já mostrou que não tem medo de enfrentar Bolsonaro.

A ameaça comunista, 1964

Logo após a crise dos mísseis de Cuba, que marcou o auge da Guerra Fria, o mundo se encontrava fortemente dividido entre o bloco comunista do Leste e o bloco Ocidental capitalista. Embora o Brasil fosse parte do chamado Terceiro Mundo, ou estados não alinhados, as tensões também foram sentidas na sociedade brasileira, particularmente pela a elite financeira que usou a “ameaça vermelha” para influenciar os votos de acordo com os seus interesses.

A falta de vontade da elite em compartilhar os benefícios da riqueza do Brasil com a maioria, deu lugar a uma crise que, no início da década de 1960, vinha sendo imposta desde as camadas de cima. Temendo uma revolta em massa, supostamente instigada pelo comunismo internacional, as elites, incluindo a mídia, espalharam o medo de que o esquerdista João Goulart fosse transformar o Brasil em Cuba.

A administração de Jânio Quadros (janeiro-agosto de 1961) e depois de João Goulart (1961-64) voltou a abraçar o termo povo em referência aos pobres rurais, o que gerou a imagem de um crescente proletariado pronto para se juntar a um governo reformista contra o privilégio da elite e o imperialismo dos Estados Unidos.

A ameaça de uma suposta revolta popular abalou a sociedade brasileira, levando os Estados Unidos a injetar dinheiro diretamente nos estados,  contornando o governo federal, numa tentativa de ajudar as elites capitalistas, uma ajuda que os brasileiros aceitaram com gosto. E temendo um regime semelhante a Cuba, os brasileiros instauraram uma tropa assassina no poder.

 O que você dirá em 50 anos?

 Os brasileiros que cresceram depois da redemocratização já perguntaram aos seus pais e professores sobre a segunda ditadura civil-militar que trucidou o país. Como nós permitimos que isso acontecesse? Independentemente do resultado, estamos vivendo como o processo acontece hoje.

 

About the author

Manuella Libardi es una periodista brasileña con Maestría en Relaciones Internacionales. Tras completar sus prácticas profesionles en democraciaAbierta (2017), actualmente es corresponsal freelance en Lisboa. Twitter: @ManuellaLibardi

Manuella Libardi is a Brazilian journalist. After completing her professional internship at democraciaAbierta (2017), she is currently a freelance correspondant  in Lisbon. She holds a Masters degree on International Relations.Twitter: @ManuellaLibardi


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