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5 tecnologias para defender o meio ambiente na América Latina

Inovações que permitem a reciclagem, detectam espécies invasoras e se adaptam às mudanças climáticas.

Tania Chacón
28 May 2019
A tecnologia bioacústica é capaz de detectar a presença de espécies, protegendo a biodiversidade. Em Yucatan, os grandes felinos foram identificados usando ‘Audiomoth’.
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Foto: Wikimedia

A riqueza natural e cultural da América Latina é inegável: o continente abriga a maior diversidade de flora no mundo. Mas sua riqueza está em perigo.

A região concentra 46% dos conflitos entre mineradores e sócio-ambientalistas de todo o mundo. Entre 1990 e 2015, perdeu mais de 96 milhões de hectares de floresta. E, de 1970 a 2014, viu sua população de animais vertebrados diminuir 89%.

Confrontada com este alarmante panorama de perda da biodiversidade, a grupos na América Latina iniciaram uma corrida em busca de soluções de conservação, adaptação e mitigação de todo tipo.

Entre elas estão ferramenta tecnológicas, inovadoras, criativas e de baixo custo, usadas por muitas comunidades para se adaptar às mudanças climáticas, melhorar o tratamento do lixo de suas cidades, monitorar mercados ilegais de mineração, desmatamento e caça, e observar espécies invasoras.

Fazemos aqui um resumo de alguns exemplos que mostram que o panorama não é de todo ruim, e que existem soluções criativas para nossos grandes problemas.

Bioacústica para monitorar áreas protegidas

A bioacústica pode ser usada para monitorar áreas protegidas ao redor do mundo. Ela detecta sons e os analisa por meio de algoritmos em programadas de computador desenvolvidos especialmente para determinar quais espécies estão presentes em uma área.

São necessários vários aparelhos para obter um registro mais completo. O obstáculo é o preço, que oscila entre 200 e 700 dólares, por aparelho, tornando tecnologia pouco acessível para muitas comunidades.

Por isso, pesquisadores da Universidade de Southampton, em colaboração com a Universidade Nacional Autônoma do México, criaram o Audiomoth, um monitor que, por utilizar peças mais baratas, custa entre 23 e 46 dólares. As peças são encomendadas em pedidos grandes, com vários clientes interessados, para tornar os preços mais acessíveis sem comprometer a qualidade.

O novo aparelho foi desenvolvido para captar não somente a presença de espécies, mas também sons de tiros e serras elétricas, indicadores de extração ilegal de madeira e caça predatória.

Atualmente, estão sendo utilizados em comunidades indígenas do norte da península de Iucatã, no México, onde já são identificados e monitorados os felinos de grande porte da Selva Negra.

O Audiomoth também foi utilizado na reserva Tapir Mountain Reserve Research, em Belize, onde também há poucos recursos para combater a extração de madeira e a caça ilegais.

Um equipamento como o Audiomoth poderia ajudar mais de 300 espécies de mamíferos ao redor do mundo que estão em risco de extinção devido à caça furtiva. O mercado da caça ilegal movimenta até 20 milhões de euros por ano, e se alimenta principalmente da África e, em segundo lugar, da América Latina.

Uma vez que a bioacústica também é capaz de detectar outros sons, pode também proporcionar uma solução para o monitoramento do desmatamento ilegal, que destrói em média dois milhões de hectares de floresta nativa por ano somente na América Latina, segundo os dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.

Mapas via satélite contra desmatamento por mineradoras

As imagens de satélite estão permitindo o monitoramento do desmatamento em zonas de alto risco.

No Equador, Carlos Mazabanda, coordenador da equipe da Amazon Watch local, optou por usar esta tecnologia para analisar os impactos do projeto Mirador, uma mina de cobre comandada pela empresa de capital chinês Ecuacorriente S.A., que se expande por 9.928 hectares desmatados. As imagens lhe permitiram analisar a região amazônica de forma segura, já que outras técnicas seriam arriscadas e complexas.

Para obter as imagens de satélite de alta qualidade, montaram uma equipe interdisciplinar e se aliaram com empresas como a Digital Globe, a Planet e a Amazon Conservation Team, que já contavam com licenças para obter imagens via satélite e infraestrutura para analisá-las.

As imagens de satélite obtidas foram processadas com algoritmos que criam imagens modelos projetadas nos mapas. Com esses mapas, a equipe identifica quais pixels correspondem a florestas, quais correspondem a rios e quais são áreas de desmatamento. Esta tecnologia ainda permite a captura de processos de desmatamento em suas etapas iniciais.

O mapa de desmatamento que a equipe encontrou viralizou nas redes sociais do Equador. Enxergar o desaparecimento da floresta por meio dos mapas deixou muitos equatorianos indignados. A atenção que o caso conseguiu na imprensa e a pressão social levaram o governo a proibir a exploração minerária em algumas áreas do Amazonas equatoriano.

O projeto Mirador, no entanto, continua, e se espera que em alguns anos comece suas atividades de exploração. Apesar disso e graças ao impacto do mapa, as instituições que participaram do projeto buscam replicá-lo com novos mapas interativos que ilustrem os impactos do extrativismo em territórios indígenas do Equador.

Dados geoespaciais contra as mudanças climáticas

Em 2015, Jaime Rodrigo Vargas presenciou como uma enchente em Chañeral, um município no litoral chileno, tirou a vida de mais de 80 pessoas e inundou 200 casas. Ao perceber que os alarmes de evacuação no local eram deficientes, Vargas estudou por conta própria e criou um aplicativo para celular para prevenir tragédias humanas durante desastres naturais.

O aplicativo criado por Vargas usa dados geoespaciais para informar aos usuários quais zonas são passíveis de inundação, as rotas de evacuação e pontos de encontro. O aplicativo também permite ao usuário localizar conhecidos que também usem a ferramenta.

A tecnologia de dados geoespaciais obtém fotografias por meio de satélite, que são disponibilizadas pelo governo chileno. Estas imagens são encaminhadas para o sistema Varas Esquivel, no qual são calculadas as rotas de evacuação. O aplicativo transformou os dados em um mapa facilmente compreensível para a população de Chañeral.

Para desenvolver uma ferramenta desse tipo, são requeridas licenças de alto custo, por isso a Varas Esquivel decidiu criar um sistema de informação geoespacial livre de licenças, utilizando a informação pública disponibilizada pelo governo chileno.

O resultado foi Thaki, o primeiro sistema desse tipo que funciona 100% livre de licenças. A vantagem é que outras comunidades suscetíveis aos efeitos das alterações climáticas podem usar o Thaki e adaptá-lo às suas necessidades.

Um aplicativo contra o desperdício

Em 2017, uma equipe com oito voluntários em Quito, Equador, começou o ReciVeci, um aplicativo de celular para que os habitantes da cidade pudessem entregar seu lixo reciclável diretamente às bases de reciclagem locais. O aplicativo indica quem é o reciclador da região, como contatá-lo e como entregar o material. Atualmente, conta com uma base de dados de mais de 200 recicladores.

O aplicativo oferece ainda os “Recipontos”: para cada transação de material reciclável realizada, o cidadão recebe pontos que podem ser trocados principalmente por produtos e serviços gastronômicos.

O aplicativo é gratuito e está disponível para Android, IOs e sistemas operacionais abertos. No Equador, estima-se que cada família tenha pelo menos um celular com acesso à internet, o que permite o uso massivo. A segunda fase do app terá feedbacks por parte dos recicladores, e não exigirá um smartphone, mas funcionará também para telefones apenas com serviço de SMS.

Na terceira etapa, espera-se que empresas e outros comerciantes se unam ao projeto. No momento, os dados levantados são da cidade de Quito, mas, como o mapeamento coletivo, pode ser utilizado em todo o país.

Drones contra as espécies invasoras

Quando trabalhava no Laboratório de Inovação do Banco Mundial, o astrofísico espanhol Bruno Sánchez-Adrade desenvolveu a Equipe de Apoio Geográfico, um drone que captura fotos de maneira constante para monitorar as rotas de praticantes da caça predatória.

Como o drone mostra as mudanças de cor nas imagens capturadas em diferentes momentos, o usuário pode comparar as imagens para detectar vegetações e espécies invasoras.

Por exemplo, o esparto (spartium junceum) é uma planta natura do sul e oeste da Europa comumente introduzida a diferentes ecossistemas com a intenção de ser reproduzida como planta ornamental.

No entanto, ela altera a estrutura e abundância das espécies nativas do lugar onde é introduzida, compete com elas, impede sua regeneração e altera os ciclos da água. Em um monitoramento com drones, como o realizado pelo Banco Mundial, a presença dos espartos pode ser identificada pela coloração de amarelo vistoso em suas flores.

Sanchéz-Andrade e sua equipe levaram o projeto ao Parque Nacional Impenetrable, na Argentina, onde se utilizam drones para fazer o mapeamento de alta resolução do terreno. Na área, há um forte problema com a caça predatória, mas o mapeamento se mostrou útil também para encontrar outras espécies invasoras no local.

De acordo com Sánchez-Andrade, para conseguir prosseguir com o projeto de monitoramento de uma área protegida só é preciso capacitar as pessoas do local para pilotar as máquinas e processarem os dados.

Esse artigo foi publicado como parte da nossa parceria com Diálogo Chino. Leia o conteúdo original aqui.

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