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Resistência e Revolta: por vidas que importam

Os conceitos transformadores de "revolta" e "resistência" são o coração do movimento Black Lives Matter, que agora é uma força global. Español English

Protesto em São Paulo, 2014. Foto: Oswaldo Cornetti/fotos públicas. Alguns direitos reservados.

Os movimentos negros brasileiros se organizam e protestam contra a violência e a injustiça racial há décadas. Quando o movimento Black Lives Matter se tornou uma força global, ativistas no Brasil, em particular, adotaram suas palavras de ordem para fortalecer sua própria luta histórica. Em julho de 2016, um mês antes das Olimpíadas, representantes americanos do BLM viajaram ao Rio de Janeiro para o que ficou conhecido como “Julho Negro” – uma conversa entre líderes do movimento e grupos locais trabalhando para visibilizar questões como o aumento de assassinatos policiais e a militarização no Brasil – especialmente nas favelas; a continuidade do encarceramento da juventude negra; e a estrutura racista do Estado, baseada em séculos de exploração. O movimento negro brasileiro continua crescendo em 2017, com numerosos protestos em São Paulo, Rio e pelo país afora. Aqui, o sociólogo brasileiro Tulio Custódio descreve a experiência negra em relação à revolta e à resistência. Este artigo é parte de Protestar es un Derecho

Abdias do Nascimento (1934-2011) foi um dos mais importantes intelectuais negros brasileiros, atuante em esferas como teatro, arte, política, que teve uma vida marcada pelo ativismo e conciliou sua arte e pensamento político. Em 2006, o sociólogo Antônio Sérgio Guimarães publicou um artigo muito elucidador sobre as noções de Revolta e Resistência no pensamento do acadêmico brasileiro.

Guimarães demonstra como Revolta e Resistência foram conceitos fundamentais para rompe com a lógica da democracia racial, e dar desenvolvimento a uma perspectiva crítica da cultura negral.

Em que sentido essas duas noções são relevantes nos tempos atuais com a emergência de movimentos como o Black Lives Matter? Quais são os efeitos do racismo para a experiência negra na diáspora?

É preciso ir mais a fundo de encontro ao desespero, ao fardo, ao colapso e perda de sentidos da experiência da vida negra

Podemos vê-lo em duas dimensões: material e subjetiva. Na perspectiva material, objetiva, a situação do negro está organizada pelo racismo na base do poder político e econômico: exploração do trabalho negro, objetificação dos corpos negros, trauma e morte dos negros. Essa situação material é a que podemos identificar a olhos nus, seja nos corpos negros jogados no chão das grandes cidades em situação de mendicância, violentados pelo poder repressivo do Estado ou encarcerados em proporções desiguais, liderando as estatísticas de violência, de vulnerabilidade e de mortandade.

Por outro lado, na dimensão subjetiva os efeitos do racismo se tornam menos evidentes, mas são de suma importância. Como aponta o filósofo Cornel West, é preciso ir mais a fundo de encontro ao desespero, ao fardo, ao colapso e perda de sentidos da experiência da vida negra. Esse filósofo denominou “niilismo negro” esta experiência que compreende uma depressão psicológica, a falta de valor pessoal e o desespero social, espalhados por todas as comunidades negras. O niilismo é sobre a experiência vivida de uma vida sem sentido, sem esperança e sem amor. É uma experiência vivida de degradação e desvalorização moral.

A integração ao sistema capitalista não substituiu as feridas e cicatrizes criadas pelo racismo, a  mas a moralidade de mercado substituiu as tradições associativas (e de proteção) das comunidades negras. As crenças e imagens da supremacia branca atacam a inteligência, habilidade, beleza e caráter negros cotidianamente, de modos sutis ou nem tanto. Sem esperança não há futuro, sem sentido não há luta. A angústia existencial negra aprofundada pelo niilismo constitui a experiência histórica diante da supremacia branca.

Sabemos que o efeito cumulativo das feridas e cicatrizes são a raiva e ira. E é essa raiva que é captada como energia transformativa para ação

O niilismo negro, ao negar esperança, transformou a angústia em raiva, na violência negro-contra-negro, e fazendo com que mulheres negras e crianças sejam as principais vítimas. Essas são as consequências negativas desse processo.

Essa experiência vivida que está externamente carimbada no ser NINGUÉM, como expõe Marc Lamont Hill em sua obra “Nobody". Ser um NINGUÉM é ser vulnerável. É estar sujeito a violência ordinária do Estado, ao terrorismo do cotidiano e às injustiças do dia a dia. É estar abandonado pelo Estado e ser considerado descartável.Sabemos que o efeito cumulativo das feridas e cicatrizes são a raiva e ira. E é essa raiva que é captada como energia transformativa para ação.

Esse diagnóstico pode ser chamado, como denominou Cornel West, de niggerization, um processo que transforma os indivíduos negros em Nobodies. Niggerization, processo que pode inclusive ser “transportado” para outros grupos na sociedade, significa “estar inseguro, desprotegido, sujeito a violência randômica e ao ódio”, consequências diretas de um processo contínuo de niilismo e racismo estrutural, que leva à aceitação desesperançosa da dominação.

E aí chegamos nos conceitos relevantes de Revolta e Resistência. Contra o niilismo e a niggerization, existe uma potência que se transforma em revolta. É contra o processo de niggerization que as subjetividades e da memória histórica coletiva tentam batalhar. Sabemos que o efeito cumulativo das feridas e cicatrizes são a raiva e ira. E é essa raiva que é captada como energia transformativa para ação.

Na tradição do pensamento negro, existe um lugar especial para essa raiva, como aponta Audre Lorde: “Minha resposta para o racismo é a raiva: raiva pela exclusão, raiva pelos privilégios não-questionados, pelas distorções raciais, pelos estereótipos, traições e cooptação”. Lorde, assim como outros pensadores e lideranças negras, nos coloca o desafio de transformação da raiva em energia transformadora; dessa maneira, raiva se torna revolta, que insurge como uma forma de resistência contra a condição de opressão, de niilismo. Raiva se torna potência de conversão, se torna revolta como forma de transformação e resistência.

 O valor invocado pelo negro ao se revoltar é seu valor de indivíduo, seu valor de Negro, seu valor de cidadão

Abdias do Nascimento absorve a noção de revolta contida na obra de Albert Camus: “o que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas ao negar-se não renuncia: é também um homem que diz sim desde seu primeiro movimento”. Esse movimento é a organização da revolta, que dá margem para o protesto.

É nesse sentido que podemos retomar as noções de Revolta e Resistência. A riqueza de trazermos o conceito de revolta (ou do “ser revoltado”) é que nesse movimento, quase como um “choque traumático”, está a possibilidade de insurgência para existência, para ação. Se a consciência nasce com a revolta, é desse movimento que nasce a revolta negra.

Ao transformar-se raiva em energia, transforma-se a revolta em âmago da liberdade. E é sobre libertação que trata a revolta negra. Como disse Abdias, “a revolta é o fruto de uma consciência lúcida e bem informada que não transige nem transaciona com sua identidade e seus direitos”. O valor invocado pelo negro ao se revoltar é seu valor de indivíduo, seu valor de Negro, seu valor de cidadão.

A insurgência do Black Lives Matter diante da violência do Estado é uma intervenção ideológica e política em um mundo onde as vidas negras são sistematicamente e intencionalmente alvo de falência. É uma afirmação das contribuições das pessoas negras para esta sociedade, da nossa humanidade e da nossa resiliência diante de uma opressão mortal. Não é um “momento”, mas um “movimento”.

Tudo isso pode ser visto atualmente quando olhamos o movimento Black Lives Matter. Os conceitos de Revolta e Resistência como forma de transformação da raiva em energia transformadora e de resistência contra o genocídio do povo estão no âmago do que é a existência do movimento. Uma forma de insurgência que nada mais é do que uma forma de resistência pela vida. Por mais uma vida que vale a pena. Por vidas que importam.

About the author

Tulio Custódio is a Brazilian sociologist, knowledge curator, founder of Pitacodemia and a member of Black System Collective. He writes in a number of media on inequality, racial issues, capitalism, technology and gender (masculinities).

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