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A Bolívia e a nova direita andina

Como Macri na Argentina, Capriles na Venezuela ou Rodas no Equador, a direita boliviana vesse reforçada. Uma jovem mulher aymara agora é a esperança da nova direita para vencer Evo Morales. Español. English.

Pablo Stefanoni
23 September 2015
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O teleférico toma força e num ângulo de 45 graus faz o último percurso entre a hoyada –forma popular de denominar a La Paz– e O Alto, a cidade aymara rebelde, que desde há três décadas construiu uma identidade própria sustentando-se na força de edifícios coloridos e uma forte densidade plebeia e comercial. Desde esses quatro mil metros sobre o nível do mar, o milhão de alteños nos primeiros anos 2000 votou dois presidentes. Votou em massa a Evo Morales em três eleições e há pouco tempo surpreendeu ao eleger como prefeita a Soledade Chapetón, uma jovem mulher e dirigente de uma nova direita andina que sonha com chegar ao poder pelas urnas.

No dia 29 de março de 2015, desafiando as indicações do presidente que chamava a votar pelo MAS, O Alto votou como prefeita a Soledad Chapetón, do partido Unidade Nacional liderado por Samuel Doria Medina, um dos homens mais ricos do país e segundo nas eleições de outubro de 2014. O seu triunfo perfurou as estruturas corporativas locais, aderidas ao oficialismo nacional, e procura ser uma cara popular de um partido associado ao nome de um empresário milionário. De facto, as suas primeiras semanas no poder não foram tranquilas.

A cidade emblemática da Guerra do Gás que em 2003 expulsou do poder Gonzalo Sánchez de Lozada –e pouco depois faria o mesmo com Carlos Mesa–, pode surpreender a quem vão em procura de autenticidade: uma geladeira anuncia bits cream, a outra, cheia de cremes de cores para agregar-lhe aos gelados, snow cones. O pequeno posto Steel City oferece joias e outros produtos de aço. A estação Qhana Pata (Olhador), no bairro Cidade Satélite, é agora um dos acessos a esta urbe que já deixou de ser um satélite de La Paz.

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Na altura, a combinação de vento gelado e sol abrasador provoca uma sensação estranha de frio, calor e fadiga combinados, mas seguramente ninguém sentiu nada parecido ao conde Hermann Keyserling, o filósofo alemão convidado a Buenos Aires por Victoria Ocampo que em 1929 continuou para o altiplano pacenho onde–como recorda em suas Memórias Sul-americanas– foi preso de uma sensação análoga à “dos repteis quando as influências telúricas lhe apresentaram o dilema de se converter em mamíferos ou perecer”, e foi então que tomou consciência da sua própria “mineralidade”.

A Sole –como todos a conhecem ainda que sua secretária lhe chame lume “a licenciada”– entra no escritório quase correndo após subir três andares por escada, carregando a carteira, alguns papéis e uma carteira de folhas de coca. O teto do local partidário, como muitas casas “alteñas”, é de calaminas (chapas) de plástico, para obter um efeito estufa e transformar os raios do sol em calor.

 —¿Pijchea [masca] coca?

 —Sim eu pijcheo, fazia-o muito na universidade, agora também a partilho com minha mãe, e até meu o cão pijchea.

Nas eleições de fins de março passado os alteños decidiram dar as costas ao Movimento ao Socialismo e ao atual prefeito, Édgar Patana, ex-dirigente sindical dos vendedores de rua (gremial), e eleger Soledad Chapetón, 34 anos, solteira, e militante de um partido tratado pelo governo como a direita com pele de cordeiro. Venceu o MAS com um amplo 55% dos votos, mas as suas respostas são cautas.

 —Ganhou-lhe a Patana ou a Evo Morales?

—Não sei, não sou analista política. Eu participo em política para fazer algo pela minha cidade, para mim isso é a política. Mas é verdade que quando vemos que o Presidente se envolveu na campanha então não foi simplesmente Patana. A realidade é que no Alto ganhou a renovação.

Com cabelo negro intenso, Sole considera-se “uma mulher aymara que olha para a frente”, e não como outros prefeitos que governaram a cidade, nasceu e foi criada nesta urbe marcada pelas imagens traumáticas de 2003: dezenas de mortos e feridos, bloqueios, juntas de vizinhos em pé de guerra contra a decisão de Sánchez de Lozada de exportar gás ao Estados Unidos por portos chilenos. Chapetón –licenciada em Educação na Universidade Maior de San Andrés de La Paz– que não fala mas entende a língua de seus pais e avôs, também se considera marcada pela Guerra do Gás; considerando que dita gesta não se pode separar ao orgulho “alteño”:

—Em 2003 estudava e trabalhava. A cada zona tinha seu cronograma para participar nas atividades e nos bloqueios, e todos participámos. Sentimos a repressão policial e militar e a insensibilidade das autoridades, os assassinatos, os desaparecimentos… Eu estava no bloqueio da avenida Bolívia, onde se impedia que os camiões com combustível baixassem para La Paz.

Os desbloqueios “a balaços” ordenados pelo “Zorro” Carlos Sánchez Berzain, homem forte de então, para abastecer de gasolina e gás a La Paz, provocaram mortos e feridos e contribuíram a radicalizar o movimento de protesto. A 17 de outubro Goni fugiu, primeiro a Santa Cruz e depois a Estados Unidos. Hoje um julgamento de responsabilidades espera-o em La Paz mas Washington não o vai entregar, inclusive especula-se com que além de acento “gringo” tem a cidadania de dito país.

—Como “alteña”, 2003 marcou-me —diz Chapetón, que por essa data tinha 23 anos.

Hoje um dos seus principais inimigos é Braulio Rocha, o secretário executivo da Federação de Grêmios do Alto, um caudilho sindical com escasso prestígio social, que disse que será “o pesadelo de Soledad Chapetón”. Já lhe tentaram fazer uma greve cívica por se sentir excluídos na nomeação de subpresidentes, mas o movimento fracassou e a Sole saiu fortalecida.

—Estou “totalmente preparada” para enfrentá-lo, mas ele deve entender que a campanha eleitoral já terminou —diz por trás da sua mesa, num escritório pequeno, enquanto um grupo de pessoas a aguarda na sala. Possivelmente já começaram a pedir-lhe coisas –sobretudo “projetos” para as suas zonas– à nova edil. Governar a cidade mais jovem de Bolívia (tanto a urbe como seus habitantes são jovens) não é fácil. E no Alto parece faltar um pouco de tudo.

Em várias ocasiões usa o termo Estado Plurinacional, nova denominação da Bolívia, que é recusada pela direita dura, fala da coca como “a folha sagrada” e mostra-se aberta a reformas como a união civil entre pessoas do mesmo sexo: “o mundo e as sociedades têm experimentado grandes mudanças e isto tem que ser assumido nas políticas públicas, com direitos e com respeito”. Diz que não se refere com nenhuma mulher política no exterior e reconhece a contribuição da cooperação estadunidense no Alto, através da agência Usaid. Mas mostra-se mais contundente à hora de negar que seu partido e ela mesma sejam de direita: “Eu nasci para a vida política num partido de centro-esquerda: a Unidade Nacional. Os seus estatutos dizem que é um partido de esquerda democrática. Nunca fui de direita”.

Na sala, os militantes de UM tratam-se de “colegas” e um grande cartaz tem a foto do líder partidário, que se esforça por sorrir, com a lenda: Samuel presidente. A sua cor é o amarelo.

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Samuel é um sobrevivente. Quando às 9.55 da manhã do dia 21 de janeiro de 2005 o avião da empresa Amaszonas no que viajava começou a dar voltas no ar e se precipitou a terra o empresário pensou: “Carajo, não posso morrer”. Ao menos assim o relatou no meio da última campanha presidencial e a expressão causou gozo, deu lugar a infinidade de memes e algum rap satírico, mas também contribuiu para o seu segundo lugar com o 25%, ainda que longe de um Evo Morales com mais de 60%, na sua terceira tentativa de chegar ao Palácio Queimado. Para isso, aliou-se com o governador autonomista de Santa Cruz, Rubén Costas.

Samuel –como é popularmente conhecido– é economista com uma pós-graduação em Inglaterra, ex-funcionário do Banco Mundial, ministro nos noventa e há pouco tempo vendeu a sua empresa cimenteira SOBOCE, um dos principais industriais de Bolívia. Além disso, detém a franchising boliviano da marca Burger King. O seu estilo é um pouco seco e pouco expressivo, mas a sua vida está atravessada pela riqueza e a adversidade, o que lhe outorga uma “missão”; talvez na sua opinião, a de ser presidente. Dez anos dantes de seu acidente aéreo tinha sido sequestrado pelo Movimento Revolucionário Túpac Amaru –o grupo guerrilheiro peruano– em novembro de 1995 e passou 45 dias cativeiro. Sem dúvida, Samuel poderia viver numa praia (lugar ao que o imaginário popular envia a todos os ricos e famosos) mas prefere as areias movediças da política boliviana.

Durante a Assembleia Constituinte de 2006, quem não o conheciam não tivessem imaginado que um dos parlamentários jogado num colchonete em greve de fome em protesto contra o oficialismo era um milionário apaixonado pela política.

—Samuel Doria Medina é o homem mais rico de Bolívia? —Perguntei-lhe numa entrevista para Página/12 em 2005.

—Eu estou orgulhoso de investir no meu país, de ter tido sucesso e demonstrar que na Bolívia se pode ser competitivo (…). Não tenho vergonha de dizer me tenho saído bem e que as minhas empresas são eficientes. Tudo o que ganhei foi reinvestido no país, não o enviei a Miami —declarou. Nesse momento, a sua campanha contra Evo Morales e contra o candidato de direita Jorge “Tuto” Quiroga, tomou como posição equidistante a aposta por um “um ALCA light, como Lula”.

Samuel recusou juntar-se à direita e lutou por um “centro popular”. Inclusive recordou a afiliação socialdemocrata do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) ao que pertenceu e pelo que foi ministro baixo o governo de Jaime Paz Zamora. Este exseminarista também caiu num avião e salvou-se. Foi em 1982, antes de ser vice-presidente num governo de esquerda, a as marcas no rosto recordam que é um sobrevivente, ainda que hoje não já não se meta na política, à diferença do ex-empresário cimenteiro de 56 anos.

 

Evo Morales continua a dizer que a posição de Doria Medina no Ministério de Planejamento condena-o como um privatizador, a pior injúria nesta década “ganhada” em versão boliviana.

Na recente campanha para as eleições locais, o presidente boliviano não duvidou em afirmar que Doria Medina procurava rearticular à direita desde o município alteño com A Sole. “Doria Medina continuará conspirando contra a gestão do presidente Evo Morales e é por isso que procurará converter ao município do Alto na sua ponta de lança para desestabilizar o processo de mudança”, lançou o mandatário, falando de si mesmo em terceira pessoa, com os pés no barro eleitoral para evitar a derrota anunciada no Alto. Um vídeo filtrado oportunamente mostrava ao prefeito Édgar Patana –candidato à reeleição pelo, MAS– recebendo um envelope há anos, quando era dirigente gremial. Foi o golpe de graça a sua candidatura, cuja impopularidade se podia perceber nessa urbe com estética ruralizada… “não faz obras”, “é um corrupto”, “vamos votar por uma mudança”, “não queremos a Patana”. Patana disse que no envelope não tinha dinheiro, mas que não recordava o seu conteúdo.

Os mesmos alteños que votaram em massa por Evo Morales em outubro de 2014 –e aos seus candidatos a deputados alteños– dispunham-se a não seguir seus pedidos de, pese a tudo, pôr a votar pelo processo de mudança. Uma deputada alteña do MAS veio-se abaixo quando viu a seus próprios seguidores de uns meses dantes pintando paredes para A Sole… Não conseguiu convence-los a reverter a sua atitude.

O conceito de “nova direita” vem usando-se para descrever às oposições em países com governos pos-neoliberais, que têm procurado lutar contra o estigma de restauradoras da velha ordem neoliberal, resgatam a política social, não desprezam ao Estado como seus antepassados noventistas e assumem o jogo democrático. Henrique Capriles na Venezuela, Mauricio Macri na Argentina ou Mauricio Rodas no Equador parecem enquadrar-se neste conceito ––com a noção de que não é a primeira vez que se fala de novas direitas.

Nas últimas eleições, Evo Morales tentou remover Patana, porque sabia que a derrota era provável, mas o chanceler David Choquehuanca, encarregado da campanha em La Paz, não pôde com os amarres que o prefeito tinha andado com os líderes das principais organizações sociais altenhas: a Federação de Juntas Vecinales (Fejuve), a Central Operária Regional e a federação de grémios. Contra as cúpulas dessas organizações votaram também os eleitores a 29 de março.

E o MAS não só perdeu O Alto. Além da cidade de La Paz (já em mãos da oposição de centro-esquerda do prefeito Luís “Luto” Revilla), a derrota mais dura foi para governo. A candidata indígena-camponesa Felipa Huanca, dirigente das Bartolinas, também foi acusada de corrupção e não pôde ou não quis desmentir com a firmeza que a situação requeria, diluindo a aura de “reserva moral” com a que como mulher e indígena devia compensar sua falta de experiência na gestão. Foi derrotada pelo catedrático aymara Félix Patzi Paco, ministro de Evo em seu primeiro governo e hoje opositor (o governo chama estes ex-oficialistas “os ressentidos”).

Ainda que ganhou muitas outras regiões e municípios (a maioria), Evo sentiu o sabor amargo de perder onde não podia perder, na cidade bandeira das lutas sociais dos 2000. Ao que se somou a derrota na maioria das capitais de departamento, as mais povoadas. Os bolivianos não confiam cegamente em Evo Morales, ainda que hoje Evo seja imbatível.

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Soledad Chapetón, Presidente de El Alto

Carlos Laruta também nega pertencer a um partido de direita. Este sociólogo alteño, pese a ter conseguido um desempenho trabalhista exitoso, que incluiu uma longa estadia no exterior, decidiu não abandonar a cidade para a qual emigrou com o seu pai. Ex-candidato a governador e membro da direção de UM, conta que seu avô foi um camponês aymara que fugiu da fazenda para terminar trabalhando na Bolívia Railway, no caminho-de-ferro Arica-La Paz onde a Bolívia conseguiu a mudança da perda do litoral marítimo a mãos chilenas. Um tema hoje candente pelo julgamento boliviano na Corte contra o seu vizinho transandino.

Laruta pai “chegou ao Alto com abarcas (sandálias) e urbanizou-se”. Para falar da política e da sociedade alteñas, este catedrático de sociologia na Universidade Maior de San Andrés de La Paz convida a almoçar cordeiro no restaurante O Rancho, na estrada a Viacha. Ali pode-se encontrar a parte da classe média altenha: homens mestiços e senhoras de “pollera”, como se denomina de maneira politicamente correta os mestiços. Os pratos não são baratos: um cordeiro com uma cerveja (cevada com 3,5% de álcool) custa dez dólares e há famílias numerosas. É parte do boom económico de Bolívia, hoje elogiado pelo Banco Mundial ou o New York Times que, pelo momento, resiste a diminuição do preço de matérias primas e tem um colchão de reservas que equivalem à metade do Produto Bruto Interno (o PIB per capita quase se triplicou desde 2005 e a nação andina passou a ser um país de rendimentos médios). Luis Arce Catacora bateu todos os recordes: é ministro de economia desde o começo do governo de Evo, e já leva nove anos no cadeirão. Diz que se pode ter “uma política socialista com equilíbrio macroeconómico”.

Enquanto separa o cordeiro do chuño (papa negra dissecada no gelo muito popular no Altiplano) Laruta recorda a sua posição pelo Partido Social na universidade, a sua atividade na direção do Centro de Investigação e Promoção do Campesinato (CIPCA), uma ONG progressista, e seu trabalho no Guatemala –nos anos 90– na reconstrução pos-conflito do país, no marco de uma missão especial da ONU. E continua:

—A UM é um partido socialdemocrata. Samuel não é um de direita, é um empresário rico, mas muitas vezes enfrentou-se aos liberais e acha que um amplo sector da economia deve ser manejado pelo Estado, mas de maneira transparente.

Não faz falta que diga que acha que o atual governo não o faz dessa forma. É mais, destaca que o empresário, como dono da cimenteira SOBOCE, teria podido pedir uma concessão mineira de pedra caliça, mas preferiu “aliar-se” com os camponeses, mostrando “não só responsabilidade social, mas também compromisso”. Um compromisso que se reflete na expressão “economia plural” que reconhece e procura potenciar a nova Constituição aprovada em 2009. E remata: “A UM não é um partido tradicional, também é produto de 2003, aliás a Guerra do Gás foi em outubro e UM nasceu em dezembro desse ano”.

A Sole coincide com este discurso: “Eu analiso as pessoas em toda a sua dimensão. Ainda que Samuel seja um empresário exitoso também é uma pessoa muito humana, eu mesma tenho comprovado o compromisso social de suas empresas. Não devemos discriminar pela cor da pele e também não por posição social. Devemos julgar às pessoas pelo que são. Samuel sente que a política é um serviço”.

O dirigente do samuelismo Jaime Navarro ou o senador cochabambino Arturo Murillo dificilmente caberiam na categoria esquerda, para além dos “apelidos” que se lhes coloque. Também não Adrián Oliva, novo governador de Tarija aliado do UM e um dos fundadores da Aliança Parlamentar Democrática de América que considera totalitários aos governos nacional-populares da região.

Fernando Molina, um dos principais analistas políticos bolivianos, num recente artigo na revista Nova Sociedade situa este partido como a asa “moderada” da oposição de direita: “Na ‘Visão de país’ de Unidade Nacional pode-se ler como lema central: ‘Reconciliação nacional, continuidade e inovação para construir um país para todos’ e, como resumo do propósito da política deste partido: fazer ‘uma síntese que recolha o melhor que temos feito até agora e lhe dê continuidade, que não repita os erros do passado, e que faça o que até agora não se fez’. ‘Síntese’ significa, claro está, diálogo de duas teses diferentes, neste caso, o liberalismo da oposição e o nacionalismo popular do MAS de Morales”.

Laruta sustenta que “Evo perdeu tudo no Alto com o ATPDEA” (Andean Trade Promotion and Drug Eradication Act)”, o tratado de livre comércio com Estados Unidos que versa sobre a erradicação da coca, “que acabou com muitas indústrias locais”. Para o oficialismo, a rejeição ao TLC é a fronteira que separa aos neoliberais dos partidários da mudança, da descolonização ou da Revolução Democrática e Cultural.

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“A do Alto é uma modernização sincrética, como a japonesa”, define Laruta. O sociólogo e político gosta de falar dos empreendedores e, de facto, o seu partido fez do empreendedorismo uma sorte de ideologia numa época nas que costuma proclamar o seu fim. Fala com entusiasmo da cidade mais aymara de Bolívia, e seus gestos voltam-se ainda mais vívidos quando remarca que inclusive a UM, o seu partido, conseguiu crescer na combativa Universidade Pública do Alto (UPEA), onde tem uma forte presença a esquerda e os indianistas entre platos de ají de esparguete e arroz com ovo vendidos por umas moedas na porta.

—Muitas das “guaguas” [meninos/filhos] destes ‘cholos empreendedores’ alteños estudam na UPEA e têm uma grande abertura para o discurso produtivista da UM. A estes jovens agrada-lhes temas relacionados com empreendimentos e os negócios —entusiasma-se Laruta. Doria Medina inaugurou vários Centro de Inovação Tecnológica (CITE) no Alto e incluiu essa proposta no seu plano de governo.

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No percurso pelas ruas alteñas –cidade à que lhe falta um sistema de esgoto e infinidade de obras urbanas– umas construções de arquitetura indefiníveis chamam a atenção: são os chamados cholets, uma mistura das palavras cholo e chalet que podem custar meio milhão de dólares dependendo da quantidade de andares. Com vidros e cores fortes, estas construções são parte dos esforços da burguesia comercial alteña por reafirmar-se e plasmar seu sucesso comercial em edifícios que realçam entre o monótono alaranjado dos tijolos sem revogar que predomina nesta cidade sempre sem terminar, com montes de cimento e areia quase à cada passo, e sem semáforos fora de suas artérias principais. Nos bairros, pode ver-se uns bonecos pendurados nos mastros de luz com lendas que advertem que os “rateros” serão linchados e os autos sem dono queimados”. A polícia é escassa; os patrulheiros mais ainda. Infinidade de cães, sozinhos ou em manadas, remexem no lixo e sentem-se falta as árvores no meio do pó e a aridez. O nome do Alto está associado ao aeroporto de La Paz, mas também a sua enorme feira 16 de Julio, aberta quinta-feira e domingos, onde se diz –com evidência– que se pode encontrar desde crianças de chancho até asas de velhos aviões.

Estes palácios “neoandinos” –de estilos geométricos e cruzes aymaras (chacanas) que reinventam a tradição sem complexos– erigem-se sobretudo em avenidas principais como no Litoral e na Bolívia. A cada um tem seu estilo, o selo de quem o encarregou. E um dos que se encarrega de satisfazer os desejos de prestígio de seus clientes é Freddy Mamani, membro de uma família de pedreiros que estudou engenharia e que se destaca entre os arquitetos deste estilo que pode se datar na última década e não tem parecidos noutros países andinos. Ainda que com frequência se fala deles como palácios dos novos ricos aymaras, tratam-se de “casas sustentáveis” de vários andares com diferentes usos: no térreo costuma ter negócios, nos seguintes niveles escritórios ou salões de eventos (que dão sua exclusividade aos cholets) e no último andar o cholet propriamente dito, habitado pelo dono. O tipo de festividade aymara –de raigambre coletiva– faz que os convidados sejam muitos e as moradias particulares fiquem garotas, e por isso abundam estes numerosos salões de eventos que servem para visibilizar o sucesso dos seus donos, mas também de quem organizam neles suas festas (casamentos, comunhões, baptismos ou aniversários de quinze) às vezes amenizadas com grupos de música contratados no exterior. Assim, as tradições comunitárias sincretizam-se num poderoso capitalismo andino que, como realçava numa oportunidade Álvaro García Linera, caracteriza-se por não pôr nunca todos os ovos na mesma cesta. Mas se para o sociólogo e vice-presidente esse capitalismo à posteriori não deixa de ser um obstáculo para mudanças mais profundas, para Laruta é a base do modelo produtivista que precisa o país. Uma compensação da débil burguesia nacional da que Samuel é um exitoso, mas pouco acompanhado expoente.

Atividades legais num contexto de crescimento económico sustentado desde 2006 (expansão do comércio e das importações junto a remessas do exterior) ou ilegais (contrabando, e inclusive narcotráfico) explicam em diferentes proporções este auge de cholets multicolor, cujos “acabamentos” no seu interior com materiais nacionais ou importados dão conta do gosto e o poder aquisitivo de seus habitantes. Alguns chamam-no, não sem desprezo, “arquitetura transformer”. Efetivamente, vários cholets têm tomado como inspiração a série com esse nome, e põem ao herói Optimus Prime como motivo. Alguns chamam-na, não sem desprezo, “arquitetura transformer”. Efetivamente, vários cholets têm tomado como inspiração a série com esse nome, e põem ao herói Optimus Prime como motivo. É outra arquitectura, que não se pode misturar com a andina. Ao menos isso pensa Santos Churata, o factótum deste estilo:

—Boas tardes, senhor Churata, queria perguntar pela arquitectura andina alteña…

—Eu não faço arquitectura andina –corta-me em seco–, eu faço arquitectura transformer, futurista, já não leva a cruz andina nem cores fortes…

—E qual é o porquê desta arquitectura?

Pelo filme, pelo robótico. À maioria dos clientes gostam do novo, para sair do comum e marcar a diferença. A arquitetura andina é muito carregada, com demasiadas cores e nós tratamos de oferecer aos clientes algo diferente.

—Quanto custa aproximadamente um edifício desses?

Uns 400.000 dólares.

Freddy Mamani sim que faz “arquitectura andina”, ao menos por tal arquitectura é conhecido. “Fiz uma viagem por Tiwanaku e de lá cheguei pensando que devíamos fazer obras que mostrem nossa cultura milenária, obras com as formas andinas, com as cores dos aguayos. Propus-lhe isso ao dono do terreno e aceitou; fizemos o primeiro edifício e pintei-o de verde porque no Alto não há árvores e queria pôr um pouco de cor à cidade. Depois disso estalamos como pipocas [pochoclo]”, diz Mamani numa entrevista com Nathalie Iriarte Villavicencio. Uma de suas grandes obras é o salão de eventos Príncipe Alexander, do empresário e alguma vez ajudante de alfaiate Alejandro Chinês Quispe, quem disse à rádio Erbol que o custo total ascendeu em redor a dois milhões de dólares e que “realmente é um palácio”. Ninguém duvidava.

Ainda que este fenómeno costuma associar-se com Evo Morales, o MAS é um partido camponês ao que os cholos urbanos aderiram de maneira tardia. O seu verdadeiro partido foi Consciência de Pátria, nos anos 90, liderado pelo mítico compadre Carlos Palenque–“charanguista” de renome e empresário de meios– e a jovem comadre Mónica Medina, que levou ao Congresso à primeira mulher de pollera: Remédios Loza. O Alto foi fiel ao Compadre até seu súbito falecimento em 1997. Hoje a cidade continua a ser “evista” mas compartilha lealdade com A Sole, com a esperança de melhorar a vida urbana. Os caudilhos das organizações sociais perpetuaram-se no poder e perderam prestígio.

A festa emblemática “chola” é a do senhor do Grande Poder, em La Paz. Algumas bailarinas contratam segurança privada para proteger as suas joias, próprias ou alugadas. O livro Fazer prata sem prata. O desborde dos comerciantes populares na Bolívia, coordenado por Nico Tassi, conta a inserção destes comerciantes de origem aymara na economia global, cujas redes os levam até a China. Não é difícil encontrar promoções de viagens à nação asiática nas vidreiras de agências de turismo de La Paz, especialmente para ir às grandes feiras como a de Guangzhou. No meio do debate da reforma educativa, um grupo de comerciantes propôs que se incluísse o chinês mandarim nas escolas. Os bancos, por sua vez, têm entendido finalmente este capitalismo andino e abriram sucursais nas principais zonas alteñas, em algumas das quais o metro quadrado custa tanto como na exclusiva Zona Sul de La Paz.

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O teleférico, inaugurado em meados de 2014, é uma das medidas estrela do governo de Evo Morales. As suas três linhas (vermelha, verde e amarela, as cores da bandeira nacional) unem O Alto com a Zona Sul pacenha outrora branca, cujas mutações e temores estão bem retratados no filme Zona Sur de Juan Carlos Valdivia. Agora se projeta construir várias linhas mais. O seu efeito social, num território dividido em três –O Alto, La Paz centro e a Zona Sur–será tema para sociólogos urbanos e antropólogos no futuro…

Ainda que com esse médio de transporte aéreo se pretenda aliviar a congestão vial, “O meu teleférico”, como foi batizado, transformou-se rapidamente num passeio domingueiro, e podem ver-se a famílias inteiras – desde avôs a netos, e muitas senhoras de “pollera” – sair a surcar La Paz desde o ar tratando de identificar os pontos conhecidos lá abaixo. Tomando a linha amarela y logo as verdes podem recorrer-se os 7 quilômetros e meio que separam o Alto de Irpavi, onde a altitude é menor e o clima é mais agradável. Mas este renovado vínculo pode declinar-se como invasão e inclusive como uma versão local de “choque de civilizações”.

As fotografias de alteños sentados no andar do Megacenter (o shopping maior de La Paz) geraram fortes expressões de racismo nas redes sociais, e acenderam-se os debates entre quem queria preservar os seus espaços livres destes intrusos e quem justificavam suas práticas pelos seus vínculos com a Mãe Terra. “Se querem parar o problema devem evitar que o teleférico baixe desde o alto e matar o cão e também as pulgas”. “Já não me quero imaginar como ficará toda a zona sul com os demais teleféricos que vêm … temos que fazer algo, mas já!!!!”. “O tema do mega e o efeito teleférico está a mostrar o pior de da cada um e põe em evidência que a inclusão até o momento só tem aumentado um silencioso, perigoso e mudo ódio racial (…) (sic) ”… Mais pragmático, Juan Patiño, gerente do Megacenter, mostrou-se contente de “poder expandir mercados”.

—“Alguns dos meus familiares mudaram o apelido, Laruta em aymara tem que ver com o verbo rir, ‘laruña’, mas hoje os jovens sabem que se chamam Quispe ou Mamani sentem-se iguais ao resto. Finalmente prendeu o conceito de cidadão”, acrescenta o sociólogo.

Parte do atual orgulho alteño construiu-se nas barricadas de 2003, quando milhares deles se descolavam para La Paz cantando “O Alto de Pé, nunca de joelhos” ou “Agora sim, guerra civil”, junto a mineiros com dinamita nas mãos, e hoje consideram-se os artífices da nacionalização do gás que aumentou os rendimentos públicos e habilitou políticas sociais e infraestruturas. Por isso muitos sentem que a retribuição por ditas lutas tem sido escassa. Para Laruta, Evo é “parte da época da revolução contra a pobreza do neoliberalismo, mas dita época já se acabou e agora as pessoas querem voltar à sensatez”. Mais que isto, considera que o triunfo de UM no Alto contribuirá a lhe dar um rosto popular a um partido associado à figura de um dos bolivianos mais ricos, com uma biografia afastada da densidade plebeia que coloreia ao país e a seu vitalidade social: sem dúvida, Evo Morales é mais parecido aos bolivianos que Samuel, ainda que agora UM tem a Sole “aí arribita nas más”, a poucos minutos de teleférico ou a um pouco mais de uns metros de distância.

Numa cidade com o 75% de trabalhadores por conta própria –“que não recebem nada do Estado”– a prefeita fez muito pouco até agora e diz que o seu sonho é que em cinco anos O Alto “seja uma cidade moderna que comece a transitar o caminho ao desenvolvimento”.

Solidão Chapetón candidata a presidente?

—O meu objetivo é trabalhar pela cidade do Alto. Temos que recuperar o conceito de política na Prefeitura. A longo prazo só Deus sabe…

Nos anos 50, o nacionalista Fernando Dez de Medina, enquanto se nacionalizavam as minas, chamou a gritar com orgulho ao mundo “sou um cholo boliviano”. Seis décadas depois, no meio do boom económico a escala boliviana, estes cholets parecem gritar de novo essa mensagem, mas também marcar a divisão social na “cidade aymara rebelde” entre os que ganharam e o resto, e recordar que o aymara é uma comunidade mas também individualismo e que O Alto está longe de ser o ayllu urbano. A descolonização avança também por canais mercantis. Hoje vários parlamentares do MAS declaram patrimónios de vários milhares de dólares (a nova direita poderia vir também por aí?). E nestes espaços visíveis e opacos do capitalismo andino aninha a Bolívia empreendedora –e novas classes médias–que a nova direita procura seduzir e representar, e sobretudo convencer de que o seu projeto é mais efetivo que o nacionalismo com rosto indígena e economicamente exitoso corporizado por Evo Morales.

Este artigo foi publicado pela primeira vez por Revista Anfíbia

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