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Brasil diante da Covid-19: é urgente superar a distopia

Chegou a hora de construir utopias para superar a distopia bolsonarista, acentuada pela pandemia. Entrevista com Lena Lavinas por Pablo Stefanoni. Español

Lena Lavinas Pablo Stefanoni
4 June 2020
Centenas de novos túmulos foram escavados no cemitério Vila Formosa, em São Paulo, o maior da América Latina.
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Paulo Lopes/Zuma Press/PA Images

Nos últimos anos, o Brasil viveu profundas mudanças políticas e ideológicas. De um ciclo dominado pela centro-esquerda que atraiu simpatia para além das suas fronteiras e foi considerado socialmente bem sucedido, foi para um governo de extrema-direita que acrescentou ao negacionismo climático, a negação da seriedade da Covid-19 e rejeitou as recomendações internacionais. O que explica essa guinada, que mudanças ela está provocando e como a oposição está posicionada para enfrentá-la?

Ao mesmo tempo, a pandemia traz à tona a necessidade de repensar a política social e discutir formas universais e desmercantilizadas de proteção social. Nesta entrevista, Lena Lavinas conversou com a Nova Sociedade sobre a situação no Brasil, mas também sobre os efeitos da financeirização da proteção social e como aplicar respostas universalistas ao invés da atual fragmentação.

Lena Lavinas é professora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Faculdade de Ciências Sociais do Instituto de Estudos Avançados de Princeton e do Centro Interdisciplinar de Estudos de Políticas Públicas (ciepp) da Argentina.

Pablo Stefanoni: A mudança ideológica no Brasil foi muito profunda, da centro-esquerda para a extrema-direita. O que mudou na política e também na sociedade neste quase ano e meio de governo de Jair Bolsonaro?

Lena Lavinas: Gostaria de contextualizar como ocorreu uma radicalização dessas dimensões. Pode ser difícil entender uma polarização política e social da magnitude que o Brasil está vivendo. Devemos voltar ao governo de Dilma Rousseff, cuja presidência coincidiu com o fim do ciclo das commodities.

O país passou por importantes mudanças durante a presidência de [Luiz Inácio] Lula da Silva, como maior consumo de massa, crescimento da renda familiar; todos pareciam felizes, inclusive os empresários.

Não se deve esquecer de que Lula foi eleito tanto pela classe popular, como pela classe média. Mas na administração de Dilma, as coisas começaram a mudar. Com a organização da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, uma série de investimentos foi promovida para a realização dos dois megaeventos.

Em 2013, nas chamadas Jornadas de Junho, milhares de pessoas saíram às ruas espontaneamente, com demandas por uma redução no preço das tarifas de ônibus e por um transporte público mais eficiente, assim como melhorias no sistema de saúde e educação pública de maior qualidade. Os grandes investimentos destinados à Copa do Mundo foram contrastados com investimentos sociais insuficientes, o que gerou grande descontentamento popular, ocasionando uma retração significativa no apoio ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Ao mesmo tempo, após um momento de aproximação com os setores que protestavam, a presidente se aproximou dos setores conservadores e promoveu uma lei antiterrorista; o projeto, inclusive, foi apresentado por um deputado do PT, o que foi uma profunda contradição. Os movimentos progressistas nesse momento deixaram as ruas e o espaço foi ocupado por grupos de direita, que rapidamente se organizaram contra o governo. Era como se o protesto no campo democrático tivesse sido sequestrado pelas forças conservadoras que vinham ganhando força desde então.

Começa a se perceber que, uma vez passado o ciclo das commodities e o aumento do consumo, vem à tona uma profunda insatisfação e uma quebra nas bases de apoio ao governo do PT. Este aumento no consumo se baseou em importações baratas, muitas delas produzidas na China, graças a um real então supervalorizado, enquanto a estrutura produtiva brasileira ficou ainda mais desindustrializada. E a isso se somou, durante o governo de Dilma Rousseff, o aumento da inflação e do endividamento das famílias, especialmente nos setores populares.

Além da desaceleração econômica, foram feitas as primeiras denúncias de corrupção na Operação Lava Jato, mostrando uma rede de corrupção formada por partidos políticos, empresários e empresas estatais, que consistia em cobrar de 1 a 3% de comissões sobre contratos de obras públicas. Este dinheiro foi então redistribuído entre as diferentes partes. Não se limitou ao PT. Só afetou mais o PT no contexto da retração econômica. Enquanto isso, a ala da direita tomava conta dos protestos de rua, que inicialmente tinham uma grande audiência, incluindo os eleitores do PT.

É neste contexto que acontecem as eleições de 2014, onde Dilma consegue reeleger-se, mas em oposição a uma direita com muito maior capacidade de mobilização e ação. Até o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB, centro-direita) promoveu um processo para investigar se as eleições haviam sido justas.

Em 2015 a queda do PIB foi de 3,8% e foi quando Dilma nomeou um ministro da Economia ortodoxo, Joaquim Levy, que chegou para implementar uma política ainda mais profunda de austeridade fiscal. Os protestos contra a corrupção ainda estão nas ruas e, como sabemos, essa combinação de fatores levou ao processo de impeachment contra ela. No Brasil, as crises econômicas sempre levaram a mudanças políticas.

Logo após sua vitória, Bolsonaro lança uma verdadeira guerra cultural contra o marxismo, contra o comunismo

Os protestos alimentaram uma dinâmica antipetista que se transformou em uma narrativa antissistema. Entre 2015 e 2016, a queda chegou a 7,4%, a pior recessão que o Brasil viu em 100 anos. Dilma perdeu o apoio dos setores produtivos que haviam apoiado o PT, a esquerda foi dividida e desmobilizada – um lado exigiu uma autocrítica que nunca veio – e a direita se escondeu atrás de um discurso moralista contra a corrupção.

A grave crise econômica foi rapidamente explorada pela direita, como consequência direta da corrupção. A direita prometia acabar com tudo que estava errado, em acabar com uma esquerda que havia tomado o poder e que teria valores anti-família, anti-religiosos, etc.

Este tipo de discurso antissistema seguia a mesma direção que tinha tomado na Turquia, Hungria e Estados Unidos. O processo de impeachment contra Dilma Rousseff foi aberto e lá Jair Bolsonaro emerge como um outsider – apesar de ter passado quase três décadas como um deputado irrelevante e desprezado pela classe política. Dilma foi destituída em agosto de 2016 e logo depois Lula foi preso, como resultado da Operação Lava Jato, com provas altamente questionáveis.

Esses dois eventos constituíram dois golpes muito duros para a esquerda, que não conseguiu se organizar para apoiar um candidato democrático nas eleições presidenciais de 2018. O PT tentou manter Lula como candidato, da prisão, mas associar a luta contra a extrema direita à libertação de Lula foi um erro, pois ninguém quer votar em um candidato preso e Fernando Haddad foi indicado tarde demais. No final, Bolsonaro foi eleito com mais de 57 milhões de votos válidos contra 47 milhões para Haddad e 31 milhões em branco, nulos e abstenções.

Logo após sua vitória, Bolsonaro lança uma verdadeira guerra cultural contra o marxismo, contra o comunismo. Após sua liderança no primeiro turno, Bolsonaro disse que os "marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria" e que Lula iria "apodrecer na cadeia". Seu governo vem colocando em xeque uma série de princípios democráticos e direitos reconhecidos na própria Constituição. Ele tem forte apoio entre os grupos evangélicos – os evangélicos constituem mais de 30% da população e há projeções de que eles poderiam se tornar maioria em 2030 – e esses grupos têm se radicalizado ao longo dos anos (é importante lembrar que muitos deles apoiaram Lula e Dilma, anteriormente).

Uma mudança adicional que trouxe o triunfo de Bolsonaro, foi o retorno dos militares ao Executivo. Dos 22 ministros, nove são militares. E há mais de 2.100 no governo federal, tanto ativos quanto reformados. Ao mesmo tempo, Bolsonaro entregou o Ministério da Economia ao ultraliberal Paulo Guedes, que trabalhou com os Chicago Boys do governo de Augusto Pinochet nos anos 70 e que diz que o Estado deve ser minimizado para acabar com a corrupção e os "privilégios" dos funcionários públicos. A mudança ideológica é muito profunda e começou antes do triunfo de Bolsonaro.

Que mudanças a pandemia está provocando? Bolsonaro parece ser um dos últimos negacionistas e incita sua base a se manifestar contra o isolamento social.

Como Donald Trump, Bolsonaro é contra o multilateralismo. Na Organização das Nações Unidas (ONU), ele alinhou o Brasil com os EUA e países como a Arábia Saudita, e contribuiu para o enfraquecimento de todo o sistema multilateral, inclusive votando contra as políticas de gênero e o reconhecimento dos direitos reprodutivos. A bandeira dos direitos anti-aborto e anti-reprodutivos e dos grupos LGBTI+ é central para a estratégia de mobilização bolsonarista.

A pandemia de Covid-19 surgiu numa época em que a polarização política já era extremamente alta. Depois de dois anos de recessão (2015 e 2016), houve três anos de estagnação, o que deu motivos para acreditar que algo poderia acontecer. Não se deve esquecer que em 2019, em seu primeiro ano de governo, Bolsonaro só conseguiu aprovar a reforma da previdência, e uma versão menos radical do que ele havia proposto. Para isso ele usou o discurso do "fim dos privilégios".

Quando o coronavírus chegou, o governo estava em um impasse e se pronunciava a favor de reformas mais liberais. Queria aprofundar ainda mais as duas reformas trabalhistas aprovadas em 2017, que já tinham tornado o mercado de trabalho mais flexível e desregulamentado. Quando a crise sanitária chega, temos um crescimento medíocre de 1,1%, 12 milhões de desempregados e cerca de 49 milhões de trabalhadores na informalidade – uma informalidade que cresce em curva vertiginosa – e 50 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza, segundo dados do Banco Mundial.

A renda per capita dos 20% mais pobres caiu entre 2015 e 2019 em 11,5% e os 20% mais ricos tiveram um aumento de 6% em termos reais. É uma situação explosiva. Dos 12 milhões de desempregados, apenas 500 mil eram beneficiários do seguro-desemprego, o que mostra que o sistema de proteção social não era mais capaz de atender a essa população. Os critérios de acesso estão se tornando cada vez mais restritivos. O mesmo se aplica à pobreza.

Quando a pandemia chegou, o que disse Bolsonaro? Que todos têm que trabalhar, porque se a pandemia vai custar vidas, vai custar também a morte de empresas. Disse também que aqueles que acreditam em Deus seriam protegidos

Em um momento de crise, Bolsonaro começou a reduzir a cobertura do programa Bolsa Família, argumentando que havia muita gente cometendo fraude em um programa que paga em média 200 reais por mês a cada família.

Então, quando a pandemia chegou, o que disse Bolsonaro? Que todos têm que trabalhar, porque se a pandemia vai custar vidas, vai custar também a morte de empresas. Mas ele também disse que aqueles que acreditam em Deus seriam protegidos, “nossa fé nos protegerá”. Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a Covid-19 como pandemia e aconselhou a seguir uma série de critérios como o distanciamento social, ele foi na direção oposta, dizendo que era um absurdo, que não há evidências científicas, que as quarentenas arruinarão o país.

No início da pandemia ele havia dito que o coronavírus era uma gripezinha e chegou a dizer que o brasileiro não corre risco de contágio, pois “pula em esgoto e não acontece nada”. Seu lema é "Deus acima de tudo". Hoje o Brasil tem mais de 20.000 mortes por Covid-19 (mais de 30.000 no momento desta publicação). Embora a maioria das mortes seja de pessoas acima de 60 anos, os números mostram que o Brasil "rejuvenesceu" o coronavírus, produto de sua estrutura demográfica e da falta de distância social. Mais de 60% dos casos confirmados afetam pessoas entre 20 e 49 anos de idade, e o Brasil tem um recorde mundial de mortes com menos de 50 anos de idade.

A realidade é que no Brasil, como em outros países da região, o confinamento não é um direito para uma grande parte da população que vive em moradias superlotadas e precárias. Há aproximadamente 15 milhões de pessoas vivendo em favelas, 25 milhões não têm acesso à água potável, 40 milhões não têm acesso a saneamento adequado. São também falhas dos 14 anos do governo PT, que ao invés de investir em uma verdadeira rede de proteção, na melhoria da infraestrutura urbana, em políticas habitacionais de qualidade e na melhoria dos serviços públicos, colocou ênfase em políticas como o acesso ao crédito, consumo de massa, ao programa Bolsa Família, etc.

Devido à tais circunstâncias, evidentemente há um grande número de pessoas que se tornam presas fáceis desse governo negacionista que manipula as necessidades sociais em favor da radicalização conservadora. Além disso, o governo aprovou uma renda de 600 reais por mês, durante três meses, para os trabalhadores informais e pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza.

Foram mais de 50 milhões de inscritos. Mas um número significativo de pessoas até agora não recebeu o benefício. Nem mesmo a primeira parcela. Isso tem levado milhares de trabalhadores pobres a fazer fila todos os dias nas portas dos bancos, na tentativa de receber o benefício temporário. Uma situação que mais uma vez agrava as medidas de distanciamento social e incentiva a propagação do vírus.

Bolsonaro tem boicotado as políticas de distanciamento dos governadores, criando uma nova crise política. A lógica de Bolsonaro é uma lógica de reprodução da crise e de confronto contínuo; ele busca a radicalização permanente, porque é isso que mobiliza suas bases. Ele queria proibir estados e municípios de legislarem em favor do distanciamento social. Alguns governadores estão aplicando a quarentena, depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) assinalou que a Constituição brasileira reconhece a autonomia dos estados e municípios e que estes têm o poder de adotar tais medidas.

Mas Bolsonaro não parou por aí. Ele convocou uma reunião em Brasília com representantes de aproximadamente 46% do PIB industrial brasileiro, cerca de 20 empresários, para discutir medidas econômicas para sair da crise e, uma vez em Brasília, mudou a agenda e os convidou a irem juntos, a pé, até o STF para pedir mudanças nas regras constitucionais; um cenário dantesco e vergonhoso.

Há um processo de constante desestabilização das instituições democráticas no país. Nunca houve tanta vulgaridade, grosseria e agressividade

Foi uma invasão de um poder independente. Eles tiveram que abrir as portas para ouvir a pressão e o desrespeito do presidente, que tem dito nas ruas "Não aguento mais", "Eu sou a Constituição". Ele parece ser um homem completamente desequilibrado, insalubre, tentando evitar o lockdown. Até agora ele não se dirigiu às milhares de famílias que perderam entes queridos. "Quer que eu faça o quê?", respondeu uma vez. "Não sou coveiro, tá?", disse ele.

O Ministro da Saúde Nelson Teich estava mais envolvido no negócio da saúde do que em sua atividade como médico. Pouco depois de tomar posse, o novo ministro demitiu oficiais de carreira e nomeou sete oficiais militares para cargos estratégicos na pasta. O mesmo ministro soube em entrevista coletiva que o presidente havia assinado um decreto, sem consultá-lo, tornando essenciais não só as atividades industriais e de construção civil, mas também as atividades de barbearia, cabeleireiro e academias de ginástica.

Em outras palavras, o ministro não estava administrando a pandemia. Teich durou menos de um mês no cargo. Atualmente há 12 militares em serviço no Ministério da Saúde e espera-se a nomeação de mais oito; o general Eduardo Pazuello, militar sem experiência na área, assumiu o cargo de ministro em exercício. Bolsonaro se prepara para boicotar as políticas dos governadores, argumentando que o Brasil "tem que crescer", intervém nas redes sociais, organiza seus comícios todos os dias, na maioria das vezes sem máscara e sem respeitar o distanciamento social, insulta a imprensa e grita aos jornalistas que calem a boca. Há um processo de constante desestabilização das instituições democráticas no país. Nunca houve tanta vulgaridade, grosseria e agressividade.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro se distanciou do partido que o trouxe ao Planalto, o Partido Social Liberal (PSL), e está tentando finalizar os últimos detalhes na organização de um novo partido. Como não tem maioria própria no Congresso, aliou-se aos setores mais corruptos do chamado centrão, que ele sempre denunciou como o setor mais "podre" do legislativo brasileiro.

Ele agora negocia acusações com políticos que estiveram na cadeia até recentemente. Mas ele pode fazer isso desde que Sergio Moro deixou o governo em abril deste ano. A renúncia do ex-juiz da Lava Jato levou o STF a investigar Bolsonaro: Moro diz que o presidente trocou o chefe da Polícia Federal para ter acesso a casos envolvendo pessoas próximas a ele.

Agora o futuro de Bolsonaro está nas mãos do Poder Judiciário e do Legislativo, por isso é provável que vejamos uma polarização de Bolsonaro com esses dois poderes. Todos os dias, em Brasília, as falanges de Bolsonaro organizam pequenas manifestações, que aumentam aos domingos, pedindo o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.

Como você vê a esquerda brasileira? Lula da Silva está temporariamente solto, não surgiu nenhuma nova liderança...

A esquerda está dividida há muito tempo. Poderíamos até dizer que o campo democrático está dividido. Isto ficou evidente no segundo turno, quando Bolsonaro enfrentou Haddad. Houve vários candidatos que não conseguiram passar para o segundo turno, como Ciro Gomes, do Partido Democrático Trabalhista [PDT], que não apoiaram Haddad, ou como Fernando Henrique Cardoso.

A partir daquele momento, a esquerda não conseguiu encontrar um caminho. Há os partidos localizados mais à esquerda, como o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que tem um desempenho parlamentar muito bom, e também o Partido Socialista Brasileiro (PSB), que está se reorganizando em nível nacional. Entre os melhores deputados de hoje estão Marcelo Freixo do PSOL, que luta contra as milícias no Rio de Janeiro, e Alessandro Molon, que deixou o PT por falta de autocrítica. A esquerda ainda está muito dividida.

Por exemplo, hoje existem 36 pedidos de impeachment contra Bolsonaro por crimes de responsabilidade e obstrução da justiça; nenhum deles foi apresentado pelo PT. Ao mesmo tempo, é verdade, como dizem muitos analistas e parlamentares, que hoje não há condições para tirar Bolsonaro do poder. No entanto, a saída de Moro e suas denúncias contra o presidente favorecem um apelo ao impeachment que poderia progressivamente ganhar mais apoio.

Dito isto, hoje o Brasil tem uma divisão de três terços: um terço que é bolsonarista, um terço que é lulista e um terço não se identifica com nenhum dos dois de forma estável. Lula, neste momento, deve ser cauteloso com suas declarações, mas é claro que ele não está apoiando a unidade da esquerda.

Recentemente, ele disse que Bolsonaro "não está qualificado como ser humano para presidir um país", embora antes tivesse feito a infeliz declaração de que Bolsonaro tinha o direito de trocar o chefe da polícia e interferir na PF, que é uma prerrogativa constitucional do presidente da República.

Como Bolsonaro está em meio à crise devido à renúncia de Sergio Moro?

Bolsonaro se desgastou com a saída de Moro. Ele perdeu o apoio dos setores mais instruídos e ricos. Dito isto, ele mantém um eleitorado, de 20% a 25%, totalmente leal, pronto para ir às ruas para defendê-lo "contra o comunismo". E devemos lembrar também do apoio das Forças Armadas.

Nas últimas semanas, Bolsonaro foi às ruas várias vezes dizendo que o Congresso tem que ser fechado, assim como o STF, que as Forças Armadas “estão ao lado do povo", etc. Na primeira semana de maio, o ministro da Defesa publicou uma nota dizendo que "As Forças Armadas estarão sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade".

Mas na medida em que os militares fazem parte do governo, ou deixam o governo ou começam a defendê-lo. Apesar dos múltiplos pedidos de impeachment, Bolsonaro continua a ter uma base sólida na mídia popular e entre os membros do escalão inferior das forças armadas e de segurança. Uma grande parte da base dessas forças é evangélica.

Há muitas posições veementemente críticas contra as ações do governo Bolsonaro, mas até agora não levou à formação de uma frente pró-democracia sólida e eficaz

Em fevereiro deste ano houve um motim policial no estado do Ceará e os bolsonaristas apoiaram a greve policial. Isso faz soar alarmes sobre o papel das bases do exército e da polícia no caso de o presidente se radicalizar.

Hoje existem vários cenários possíveis: que o impeachment avance; que Bolsonaro diga que é perseguido pelo sistema e se radicalize, e aí não sabemos como diferentes grupos armados poderão agir; ou que ele enfraqueça e seja sucedido pelo Vice Presidente e General Hamilton Mourão.

Existe, hoje, muitas posturas que se opõem a Bolsonaro: ex-ministros do Meio Ambiente contra as políticas ambientais negacionistas das mudanças climáticas; ex-ministros das Relações Exteriores contra a posição anti-multilateralista e os alinhamentos internacionais; ex-ministros da Educação contra as políticas de educação vergonhosas; mas não há uma estratégia unitária contra Bolsonaro. Há muitas posições veementemente críticas contra as ações do governo, mas até agora não levou à formação de uma frente pró-democracia sólida e eficaz.

O que a pandemia nos diz sobre o futuro da proteção social?

É importante entender o que foi o desmantelamento dos sistemas de proteção social, já incompletos e inadequados, na América Latina. Não se implementou um sistema único de saúde que inclua os trabalhadores informais. Com a generalização das políticas de austeridade fiscal, a falta de financiamento dos serviços públicos se agravou, levando a uma deterioração de sua cobertura e qualidade.

Nos últimos anos tem havido uma convergência entre organismos multilaterais – desde o Fundo Monetário Internacional (FMI), da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do sistema das Nações Unidas até o Banco Mundial – assim como figuras como a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, ao apontar que o importante são os "pisos de proteção social".

Mas estes representam um retrocesso para países como Argentina, Costa Rica e até mesmo Brasil, que conseguiram avançar com um sistema de proteção social, ainda segmentado e muitas vezes deixando um setor público de baixa qualidade para os pobres, mas com vocação universal.

Os "pisos de proteção social" consistem principalmente em transferências de renda de baixo valor para grupos vulneráveis, e a provisão pública desmercantilizada é reduzida ao mínimo: educação básica e alguns serviços de saúde destinados a proteger mães e crianças pequenas, tais como programas de vacinação. Aqueles que querem mais do que isso devem buscar cobertura no setor privado, através de empréstimos ou da aquisição de seguros, cuja cobertura depende da capacidade de pagamento.

O que a pandemia nos ensina é não podemos continuar aceitando a fragmentação e segmentação ao acesso à saúde, educação e segurança pública de acordo com a renda

Hoje o sistema financeiro domina o sistema de proteção social em escala global (aposentadorias, sistema de saúde, educação). É dramático. No caso do Brasil, a política social serviu para consolidar o modelo de consumo sócio-desenvolvimentista, que consistiu em promover a transição para uma sociedade de consumo de massa, através do acesso ao sistema financeiro.

A novidade do modelo sócio-desenvolvimentista é que ele instituiu a lógica da financeirização em todo o sistema de proteção social, seja pelo acesso ao mercado de crédito, seja pela expansão dos planos privados de saúde, crédito educativo, etc. Esses foram anos de promoção de uma estratégia agressiva de inclusão financeira.

Assistimos, assim, a um processo acelerado de financeirização, que faz uso do sistema de proteção social para superar a barreira da "heterogeneidade estrutural", que estava travando a expansão da sociedade de mercado na América Latina.

O que a pandemia nos ensina é não podemos continuar aceitando a fragmentação e segmentação ao acesso à saúde, educação e segurança pública de acordo com a renda. Devemos reinventar mecanismos de financiamento dos sistemas universais que são pagos pelos mais ricos e pelo sistema financeiro, que continuam a ter enormes benefícios mesmo em tempos de crise. Neste momento, enquanto o vírus mata, empresas privadas de saúde praticamente recuperaram desde meados de abril o que haviam perdido no início da pandemia, em março, no mercado de ações.

Foram feitas tentativas de centralizar e redistribuir leitos hospitalares, mas o setor privado se opôs e isso certamente contribuiu para melhorar sua posição nas bolsas de valores. Suas ações recuperaram 60% ou 70% do seu valor, em um momento em que há milhares de mortes.

Esta pandemia nos ensina que não há futuro sem direitos universais. A Covid-19 enterrou de uma vez por todas a ideia de que podemos viver indiferentes ao que acontece com nossos vizinhos. Mostrou que uma solução para prover moradia digna para os milhões de trabalhadores ao redor do mundo que vivem em condições sub-humanas, não pode mais ser adiada. Isto significa repensar nossas prioridades diante de toda a evidência de nossa interdependência global. Há algo que nos une além da internet banda larga.

Por enquanto, as medidas emergenciais tomadas em muitos países para garantir a liquidez do sistema capitalista estão se mostrando bastante generosas. Mas a retomada será difícil, longa e dolorosa. Com a crise sanitária temporariamente sob controle, e com o fim dos benefícios que muitas vezes têm sido aplicados fora dos sistemas de proteção social, numa base ad hoc, qual é a expectativa? Um retorno a um passado que já não nos serve mais e só reproduz sofrimento, exclusão e discriminação?

Nós temos uma certeza: queremos mais do que é público. Repensemos e reformemos a esfera pública, o espaço coletivo que ela abriga e acolhe porque se baseia em valores universais. Fortaleçamos a democracia participativa, a crença na ciência e a necessidade urgente de redefinir nossos modelos de desenvolvimento, confrontando a crise ambiental com possibilidades de sucesso a médio e longo prazo.

Devemos reinventar a esquerda e construir um discurso que articule e crie novas identidades políticas que tanto precisamos. Chegou a hora de construir utopias para superar a distopia. O caminho será tortuoso, atravessado por obstáculos e armadilhas. E vai ser longo. Isso vai exigir tempo, energia e soluções globais. Por enquanto, a única certeza que pode nos aproximar é a consciência da direção a tomar. Já é um começo que contém promessa transformadora.

Entrevista publicada como parte da nossa aliança editorial com Nueva Sociedad e traduzida do espanhol para o português pelo democraciaAbierta. Leia o original aqui.

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