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Bem-vindo aos EUA: o lugar onde as más ideias nunca morrem

A Covid-19 revela os efeitos desastrosos das tendências de longo prazo na política e cultura americana. English Español

Ian Hughes
19 May 2020
Flickr/Occupy*Posters. CC BY-NC-SA 2.0.

Observado da Europa, o impacto da pandemia de Covid-19 nos Estados Unidos parece ser algo como a "Queda da União Soviética" na história. Os marcos desse evento estão gravados na memória – as multidões derrubando o Muro de Berlim, a invasão da Casa Branca por Boris Yeltsin em Moscou e as revoltas democráticas que reconfiguraram a Europa, da Polônia à Romênia.

Mas acima de tudo, a queda da União Soviética é lembrada por muitos como o fim de uma má ideia – a ideia de que um Estado de partido único pode suprimir violentamente seus cidadãos em nome do bem coletivo. Na prática, essa ideia sempre se traduziu em tirania e na violação em massa dos direitos humanos.

O momento da "Queda da América" a que estamos assistindo atualmente – com taxas de infecção e mortalidade liderando os rankings mundiais e uma desastrosa falta de liderança federal – é de uma natureza diferente. Pode ser entendido, não como o fim de uma má ideia, mas como a vitória pírrica de todo um conjunto de más ideias há muito presentes na cultura americana, que vem definindo o país nas últimas décadas.

A principal fonte atual de más ideias, é claro, é o presidente Donald Trump. Suas ideias – que a mudança climática é uma farsa, que as turbinas eólicas causam câncer, que o coronavírus pode ser curado a través de injeção de desinfetante – representam uma corrente interminável de irracionalidade, teoria da conspiração e fantasia narcisista.

Na ausência da Fox News e da abordagem de que sempre existem "dois lados para cada história" empregada pela maior parte da mídia, o comportamento patológico de Trump é visto como resultado de um distúrbio mental muito mais claramente na Europa do que nos EUA. A consternação dos europeus com Trump é superada, no entanto, pelo fato de que uma proporção considerável da população americana continua a apoiá-lo.

É este fato – que a patologia de Trump está profundamente enraizada em grande parte da sociedade americana – que marca este momento como um evento comparável à "Queda da União Soviética". A pandemia expôs a estrutura de poder por trás do Trumpismo como uma estrutura que compartilha sua patologia, baseada em más ideias que se recusam a morrer.

A desigualdade é positiva

Talvez a mais arraigada dessas más ideias seja a de que a desigualdade é positiva. Esta é a ideia fundacional da economia neoliberal, que nos trouxe a crise financeira de 2008 e produziu os maiores níveis de desigualdade desde a Segunda Guerra Mundial. Contribuiu para o enfraquecimento da democracia, a fragilização dos sistemas de bem-estar social, a privatização dos bens públicos e a globalização do comércio que beneficiaram de forma desproporcional os ricos. Valoriza a ganância com base no fato de que tanto os vencedores quanto os perdedores do capitalismo de livre mercado merecem seu destino.

Os EUA tem maiores concentrações de riqueza, maiores níveis de pobreza, violência, crime e encarceramento do que qualquer outro país desenvolvido

Qualquer governo americano que tente reduzir a desigualdade corre, portanto, o risco de ser acusado de roubar de quem trabalha duro e de quem tem talento suas justas recompensas, a fim de subsidiar os preguiçosos e sem talento. Como consequência, os Estados Unidos tem maiores concentrações de riqueza, maiores níveis de pobreza, violência, crime e encarceramento do que qualquer outro país desenvolvido. Essa má ideia minou a democracia de forma que Trump agora é capaz de desmantelá-la com relativa facilidade.

A liberdade religiosa supera o bem público

A Revolução Americana trouxe consigo uma das melhores ideias da história da humanidade: a separação da igreja e do Estado. O objetivo dos Pais Fundadores não era erradicar a religião, mas garantir a liberdade religiosa para todos, independentemente da filiação (ou de não ter). A separação da igreja e do Estado priva os fanáticos religiosos da capacidade de usar o poder do governo para impor qualquer dogma religioso particular a toda a população.

Mas a ideia de impor as próprias crenças religiosas aos outros não desapareceu. Na verdade, ela se fortaleceu com a ascensão dos evangélicos conservadores aliados ao Partido Republicano. Isso é particularmente preocupante porque o fundamentalismo religioso traz consigo toda uma série de outras más ideias como o criacionismo, o anti-feminismo, o preconceito contra comunidades LGBTQ, a ideia de que a ciência é má e que o fim do mundo seria bom.

Sob Trump, a boa ideia de garantir a liberdade da consciência religiosa foi substituída por sua grotesca paródia – a insistência patológica dos fundamentalistas religiosos de que a liberdade de religião individual é mais importante do que o bem público.

Na Guerra Civil, o lado errado venceu

O trumpismo está dando nova vida a outra má ideia que há muito persiste na cultura americana, a de que o "lado errado" venceu a Guerra Civil, e que os EUA é, e deve permanecer, fundamentalmente uma nação de privilégios brancos. Para uma nação construída sobre as costas dos escravos africanos e composta por imigrantes de todo o mundo, tal ideia não só é profundamente irracional como prejudica a própria viabilidade da sociedade americana.

Como disse James Baldwin, o racismo não é apenas uma má ideia; é uma ideia vergonhosa porque as atitudes e crenças dos racistas provam sua própria desumanidade, não a inferioridade de sua vítima. E ainda assim, na América de Trump, muitos americanos estão se deliciando em expressar abertamente sua desumanidade.

O fato de terem poder para fazê-lo é tragicamente demonstrado pelo fato de um menino negro de 12 anos com uma arma de brinquedo ser morto a tiros, enquanto milícias brancas armadas que ameaçam governadores de estados são caracterizadas pelo presidente como pessoas muito boas. Em conjunto, as más ideias de desigualdade, fundamentalismo religioso e racismo têm desfiado o tecido da sociedade americana.

A má ideia número quatro está profundamente gravada na psique da população: O excepcionalismo americano, a ideia de que os EUA são uma civilização única, moralmente superior, destinada a guiar o mundo

O excepcionalismo americano

A má ideia número quatro está profundamente gravada na psique da população: O excepcionalismo americano, a ideia de que os EUA são uma civilização única, moralmente superior, destinada a guiar o mundo.

Não é de surpreender que, na era de Donald Trump, as evidências sugerem que a maior parte do mundo agora vê essa ideia como uma perigosa ilusão. O excepcionalismo americano sustenta a determinação do governo Trump em deter a ascensão da China e manter a hegemonia dos EUA, uma ideia que atrai apoio bipartidário. Mas tentar impedir o desenvolvimento econômico de quase um quinto da população mundial a fim de manter um padrão de vida superior para pouco mais de 4% dos americanos não é apenas moralmente errado, é também geopoliticamente perigoso.

No século XXI, o desafio para os EUA não é afirmar um direito de domínio baseado em algum excepcionalismo mítico; o desafio é forjar novos níveis de cooperação para tratar urgentemente de problemas comuns como as mudanças climáticas e as pandemias – problemas que só a ação transnacional pode resolver.

O mito da violência redentora

A má ideia final que está bem viva nos Estados Unidos de hoje é o mito da violência redentora – a crença de que o bem só pode triunfar sobre o mal por meio do conflito. Ao desenvolver esse mito, o castigo do vilão proporciona a catarse enquanto a salvação é encontrada através da identificação com o herói armado.

Como aponta o teólogo Walter Wink, há muito tempo a cultura americana está mergulhada na mitologia redentora da violência, desde Batman e Robin, Lone Ranger e Capitão América até o Vietnã, Iraque e a "guerra contra o terror".

Internacionalmente, a fé na violência redentora sustenta a cara rede americana de quase 800 bases militares em mais de 70 países ao redor do mundo, enquanto os Estados Unidos gastam mais em defesa nacional do que os próximos sete da lista juntos. O mito da violência redentora também sustenta a paixão dos Estados Unidos pela posse de armas e sua aceitação de níveis extremos de violência armada. Sob Trump, este perigoso mito ameaça normalizar a justiça sumária e justificar a rejeição das restrições legais necessárias para derrotar os "inimigos" americanos.

É difícil olhar para esta lista de péssimas ideias sem ver uma nação em declínio terminal. Olhando da perspectiva europeia, o trumpismo revelou os Estados Unidos como um lugar onde tais ideias nunca morrem, e sua presidência é um desastre porque é baseada em uma coalizão de pessoas que acreditam profundamente nelas.

O escritor ruandês Bangambiki Habyarimana observou que nossas mentes são um campo de batalha entre boas e más ideias, e o lado vencedor é o que define quem somos. Assim é também com as nações. O que era verdade para a União Soviética há 30 anos é verdade para os Estados Unidos de hoje: uma nação baseada em más ideias está destinada à queda.

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