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A inovação política na América Latina está ameaçada?

Nessa semana, acontecerá o terceiro Encontro de Inovação Política na Cidade do México, reunindo líderes sociais, políticos e ativistas de toda a América Latina para discutir o futuro da inovação política na região. Español English

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16 May 2019
Photo: Red de Innovación Política, Facebook. Public Domain.

Quando a Rede de Inovação Política da América Latina foi criada em 2016, nuvens escuras já apontavam no horizonte, embora quase ninguém antecipasse o que a tempestade política que vinha do norte depois do fim da maré rosa traria para o continente.

Reunidos nesta semana pela terceira vez na Cidade do México, o Encontro de Inovação Política reunirá líderes sociais, políticos e ativistas de toda a América Latina que enfrentam o desafio de repensar a inovação política na região em um contexto de persistente regressão democrática, repressão e desigualdade.

Os casos do Brasil, Venezuela e Nicarágua são particularmente preocupantes. Na Colômbia, a qualidade da democracia sofre, e na Argentina, quatro meses após as eleições presidenciais, a economia continua afundando e a desafeição é enorme. E o que será do México e a incerteza que paira sobre o que acontecerá quando a administração de AMLO se consolidar?

Nesse contexto de transtorno generalizado, a Rede de Inovação Política da América Latina reúne um coletivo de mais de 90 ativistas determinados a enfrentar um crescente autoritarismo antidemocrático.

Os desafios são múltiplos, mas a chave está em como otimizar a inovação política, não apenas para combater a violência, a repressão o ativismo e a disseminação de mensagens de ódio em toda a região, mas para desafiar os cidadãos e recuperar uma narrativa que pede uma participação mais efetiva em todos os níveis. O cenário é pior do que podemos imaginar.

Por isso, é importante, senão fundamental, que toda a energia que se expressou no ecossistema da inovação política nas últimas duas décadas seja canalizada para enfrentar as dinâmicas que minam gravemente as conquistas sociais e de direitos humanos que acreditávamos estar consolidadas.

Se a agenda atual do autoritarismo é enfraquecer a democracia desde dentro, é de dentro que a inovação deve ser aplicada não apenas para resistir, mas para fortalecer, convocar e voltar a dar esperança os cidadãos.

Inovação na América Latina: Para quê?

O projeto latino-americano, por exemplo, que mede as inovações políticas na América Latina, indica que estamos vindo de uma fase muito dinâmica. Entre 1990 e 2016, as inovações políticas proliferaram em todos os países da região, começando com cerca de 100 inovações em 1990 e chegando a 1676 em 2016.

Bolsonaro declarou durante sua campanha que ia acabar com todo o ativismo no Brasil, criando um cenário onde o discurso de ódio prospera e onde os ativistas temem

No entanto, a fragmentação tem sido enorme e reflexões são necessárias a respeito dos impactos reais dessas inovações e sobre como alinhar essa energia para produzir mudanças reais na governança democrática e na sua real capacidade de transformação.

Talvez o maior desafio seja conectar efetivamente essas iniciativas e depois conectá-las às maiorias sociais. Diante de um cenário político na região que quebra os esquemas tradicionais e põe lenha em sentimentos anti-políticos já incendiados que apelam às emoções frente a qualquer razão e que consolida um clima de autoritarismo antidemocrático, devemos reagir.

Como diz o programa do Encontro, "esse novo cenário se manifesta principalmente através de três mecanismos perversos: o uso da violência direta como uma tática dissuasiva ao ativismo, o fortalecimento de um estado vigilante e o controle narrativo com mensagens de ódio.

A região tornou-se um terreno fértil para expressões políticas que querem explorar as frustrações e incertezas do seu povo; eles o fazem com mensagens de exclusão e recuperação de valores considerados superiores, como pátria, religião e família ".

A política perdeu sua capacidade de mediar contra os poderes e os governos são cooptados com impunidade por eles (sejam os militares, as igrejas, as grandes empresas de mineração, as oligarquias).

Hoje, na América Latina, participar da política representa cada vez mais um risco devido à proteção da impunidade e dos discursos antidemocráticos que estão conquistando o coração e a mente de muitos, conquistando vontades e votos.

É por isso que é urgente reestruturar as forças democráticas capazes de propor novas ferramentas e estratégias que reforcem as iniciativas de inovação política e as tornem verdadeiramente úteis para os cidadãos.

Nesses tempos tão perigosos para a democracia liberal na região e no mundo, é urgente fortalecer um ecossistema de inovação cívica baseado em valores, práticas e estratégias compartilhados.

Para sobreviver à tempestade, o ecossistema da inovação política deve redirecionar seu campo de ação.

Bolsonaro, por exemplo, declarou durante sua campanha que colocaria um fim a todo o ativismo no Brasil, criando um cenário em que o discurso de ódio prospera e onde os ativistas têm medo de continuar defendendo as causas pelas quais sempre lutaram. Temos que parar o pessimismo e a diáspora e fazer a resistência se tornar um projeto e uma alternativa.

É intolerável que um cenário de impunidade, que particularmente ameaça os ativistas e os envolvidos em inovações sociais, seja consolidado.

Na Venezuela e na Nicarágua, a repressão governamental de ativistas, manifestantes e políticos de oposição criou um clima em que é cada vez mais difícil prosperar, não a inovação, mas a própria democracia.

Na Colômbia, o novo governo de direita de Iván Duque não conseguiu proteger as centenas de líderes sociais e ativistas que estão sendo mortos desde a assinatura dos acordos de paz, o que continua a criar uma enorme barreira à efetiva implementação de inovações sociais, especialmente nas áreas rurais do país.

O que podemos esperar desse Encontro de Inovação?

O objetivo da reunião no México é continuar apoiando e criando colaborações entre iniciativas inovadoras e disruptivas em toda a região, que proporcionam estruturas mais horizontais, uma cultura aberta e fortalecem a capacidade do cidadão de influenciar o futuro democrático da região.

Nessa reunião, a Rede de Inovação Política buscará se estabelecer como um espaço que conecta pessoas e ofereça oportunidades de ações conjuntas; sensibiliza seus membros para as perspectivas regionais; produz novas ideias para nossas cidades, países; e, finalmente, dissemina, fortalece e amplifica práticas de inovação política na América Latina, mas também na Europa e além.

Nesses tempos tão perigosos para a democracia liberal na região e no mundo, é urgente fortalecer um ecossistema de inovação cívica baseado em valores, práticas e estratégias compartilhados. Os ativistas reunidos na Cidade do México tentarão aplicar-se a ela.

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