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Ataque “pró-vida” em marcha LGBT+ no Paraguai

"Espero que no Paraguai um dia possamos acessar todos os nossos direitos que até hoje, no século XXI, ano de 2019, continuam nos negando e da pior maneira possível". Español

2 October 2019
Integrante da marcha LGBT+ de Hernandarías, Paraguai, momentos depois de ser atacado, em uma imagem do WhatsApp.

Há alguns dias, me bateu um desejo terrível de estar no Paraguai para essas datas. Em 30 de setembro se comemora o dia nacional do orgulho LGTB+ e 2019 marca 16 anos de marchas ininterruptas realizadas na capital, Assunção.

Há um ano, foi possível expandir a mesma possibilidade para outras partes do país, como Encarnación e Coronel Oviedo, graças ao grupo Diversxs, que começou a organizar membrxs da comunidade para realizar um sonho: ter sua própria marcha.

Cada marcha é considerada uma conquista, e ainda mais nesses locais onde estão sendo realizadas pela primeira vez como é o caso de Hernandarias, que este ano se uniu para realizar sua primeira marcha LGTBI+

Convocada pelo grupo Diversxs com o apoio de várias organizações que lutam pelos direitos das comunidades LGTBIQ+, como Anistia Internacional, Repadis, It Better Better Paraguai, Ñepyru, SomosGay, entre outras, a marcha seria um sucesso.

Os preparativos

Em um grupo de WhatsApp que eu tenho da It Gets Better Paraguay - organização da qual sou membro fundador - vi como estavam organizando a viagem de Assunção a Hernandarias para poder acompanhar o evento.

Eu os vi preparando bandeiras multicoloridas, pôsteres, balões, penas e lantejoulas, mas acima de tudo os vi com grande alegria de fazer parte dessa primeira marcha por direitos iguais; naquela época, meu desejo de estar lá obviamente era enorme.

No sábado se realizou a 16º Marcha LGTBIQ+ em Assunção que foi, um sucesso. Os participantes dançaram, vestiram o que quiseram, andaram pelas ruas de Assunção com seus parceiros na frente de todos, ficaram livres por algumas horas e essa liberdade no Paraguai se paga com ouro.

Alguns dos participantes viajaram à noite após a marcha para chegar a Hernandarias cedo no domingo.

Quando acordei, li que eles já haviam chegado ao seu destino e estavam se preparando para sair e passar um lindo dia com um sol promissor. Após o meio dia, a marcha começou pela avenida da orla, as ruas estavam coloridas, com jovens dançando e cantando, divulgando frases como "Somos mais de 108!", "Ditadura nunca mais!," e andando pacificamente.

A ideia era percorrer um pequeno caminho para chegar ao palco que estava preparado para os diversos shows artísticos. Estávamos recebendo as primeiras fotos e vídeos da marcha, e eu realmente estava morrendo de vontade de estar lá.

Vista de la marcha de Hernandarías, Paraguay, antes de ser atacada. Foto: León CáceresNone

O ataque

Depois de algumas horas do início da marcha, começaram a chegar no grupo de WhatsApp umas mensagens alarmantes: "Eles nos encurralaram", "Liguem para a polícia, estão nos atacando", "Tem gente ferida", "Eles têm armas", "Covardes que se escondem". A principio não dava para entender o que estava acontecendo; tudo era confuso. Às mensagens foram adicionadas vídeos, um após o outro, um mais forte que o outro. Esses vídeos, ao contrário dos que chegaram no começo da marcha, não eram mais coloridos, mas sim vermelho sangue e regados de violência.

Toda vez que vejo os vídeos, fico magoado ao saber como em um segundo tanta alegria virou medo, terror, pesadelo e como as bandeiras coloridas que importantes para nós foram destruídas e incendiadas por pessoas com cruzes e Bíblias na mão. Eu não consigo entender.

Os vídeos mostram nossos colegas correndo de um lado para o outro, se escondendo, tentando se proteger o máximo que podiam: "O que aconteceu com você Marcos (ferido), eles estão nos atacando", "quase nos atropelaram (dá para ver uma camionete passando a toda velocidade)", "eles estão nos intimidando com bombas para nos expulsar, mas não vamos sair daqui", "há dois feridos, estão atirando pedras, frutas, ovos e a polícia não está fazendo nada". Eu via todas essas mensagens atordoado, incapaz de fazer mais nada daqui. Publico em minhas redes e o fiz para acalmar a angústia.

Os vídeos mostram uma grande “parede” de tecidos unidos que depois fiquei sabendo é conhecido como “El Sabanazo” (O Lençol), atrás do qual se escondem covardemente para poder jogar explosivos, ovos, pedras e outros objetos.

Eu me pergunto se mais do que "pró-vida" não deve ser chamado de "pró-ódio", porque realmente o que eles fizeram não pode ser outra coisa senão o produto do ódio falsamente justificado por suas crenças religiosas. Não sei o que poderia ser mais horrível do que exercer uma religião para fazer uso e abuso de sua doutrinação.

Segundo os companheirxs, elxs foram cercados pela primeira vez no palco, levando-os a se refugiarem em algumas casas, lojas ou outros comércios onde pudessem se esconder por medo dos ataques e também porque viram vários homens com armas brancas e até fogo.

De seus esconderijos, viram os "pró-ódio" com uma cruz em uma mão e uma pedra na outra, cercando a casa e exigindo que se retirassem da área, justificando o tempo todo suas ações com a falsa ideia de proteção da "vida e da família".

A imagem é muito clara: homens e mulheres adultos jogando pedras em pessoas que exigem seus direitos com seus filhos ao lado, assistindo e aprendendo.

Conclusão: Que mal que estamos no Paraguai!

O que essas crianças e jovens podem aprender com esses atos violentos? Que a vida e a família podem ser protegidas promovendo o ódio e a intolerância? Quem é o culpado por esses fatos?

Membros da contra-manifestação, prontos para atacar a marcha LGTB+.None

O responsável

O grupo de organizadores da marcha responsabiliza publicamente as agressões recebidas ao prefeito de Hernandarias, Rubén Amancio Rojas, que apenas dias antes assinou uma polêmica resolução proibindo a marcha. Logo depois voltou atrás, dizendo que a marcha poderia ser realizada. Era uma armadilha?

A organização considera que este documento, quando endossado pelo próprio Estado, provocou o ódio que o levou a ataque que deixou vários feridos. Também denunciaram o fato de que a Polícia Nacional local nunca tomou as precauções necessárias para proteger as pessoas LGTBIQ+ que estavam marchando, mas praticamente as deixou serem atacadas.

Leo Cáceres, um dos fotógrafos ativistas que estava cobrindo a marcha, enviou esta mensagem ao grupo: “Temos que nos preparar, nos unir e ser mais fortes do que nunca, porque eles não vão nos esquecer e prometo que o próximo ano será pior e que não quero ser pessimista, mas vi caras armados na frente dos policiais que não fizeram nada. É uma vergonha tudo o que aconteceu, como eles nos atacaram, o que tivemos que passar, a impotência que sentimos. É uma pena que essas pessoas ensinem seus filhos a jogar pedras, ameaçar e demonstrar tanto ódio por outras pessoas”.

Os organizadores da marcha, no início, negociaram com a polícia para que a realização da marcha fosse respeitada e que eles pudessem fornecer segurança para realizar os atos. Mas diante do ataque maciço e do pequeno número de policiais, eles tiveram que levar pequenos grupos em seus carros de patrulha até o ônibus para evitar mais feridos.

"O pecado nunca será um direito", disse o padre Jorge Miquel Martínez, da Igreja do Sagrado Coração, em reação à marcha LGTB+

A igreja

O padre Jorge Miguel Martínez, da Igreja do Sagrado Coração de Jesus de Hernandarias, foi um dos que comemoraram a resolução da cidade e justificaram o que aconteceu através de um vídeo que postou na conta do Facebook da mesma Igreja:

“Apoiamos totalmente nossas autoridades na preservação dos mais preciosos princípios culturais cristãos para nosso povo. Hoje, um grupo LGTB organizou uma marcha para exigir o que eles consideram direitos; diante disso, um grupo de cidadãos locais decidiu demonstrar também, usando o direito de manifestação prevista na constituição nacional que. Eles chamavam seu ato de El Sabanazo, para cobrir o que é vergonhoso da visão de crianças e jovens pelo exibicionismo que geralmente ocorre nesse tipo de evento. Havia um terceiro grupo de manifestantes locais que estavam cansados ​​desse tipo de coisa que excedeu um pouco suas reações... A violência injusta é certamente repreensível... mas há uma violência muito mais séria que é a violência contra a verdade, que quer elevar a status de direito o que está errado, o pecado, o que é um ataque à lei natural... O pecado nunca será um direito”.

Um membro do grupo que enfrentou a marcha, empunhando um crucifixo.None

A mensagem: Paraguai, não me mate!

O que começou como um ótimo dia para muitos, terminou da pior maneira possível. Felizmente todos os feridos já foram tratados e poderão se recuperar fisicamente, mas o ataque psicológico que sofreram nunca será esquecido, principalmente os voluntários que participaram pela primeira vez na vida de uma marcha.

Agora não sabemos se eles vão querer sair novamente, mas o que temos certeza é que, onde quer que estivermos, continuaremos marchando e usando nossas vozes por eles e para todos aqueles que não podem, por quem tem medo, por quem sofre em silêncio.

Queremos dizer a essas pessoas que todos temos medo e muito mais depois do que aconteceu, mas não estamos sozinhos, estamos cada vez mais exigindo um mundo melhor, mais igualitário para todos. Espero que no Paraguai um dia possamos acessar todos os nossos direitos que até hoje, no século XXI, ano de 2019, continuam nos negando e da pior maneira possível".

Se me perguntarem se eu ainda desejo estar no Paraguai nessas datas, eu diria que sim. Mas também devo confessar que esse desejo vem acompanhado de muitos outros sentimentos: desamparo, raiva, angústia, terror, muito medo de voltar, mas também um tremendo desejo de ser lá acompanhando meus companheiros para gritar juntos para o mundo: Paraguai, não me mate!

* Texto dedicado a todos os companheirxs que arriscaram suas vidas e sua integridade física por quererem fazer do Paraguai um lugar melhor para todxs.

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