democraciaAbierta

700 dias sem Marielle Franco: a trama criminal se complica ainda mais

Não está claro por que Adriano da Nóbrega estava escondido na Bahia. O que está claro é que Nóbrega tinha laços, direto e indiretos, com a família Bolsonaro. Español

democracia Abierta
14 February 2020

O caso do assassinato de Marielle Franco ganhou mais uma dimensão macabra, envolvendo o Brasil mais uma vez em um manto de perguntas, dúvidas e desconfiança diante da relação entre a família Bolsonaro e os envolvidos.

Na madrugada de domingo (9), Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão da PM, foi morto no norte da Bahia durante uma operação envolvendo forças policiais locais e do Rio de Janeiro. Nóbrega estava foragido há mais de um ano acusado de comandar uma das milícias mais antigas do Rio, o Escritório do Crime.

O Escritório do Crime está sendo investigado por organizar esquemas de grilagem na zona norte do Rio e por ligação com o assassinato da vereadora Marielle em 14 de março de 2018, na capital fluminense.

Os dois acusados do crime são Ronnie Lessa, quem teria atirado contra Marielle e o motorista Anderson Gomes, e Élcio Queiroz, quem estaria dirigindo o veículo durante o atentado. Ambos acusados estão presos sob a acusação de terem cometido o crime.

Lessa também é acusado de integrar o Escritório da Morte. É importante lembrar que Jair Bolsonaro também tem estreitas relações com Lessa, que inclusive é seu vizinho.

Não está claro por que o Capitão Adriano, como era conhecido, estava escondido na Bahia. O que está claro é que Nóbrega tinha laços, direto e indiretos, com a família Bolsonaro.

Nóbrega e Flávio Bolsonaro

Nóbrega foi citado na investigação no caso da “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro, atual senador e filho mais velho do presidente, quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

Durante o período sendo investigado, Flávio empregou duas familiares de Nóbrega em seu gabinete

Segundo as autoridades, contas de Nóbrega foram usadas para transferir dinheiro para Fabrício Queiroz, então assessor de Flávio e suposto responsável por comandar o esquema de devolução de salários.

Durante o período sendo investigado, Flávio empregou duas familiares de Nóbrega em seu gabinete: a mulher do ex-capitão, Danielle Mendonça da Costa Nóbrega, e a mãe dele, Raimunda Veras Magalhães, entre 2016 e 2018. Segundo apontam as investigações, as familiares estavam entre os funcionários fantasmas no gabinete de Flávio.

Em outras ocasiões, tanto Flávio quanto Jair Bolsonaro defenderam Nóbrega. Em 2005, quando o miliciano foi preso em conexão com o homicídio de um guardador de carros, Flávio condecorou Nóbrega com a medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2003, Flávio já havia homenageado o ex-capitão.

Na mesma ocasião de 2005, Jair Bolsonaro, então deputado federal, defendeu Nóbrega quando ele foi condenado de homicídio. Nóbrega foi absolvido depois em um novo julgamento.

Na quarta-feira (12), Flávio se pronunciou pela primeira vez em relação à morte de Nóbrega. Em mensagem no Twitter, o senador denuncia que “pessoas” estão tentando acelerar a cremação do corpo do ex-PM para “para sumir com as evidências de que ele foi brutalmente assassinado na Bahia”.

Como Nóbrega morreu?

A versão oficial aponta que Nóbrega reagiu à ação da polícia, gerando assim uma troca de tiros. No entanto, o advogado de Nóbrega, Paulo Emílio Catta Preta, disse que Nóbrega havia lhe contado que temia ser alvo de uma queima de arquivo.

No dia 1 de fevereiro, a polícia da Bahia já havia tentado prender o miliciano durante a celebração de seu aniversário em uma mansão alugada em um condomínio de luxo na Costa do Sauipe, na Bahia. No entanto, o ex-capitão conseguiu fugir uns minutos antes da polícia chegar, deixando sua mulher e duas filhas no local. Na pressa, Nóbrega também deixou na mansão um RG falso.

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) divergem em suas opiniões sobre as possíveis consequências que a morte de Nóbrega pode ter sobre a investigação do assassinato de Marielle

Nessa ocasião, Nóbrega ligou para seu advogado, Preta, para dizer que sentia que temia ser morto se fosse pego ou caso se entregasse.

Além disso, a família de Nóbrega disse que Nóbrega estava em condições precárias para fugir e que não estava armado no momento que foi morto, contrariando a versão das autoridades.

O que a morte significa no caso Marielle?

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) divergem em suas opiniões sobre as possíveis consequências que a morte de Nóbrega pode ter sobre a investigação do assassinato de Marielle. O STF deve decidir se o caso vai ser federalizado em data ainda não marcada.

Antes da morte de Nóbrega, a expectativa era que o STF mantivesse a investigação nas mãos das autoridades do Rio de Janeiro.

Mas os novos desdobramentos podem influenciar essa decisão. Dois ministros do Supremo acreditam que a morte de Nóbrega traz efeitos sobre a discussão, podendo afetar o resultado final.

Outros ministros, mantêm que a decisão correta é manter a investigação no Rio, uma opinião compartilhada pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

Este novo desdobramento não abre novas portas no caso do assassinato de Marielle, mas traz à tona novamente o grotesco envolvimento do atual presidente da República e organizações criminosas.

Bolsonaro pode não ter relação direta com a morte da vereadora carioca, ativista social negra e “cria da Maré”, mas sua relação com toda a rede suspeita de estar por traz do assassinato político que sacudiu o Brasil está mais do que consolidada.

Unete a nuestro boletín ¿Qué pasa con la democracia, la participación y derechos humanos en Latinoamérica? Entérate a través de nuestro boletín semanal. Suscríbeme al boletín.

Comentários

Aceitamos comentários, por favor consulte ás orientações para comentários de openDemocracy
Audio available Bookmark Check Language Close Comments Download Facebook Link Email Newsletter Newsletter Play Print Share Twitter Youtube Search Instagram WhatsApp yourData