democraciaAbierta: Opinion

Bolsonaro ataca inimigos reais e imaginários na Assembleia Geral da ONU

O presidente brasileiro direcionou seu discurso a investidores estrangeiros e sua base eleitoral, dois grupos dos quais Bolsonaro dependerá para enfrentar as tempestades que se avizinham.

Robert Muggah
24 September 2020
Pelo menos 12% – 16,5 mil km2, ou quase a área do Kuwait – do Pantanal brasileiro, bioma com uma das maiores diversidades de mamíferos e aves do planeta, foi destruído por incêndios nos últimos dois meses. Mato Grosso, Brasil, agosto de 2020
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Gustavo Basso/NurPhoto/PA Images

A chamada de Zoom mais longa da história está em andamento na Assembleia Geral das Nações Unidas desde terça feia, 21 de setembro. Como de costume, o Brasil foi o primeiro país a discursar. E como esperado, o presidente Jair Bolsonaro veio munido, mirando em inimigos reais e imaginários. Embora ele tenha pulado de um tópico para outro, alguns temas se destacaram. Foi um discurso, como diz o ditado, "para inglês ver". Foi também um ataque contra a mídia e qualquer pessoa que discorde do presidente. O discurso de Bolsonaro também serviu para inflamar seus mais fervorosos apoiadores, muitos dos quais suspeitam de instituições globais como as Nações Unidas e adoram ver seu líder atacando os “globalistas.”

Bolsonaro começou em terreno familiar, lembrando os outros líderes de que, apesar de toda a publicidade negativa, o Brasil está "aberto para o investimento". Ele afirmou que o país registrou ingressos de investimento estrangeiro sem precedentes sob sua administração, quando na verdade o inverso é o caso. Ele também elogiou o poderoso setor do agronegócio brasileiro, um grande aliado do presidente, que ele diz estar alimentando mais de um sexto da população global. Entretanto, algumas poucas vezes, Bolsonaro saiu de sua zona de conforto, mencionando questões relacionadas à economia digital, inteligência artificial e proteção de dados.

Sua intervenção tornou-se cada vez mais provocadora à medida que tocava nos dois temas que ameaçam derrubar seu governo. O primeiro é a sua gestão da pandemia da Covid-19, amplamente descrita como uma das mais desastrosas do mundo. O Brasil tem atualmente a terceira maior taxa de infecção do mundo e o maior número de médicos e enfermeiros que morreram em decorrência da doença. Apesar de presidir um sistema de saúde pública de alta qualidade, Bolsonaro não soube administrar a crise, preferindo nega-la. Embora afirme que seu governo delegou aos estados a responsabilidade de responder à pandemia, ele esqueceu de mencionar que atacou e perseguiu pessoalmente os governadores em todas as ocasiões.

Bolsonaro repetiu sua afirmação de que as respostas à Covid-19 deveriam equilibrar a saúde da população com os imperativos da economia. No entanto, Bolsonaro se destaca por sua abordagem singularmente polarizada – minimizando a ameaça da doença (que ele descreveu como uma "gripezinha") e encorajando seus apoiadores a desafiarem as diretrizes de saúde pública que poderiam prevenir sua propagação. Em seu discurso, ele criticou a mídia por politizar o vírus, acusando-a de fomentar o "caos social". Embora seja verdade que seu governo está um auxílio emergencial imensamente popular a mais de 65 milhões de brasileiros, sua ideia inicial era outra. Em realidade, ele se opôs veementemente até que reconheceu os dividendos políticos que poderiam acontecer (e acontecerem).

Ele alegou ser vítima de uma campanha para desacreditar seu governo. No entanto, é sua própria administração que erodiu sistematicamente a legislação ambiental

O segundo tópico, e no qual Bolsonaro foi mais desafiador, refere-se ao meio ambiente. E não sem um bom motivo: ele está enfrentando uma enxurrada de críticas por sua negligência e negacionismo em relação às queimadas na Amazônia e no Pantanal e aos níveis crescentes de desmatamento ilegal. Durante o discurso de terça feira, Bolsonaro apostou em ofensas, criticando a mídia e as ONGs por exagerar sobre a gestão desastrosa de seu governo na crise. Ele alegou ser vítima de uma campanha para desacreditar seu governo. No entanto, é sua própria administração que erodiu sistematicamente a legislação ambiental e deixou crimes ambientais impunes. Sob sua supervisão, grilagem, desmatamento e garimpos ilegais dispararam. As populações indígenas, que ele afirma estar apoiando com ajuda humanitária, estão enfrentando um dilúvio de doenças, incêndios e criminalidade.

É verdade que o Brasil já foi referência internacional em proteção ao meio ambiente, mas não é o caso durante o governo de Bolsonaro. Na verdade, o presidente negou essencialmente que houvesse qualquer tipo de problema com incêndios florestais ou desflorestamento, apesar de já terem atingido níveis não vistos há décadas. Ele culpou erroneamente os povos indígenas e agricultores locais por atearem incêndios, bem como "o acúmulo de massa orgânica em decomposição", apesar das evidências de que os grandes proprietários de terras e fazendeiros são os principais culpados. O presidente brasileiro disse que seu governo estava apenas cumprindo as leis ao aplicar uma fração mínima de penalidades e multas. Ele elogiou sua resposta coordenada, quando trabalhou para diminuir radicalmente e inclusive extinguir entidades fundamentais, como o IBAMA, a FUNAI e o INPE.

Após uma abundancia de ataques contra seus inimigos, Bolsonaro concluiu saudando a sua base, afirmando mais uma vez que o Brasil é uma nação soberana, fundada em valores cristãos e conservadores. Ele criticou a ascensão da "cristofobia", um termo misterioso, e reafirmou a importância da liberdade religiosa, o que certamente agradará seus partidários evangélicos. Não surpreendentemente, Bolsonaro também elogiou Donald Trump, especialmente o plano de paz e prosperidade do genro do presidente americano para o Oriente Médio. Como previsto, este foi um discurso feito diretamente para investidores estrangeiros e sua base eleitoral. Diante de um aumento em sua popularidade nos últimos meses, Bolsonaro terá que contar com ambos para enfrentar as tempestades que se avizinham.

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