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Berta Cáceres: quando a defesa do meio ambiente custa a vida

Seu assassinato brutal há quatro anos transformou a ativista hondurenha em um ícone na luta pela defesa dos líderes ambientais, que continuam sendo perseguidos e mortos na América Latina. Este é seu perfil. Español

Daniela Sánchez
25 March 2020
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Durante décadas antes de seu assassinato em 2016, Berta Cáceres defendeu o meio ambiente e seu território indígena Lenca em Honduras. Filha de uma parteira e ativista social, que recebeu refugiados de El Salvador durante o período de violência na América Central nos anos 80, Berta sempre esteve perto da luta pelos direitos humanos.

Por isso, em 1993, co-fundou o Conselho Cívico das Organizações Populares e Indígenas de Honduras – COPINH, uma organização Lenca para garantir os direitos da comunidade, opondo-se a projetos extrativistas e defendendo o território. Seu nome sempre foi e será sinônimo de força e resistência.

Berta se considerava, antes de mais nada, uma defensora dos direitos humanos. Uma lutadora que se opôs aos projetos de multinacionais que vieram a Honduras para "colonizar" e violam inescrupulosamente os direitos de comunidades indígenas como a dela. Ela falava com convicção e aspereza sobre as condições que os interesses econômicos e as elites políticas corruptas impunham a seus povos. Mas ela também percebeu o quão desprotegida e vulnerável era sua situação. Durante sua carreira como líder social, recebeu ameaças de morte e violência sexual. Foi presa e espancada pela polícia.

Mas sua luta e sua coragem também receberam reconhecimento. Em 2015, um ano antes de seu assassinato, ela recebeu o Prêmio Ambiental Goldman, que reconhece pessoas por seus esforços significativos e sustentados para proteger e melhorar o meio ambiente, incluindo o risco pessoal que esse esforço geralmente envolve.

Berta sentiu que o início dos anos 90 permitiu o ressurgimento de organizações indígenas e negras na América Central, resultado de diferentes processos de paz e desmilitarização. Ela se concentrou em enfatizar a palavra “reavivamento”, pois afirmava firmemente que sempre estiveram lá. Em diferentes entrevistas, Berta deixou claro seu ponto de vista: "O projeto de transnacionalização é cada vez mais agressivo contra os povos indígenas, negros e aqueles que lutam para defender esses direitos territoriais, culturais, espirituais e, bem, direitos econômicos e políticos". Juntamente com o Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (Copinh) e outros líderes, Berta se após a ser uma mera colônia da qual extrair ouro, prata, óleo, madeira; tudo à custa do meio ambiente e dos direitos da sua comunidade.

Nesse contexto, e quando em 2006 os membros de sua organização a alertaram sobre a presença de máquinas de construção perto do sagrado rio Gualcarque, Berta não hesitou em agir com todas as suas forças para enfrentar essa nova infraestrutura. Era a represa de Agua Zarca, um projeto da empresa hondurenha DESA, que deveria ser realizada no território Lenca, sem consulta prévia à comunidade e sem levar em consideração os efeitos devastadores que ela poderia ter, não apenas ao meio ambiente, mas também à vida da comunidade.

Desde o momento que Berta se opôs ao projeto, a DESA lançou uma campanha contra ela. Segundo a Guiape, um grupo de especialistas independentes que investigava o assassinato de Berta, “a DESA desenvolveu um sistema de vigilância e monitoramento em torno de Berta Isabel Cáceres Flores, baseada principalmente em informantes, a quem forneceu recursos logísticos e financeiros para que coletassem informações sobre as atividades pessoais e públicas dessa líder e dos membros da COPINH.”

Essa caçada, e a determinação de ferro de Berta de não se intimidar, foi o que resultou em seu assassinato em La Esperanza, Honduras, na manhã de 3 de março de 2016. Com esse fato brutal, eles tentaram silenciar uma voz, embora sem sucesso, porque ainda ressoa em seu legado.

Até o momento, mais de 7 pessoas foram condenadas pelo assassinato de Berta Cáceres, muitas delas oficiais do governo hondurenho e da DESA. No entanto, quem pode ser o autor intelectual ainda está livre, aguardando uma sentença que, conspícuamente, levou muito mais tempo do que o habitual. Esse suposto autor intelectual é o diretor executivo da DESA. A família de Berta e a COPINH não descansarão até que haja justiça, independentemente das ameaças que continuam ocorrendo impunemente.

Qual é a situação em Honduras?

Segundo o Frontline Defenders, Honduras foi o segundo país da América Latina e o terceiro no mundo, com o maior número de assassinatos de líderes sociais e/ou ambientais em 2019.

Com 31 casos, está acima de países como Brasil, Venezuela, Peru, México, Haiti e Equador; destacando, assim, a persistência de um forte problema ambiental que se resolve na base do tiro diante da passividade das autoridades governamentais.

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FRONT LINE DEFENDERS GLOBAL ANALYSIS 2019

Essa mesma organização alerta que "os defensores dos direitos humanos sofrem execuções extrajudiciais, desaparecimentos forçados, tortura e maus-tratos, além de assédio judicial, ameaças e estigmatização". Embora em 4 de junho de 2014 o governo hondurenho tenha aprovado uma lei para proteger os defensores, a situação não melhorou, como ficou evidente com o assassinato de Berta Cáceres em 2016.

Embora seja uma tendência na região, os líderes sociais em Honduras defendem principalmente o meio ambiente. Em outras palavras, defender o meio ambiente é defender sua própria casa, e isso está lhe custando a vida.

A situação não parece estar melhorando e sim piorando, mostrando os mesmos males de sempre quando as autoridades são incapazes ou simplesmente não têm intenção de erradicar: corrupção, impunidade, interesses privados e de elite e falta de representação.

Resta notar que a voz de Berta, graças à luta de sua família e de todo o movimento ambiental latino-americano, não foi silenciada em vão. Muitos e muitos outros estão morrendo por causas semelhantes, mas não param de lutar.

Este é o primeiro dos três perfis que fazem parte do especial do Democracia Abiera: A Ameaça de Defender.

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