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Número de assassinatos de ativistas ambientais bate recorde histórico

Pelo menos 200 defensores de causas ambientais e fundiárias foram assassinados em 2016 – 60% na América Latina. English Español

Aumenta o número de mortes por proteger o meio ambiente (imagem: Eduardo Santos).

O ano passado foi o ano mais letal já registrado, de acordo com os dados divulgados pela ONG Global Witness, do Reino Unido.

O mais recente relatório da organização mostra o alastramento de uma “crise” pelo mundo, uma vez que o número de países onde foram registradas mortes subiu de 16 para 24 no ano passado. Um total de 60% das mortes ocorreu na América Latina, o que significa que a região continua sendo a mais perigosa do mundo para quem luta contra a degradação ambiental.

O Brasil, que foi palco de conflitos particularmente sangrentos por terra nos últimos meses, mais uma vez saiu na frente, com o maior número de homicídios registrados: 49 casos. A Nicarágua teve a maior taxa de homicídios per capita: 11 e a Colômbia bateu recorde com 37 mortes em um ano, afirma o relatório.

“Esses relatórios contam uma história muito sombria. A luta para proteger o planeta está intensificando rapidamente e o custo dela pode ser calculado em vidas humanas”, comentou Ben Leather, assessor de campanhas da Global Witness.

“Eles [FARC] não eram ambientalistas, mas regulavam a atividade na região. Como tinham armas, as pessoas respeitavam”.

Na Ásia, em países como a Índia e as Filipinas, toda resistência contra grandes projetos de mineração tem sido combatida com repressão e violência sancionada pelo estado. Na Índia, o número de assassinatos triplicou e as Filipinas se destacam como o país mais letal da região, com 28 homicídios.

A exploração madeireira e a agricultura, incluindo a pecuária extensiva, também geram muitos conflitos, diz o relatório.

A paz é perigosa para a Colômbia

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), grupo guerrilheiro colombiano, abandonaram o controle de vastos territórios rurais no ano passado como parte de um histórico processo de paz. No entanto, a decisão trouxe mais desmatamento e degradação ambiental para a região.

Em 2016, o desmatamento na Colômbia aumentou 44% em relação ao ano anterior, atingindo uma área de mais de 1.700 km2 (cerca de 180.000 hectares). As áreas vazias passaram a ser ocupadas por grupos criminosos envolvidos na exploração madeireira e na mineração ilegal, segundo dados recentes divulgados pelo Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais do governo colombiano (IDEAM).

As regiões amazônicas de Putumayo, Caquetá, Meta e Guaviare, no sul da Colômbia, foram as mais afetadas.

“Eles [FARC] não eram ambientalistas, mas regulavam a atividade na região. Como tinham armas, as pessoas respeitavam”, afirmou recentemente a ativista Susana Muhamad para o jornal The Guardian. Sob a vigilância das FARC, o desmatamento causado por civis limitava-se a dois hectares por ano, pois dessa forma o grupo conseguia manter a cobertura florestal que proporcionava proteção contra as forças do governo.

Pelo menos um especialista alegou que o relatório da ONG não distinguiu os ambientalistas assassinados das vítimas de conflitos agrários.

O aumento do desmatamento trouxe o aumento do número de assassinatos de defensores ambientais e da terra na Colômbia.

“O processo de paz na Colômbia alimentou, paradoxalmente, a violência contra aqueles que defendiam suas terras e o meio ambiente contra indústrias destrutivas”, afirma Billy Kyte, líder da campanha pelos defensores dos direitos ambientais e da terra da Global Witness.

Kyte explicou que as comunidades retornam para recuperar as terras perdidas durante o conflito armado, mas agora têm de enfrentar grupos paramilitares, grandes latifundiários e gangues criminosas que buscam lucrar com a abundância de recursos naturais.

“É imperativo que, antes de pensar em promover projetos de desenvolvimento que levam à degradação ambiental, o governo colombiano fortaleça o estado de direito na zona rural e torne as áreas seguras para as comunidades”, complementa Kyte.

Metodologia questionada

No início deste ano, pelo menos um especialista questionou a metodologia utilizada pela Global Witness em um relatório especial que detalhava a situação de Honduras. Foi alegado que o relatório não distinguiu os ambientalistas assassinados das vítimas de conflitos agrários.

“O relatório da ‘Global Witness’ não resiste à análise científica”, disse José Herrero, vice-presidente da fundação de conservação FUCSA, argumentando que a “confusão” que foi feita entre as categorias de vítima no relatório teve como objetivo inflar os números.

Kyte, que sofreu intimidação e foi ameaçado de prisão ao promover o relatório em Tegucigalpa, capital hondurenha, defendeu os métodos de coleta de dados usados pela Global Witness.

“Nós compilamos dados sobre os defensores de causas fundiárias e ambientais – pessoas que defendem a terra ou os direitos ambientais. Nossas definições e critérios para inclusão são e sempre foram muito claros – não registramos apenas os assassinatos de ambientalistas”, disse ele.

 

Este artigo foi publicado previamente por Diálogo Chino.

About the author

Robert Soutar is Managing Editor of Diálogo Chino, based in London. He holds an MSc in Comparative Politics (Latin America) and a BA in Hispanic Studies.

Robert Soutar es editor de Diálogo Chino, sediado en Londres. Ha obteniedo un MSc en Comparative Politics (América Latina) y un BA en Hispanic Studies.

Robert Soutar é editor do DIálogo Chino, com sede em Londres. Obteve um MSc em Comparative Politics (América Latina) e uma BA em Hispanic Studies.


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