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Americanismo, anticomunismo e antiabortismo: os fundamentos da política externa eleitoral brasileira

As atividades da FUNAG mostram que está mais preocupada em lutar contra uma suposta ameaça comunista do que em promover nossos interesses internacionais.

Marilia Heloisa Fraga Arantes
Marilia Arantes
3 September 2020
Protesto contra a ameaça comunista no Brasil
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Wikimedia Commons. Domínio Público

Um componente vital da política externa de um país é a promoção de assuntos internacionais em nível doméstico, notadamente por valorizar a cooperação e a participação em espaços bilaterais e multilaterais. Mas no Brasil, as atividades da Fundação Alexandre Gusmão, FUNAG, sugerem que o órgão atualmente considera ultrapassada a promoção de tais valores cosmopolitas. O que se pode assumir frente às recentes atividades da FUNAG é, de fato, seu engajamento em defender a sociedade brasileira de uma suposta ameaça comunista.

A FUNAG é uma fundação vinculada ao Ministério das Relações Exteriores e trabalha para formar a opinião pública dos cidadãos em relação à política externa. Desde a eleição de Jair Bolsonaro, esteve evidente que os dois órgãos deveriam colocar-se cegamente alinhados com a ideologia de extrema direita de sua política externa, como o combate ao ‘globalismo’. Mas o que tem sido expresso pelas ações da FUNAG vai além disso.

Diante da decadente credibilidade do Brasil na arena internacional, a FUNAG parece abraçar uma nova missão. Esta não mais compartilha com os cidadãos informações acerca da projeção internacional do país, ou estimula o engajamento popular em temas internacionais. Ao contrário, seu conteúdo apresenta características marcantes do populismo bolsonarista: atingir sua audiência por meio de discursos esdrúxulos, em uma campanha eleitoral contínua. Após décadas da autodeterminada política externa pragmática, o Brasil capenga em uma pró-americanista e política externa eleitoral.

Além disso, uma das peças centrais da ‘constante campanha eleitoral’ é a de promover a distinção contínua entre o ‘eu’ e o ‘outro’, dividindo a sociedade entre aliados e inimigos. Como uma boa ferramenta bolsonarista, esse é também o discurso promovido pela FUNAG.

O globalismo, vale lembrar, é o termo usado por Bolsonaro e outros líderes como Donald Trump para condenar a atual configuração da política internacional e a ordem liberal internacional

Em meio às crescentes hostilidades contra a China por parte de autoridades brasileiras, entre as quais ministros, a FUNAG abraça o incondicional americanismo de Bolsonaro. Em 11 de agosto, a Fundação promoveu a conferência ‘O Resgate da relação Brasil-Estados Unidos e seus benefícios’. Na ocasião, o palestrante era ninguém menos do que o filho de Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, que discutiu a ‘reviravolta ideológica dos governos petistas’ e criticou a ‘questão dos médicos cubanos’.

Essa postura pró-EUA contudo é a característica bolsonarista menos radical promovida pela FUNAG. A Fundação parece ser atualmente especializada no combate ao comunismo e na defesa de uma agenda de valores morais conservadores. Tais tópicos são os mais aclamados pela audiência bolsonarista, que associa erroneamente o comunismo aos anteriores governos do Partido dos Trabalhadores, PT. Em agosto, a FUNAG promoveu o seminário ‘Como destruir um país: uma aventura socialista na Venezuela’. Exatamente um mês antes, a FUNAG também promoveu a conferência ‘Globalismo e Comunismo’.

O globalismo, vale lembrar, é o termo usado por Bolsonaro e outros líderes como Donald Trump para condenar a atual configuração da política internacional e a ordem liberal internacional, incluindo o sistema das Nações Unidas. Erroneamente, o chanceler brasileiro Ernesto Araújo relaciona frequentemente o globalismo ao marxismo cultural.

A agenda anticomunista da FUNAG é muito ampla para ser completamente explorada aqui. Mas pode-se ter uma ideia de sua profundidade pelo conteúdo sugerido por títulos tendenciosos como Castro-chavismo: crime organizado nas Américas’; ‘Um século de escombros: pensar o futuro com os valores morais da direita’ e ‘Memória do comunismo e a atualidade do vírus da mentira’. Todos esses eventos foram promovidos pela FUNAG entre os últimos meses de julho e agosto.

As ações da FUNAG podem contribuir para depreciar a projeção internacional construída pelo Brasil em seus governos anteriores

Para completar a equação bolsonarista, em 4 de agosto a FUNAG realizou um evento alinhado com os valores conservadores-cristãos: uma palestra antiaborto intitulada ‘A importância da promoção de políticas internacionais de defesa da vida’, conduzida pela deputada federal conservadora Chris Tonietto, que como Eduardo Bolsonaro, é membro do Partido Social Liberal (PSL), antigo partido do presidente Bolsonaro.

O conteúdo de política externa promovido pela FUNAG não contém relação com as práticas de relações internacionais descritas pela constituição brasileira, dentre as quais a promoção da cooperação para o progresso humano, advocacia dos direitos humanos e a defesa contínua da integração latino-americana. Ao invés disso, a FUNAG está atualmente engajada em agradar as bases bolsonaristas ao repetir os mesmos jargões de extrema direita de sua campanha presidencial.

De fato, a FUNAG não possui poder de tomada de decisão na política externa brasileira, mas seus discursos, na realidade, evidenciam a perda de credibilidade internacional do país. Após o declínio de seu status internacional, a política externa brasileira volta-se a audiência doméstica em busca de credibilidade – essa é a política externa eleitoral brasileira.

As ações da FUNAG podem ainda contribuir para depreciar a projeção internacional construída pelo Brasil em seus governos anteriores. A opinião pública é um componente necessário na construção da política externa. Em democracias, a necessidade por responsabilidade (accountability) de governos contribui para a tomada de ações alinhadas com a opinião da maioria. Ainda, quando um órgão como a FUNAG molda perspectivas domésticas em direção a um anticomunismo radical, há um processo similar de engajamento da população na defesa de tais valores. E a promoção de temas vitais, como a cooperação internacional e a integração regional, são deixados para trás.

Em detrimento à anterior política externa ‘altiva e ativa’, a FUNAG não parece interessada em discutir o futuro do MERCOSUL e de outros foros regionais, ou a integração regional para mitigar os impactos da Covid-19 na América Latina. Mas sua audiência pode continuar tranquila, com a certeza de estar protegida da ameaça comunista.

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