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#AmazôniaEmChamas Bolsonaro e suas cortinas de fumaça

Os incêndios que vêm destruindo parte da Amazônia foram notícia dentro e fora do país. Esta é possivelmente a maior crise internacional de Bolsonaro como presidente do Brasil. Español

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28 August 2019
Ilustração de um incêndio na Amazônia.
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Wikimedia Commons

O Brasil está em foco. Na última semana, os fogos que vêm destruindo parte da Amazônia brasileira viralizaram de forma pouco vista antes. É, possivelmente, a maior crise internacional que o presidente Jair Bolsonaro enfrenta desde que assumiu a liderança do país em janeiro.

Os pleitos públicos vieram de todas as partes. Desde o presidente da França Emmanuel Macron ao craque de futebol Cristiano Ronaldo, passando pela Rainha do Pop, Madonna. Na era das redes sociais, não é de surpreender que desinformação foi espalhada, ajudando a criar ruído em meio a uma crise que é muito real.

A desinformação veio também por partes oficiais, mais notoriamente de dentro do próprio governo brasileiro. O presidente disse, no meio da semana passada, que acreditava que os fogos estavam sendo ateados por ONGs, com o objetivo de atrair atenção negativa para ele e para seu governo. Ele não citou nenhuma evidência para sustentar a acusação.

Por outro lado, as fotos que circularam pela internet incluíam de tudo, desde fotos de macacos na Índia, até queimadas antigas em outras partes do Brasil, fatos que deram munição para Bolsonaro questionar a validação das acusações contra ele e sua gestão.

A realidade é que o está acontecendo no Brasil é complexo, profundo e merece ser encarado com a mesma seriedade. É por isso que hoje discutimos tudo o que você precisa saber sobre o que está acontecendo na Amazônia.

O que está acontecendo, os dados

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre janeiro e julho deste ano, uma área de 18.629 km² foi queimada na Amazônia brasileira, o que representa um aumento de 74% sobre a média dos dez anos anteriores para o mesmo período (2009 a 2018), que foi de 10.665 km².

O Inpe também detectou 76.720 focos de fogo até esta sexta (23) em todo o Brasil, um aumento de 33% da média entre 2009-2018. Além disso, o número de 2019 já é o maior desde 2010, ano da seca mais drástica da história na Amazônia.

Segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), os municípios que sofreram o maior índice de queimadas foram também aqueles com os maiores níveis de desmatamento, sugerindo, assim, uma correlação entre os fogos e a ação humana.

Questão política

Os números e relação entre desmatamento nos obriga a citar o papel que Bolsonaro desempenha na política pública da Amazônia. Parte das promessas de campanha do presidente brasileiro era desenvolver a Amazônia como forma de fazer girar a economia.

No PowerPoint da reunião, fica claro que a habitação da região amazônica é importante para prevenir a realização de um projeto multilateral de proteção à floresta – denominado “Triplo A”

E Bolsonaro vem levando a cabo essa promessa desde o começo da presidência. Nos primeiros meses de governo, o presidente priorizou a liberação de emendas para o Ministério da Defesa, garantindo pelo menos 75% dos mais de R$ 200 milhões do orçamento de 2019 até o mês de maio para a pasta. Dos mais de R$ 150 milhões destinados à pasta, 98% – praticamente toda a verba – vai para o programa Calha Norte.

Documentos usados durante uma reunião entre oficiais do governo em fevereiro deste ano – os quais o democraciaAbierta teve acesso - não deixam lugar à dúvida sobre as intenções de Bolsonaro. No PowerPoint da reunião, fica claro que a habitação da região amazônica é importante para prevenir a realização de um projeto multilateral de proteção à floresta – denominado “Triplo A”.

“Integrar a Calha Norte do rio Amazonas ao restante do território nacional, para se contrapor às pressões internacionais pela implantação do projeto denominado Triplo A. Para isso, projetar a construção da hidrelétrica do rio Trombetas e da ponte de Óbidos sobre o rio Amazonas, bem como a implementação da rodovia BR 163 até a fronteira do Suriname”, diz um slide da apresentação.

Negligência do governo

Além das ações diretas de Bolsonaro, documentos publicados no site Poder 360 mostram que produtores rurais no Pará ameaçaram o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) com promover queimadas no interior do estado, no autobatizado "Dia do Fogo". Segundo mostram os documentos, o Ibama solicitou apoio da Força Nacional para combater o grupo no começo de agosto, mas o pedido – direcionado ao Ministério da Justiça de Sergio Moro – não foi atendido.

“Saliento que já foram expedidos ofícios solicitando apoio da Força nacional de Segurança, entretanto até o momento não houve resposta”, afirmou o coordenador-geral de Fiscalização Ambiental do Ibama, Renê Luiz de Oliveira, em um dos documentos.

Bolsonaro e os escândalos

Seguindo a nova forma de fazer política, Bolsonaro se envolveu em polêmica ao responder a uma mensagem ofensiva nas redes sociais. No sábado (24), Bolsonaro – ou alguém que controla a página oficial do presidente no Facebook – endossou uma mensagem que zombava da aparência da primeira-dama francesa, Brigitte Macron, comparando-a com Michelle Bolsonaro, a esposa do presidente brasileiro. A ideia da mensagem era sugerir que as críticas feitas pelo presidente francês Emmanuel Macron às políticas brasileiras em relação à Amazônia seriam por inveja da esposa do presidente brasileiro.

Em resposta à foto, Bolsonaro escreveu: “Não humilha, cara. Kkkkkkk”.

Na segunda-feira (26), Macron respondeu ao insulto de Bolsonaro, afirmando que o atual presidente brasileiro não está à altura do Brasil.

“Penso que as mulheres brasileiras sentem vergonha ao ler isso, vindo de seu presidente, além das pessoas que esperam que ele represente o país... Como tenho uma grande amizade e respeito pelo povo brasileiro, espero que tenham logo um presidente que se comporte à altura”, disse Macron.

Bolsonaro e o G7

Após a resposta de Macron, os países do G7 ofereceram US$ 20 milhões (aproximadamente RS$ 83 milhões) para a Amazônia, um montante que foi anunciado pelo próprio Macron. Nesta segunda-feira (26) à noite, o Palácio do Planalto disse que o governo recusaria a ajuda financeira, citando “desrespeito” do presidente francês, escalando assim a crise diplomática entre os dois países.

Além dos comentários pessoais que fez a Bolsonaro em seu discurso, Macron também disse que Bolsonaro faltou com a verdade ao afirmar que as questões ambientais seriam levadas a sério como premissa do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia.

Além de gerar uma crise diplomática com a França, os incêndios na Amazônia também ameaçam o acordo assinado este ano entre o Mercosul e a União Europeia

Na terça-feira (27), Bolsonaro voltou atrás, afirmando que estaria disposto a negociar o montante para a Amazônia, caso Macron retire os “insultos”, especificamente por tê-lo chamado de “mentiroso”.

Acordo Mercosul-União Europeia

Além de gerar uma crise diplomática com a França, os incêndios na Amazônia também ameaçam o acordo assinado este ano entre o Mercosul e a União Europeia, um marco celebrado pelo governo brasileiro e por toda sua elite. Depois de 20 anos de negociações, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai assinaram recentemente com a UE um Acordo de Associação.

Mas os incêndios, que não são recentes, mas que recentemente viralizaram, serviram de estopim para países europeus criticarem o acordo, ameaçando barrá-lo. Além da França, a Irlanda também ameaçou votar contra o acordo comercial entre os dois blocos, citando preocupação pela Amazônia.

"De maneira alguma a Irlanda votará a favor do acordo de livre comércio UE-Mercosul se o Brasil não cumprir seus compromissos ambientais", o primeiro-ministro Leo Varadkar disse em um comunicado divulgado na quinta-feira (22).

Outro país que se pronunciou contra a acordo desde a viralização dos incêndios é Luxemburgo, cujo ministro das Relações Exteriores, Jean Asselborn, afirmou essa semana "não poderá respaldar a assinatura do acordo se o Brasil não se preparar para respeitar a partir de agora as suas obrigações a respeito do Acordo de Paris que estão nas negociações com a UE".

Enquanto milhares de hectares ainda estão em chamas, o presidente se dedica a fazer declarações incendiárias e deixar, enquanto todo mundo lida com declarações e contra-declarações, os interesses desenvolvimentistas e predatórios de quem trabalha para enriquecer rapidamente à sombra do poder, avançar sem oposição de uma cidadania cada vez mais assustada, que na segunda-feira, 19 de agosto, viu como na capital econômica do país era feito à noite em plena luz do dia.

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