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A revolução conservadora no Brasil

Agora é a vez de Bolsonaro acabar com os cursos de filosofia e sociologia, para ostensivamente privilegiar "áreas que geram um retorno imediato ao contribuinte". Español English

Vladimir Safatle
12 June 2019
Supporters of Jair Bolsonaro inflated dolls at his inauguration ceremony, Brasilia, January 1, 2019.
Apoiadores de Bolsonaro enchem um boneca inflável na cerimônia de abertura, em Brasília.
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É impossível entender o que está acontecendo hoje no Brasil se não levarmos a sério o que os membros do atual governo e seus aliados ideológicos chamam de "revolução".

Bolsonaro se vê liderando uma espécie de revolução conservadora que comanda a fé do seu eleitorado mais leal. Bolsonaro sabe que, no fim das contas, ele governa para esse centro de poder. Não há perspectiva de reeleger este governo por uma grande maioria. Mas, como nos lembram os manuais de guerra, um grupo menor e bem mobilizado é melhor que um grande grupo que não tem uma abordagem unificada de ação.

Um grupo menor e bem mobilizado é melhor que um grande grupo que não tem uma abordagem unificada para a ação

Aqueles que apoiam esse governo acreditam que estão em uma luta contra os poderes que sempre governaram o país (casta política, imprensa e elite intelectual). Eles acreditam que colocaram "um dos nossos" no centro do poder. Alguém que tem as mesmas características e que compartilha das mesmas dificuldades. Alguém que não tem medo de mostrar sua inaptidão para ocupar o cargo, criando assim alguma identificação empática com aqueles que nunca imaginariam ser presidente. Eles acham que nessa revolução não se deve "respeitar as instituições" que eram em grande parte responsáveis "por tudo o que existe", o antigo status quo. Eles se veem lutando pela "liberdade de expressão", especialmente se essa "liberdade" permite circulação de violência discursiva contra setores vulneráveis da sociedade, como mulheres, negros, LGBTQs – violência discursiva que legitima práticas violentas.

Luta contra a “doutrinação”

Esse contexto criou o ambiente perfeito para a intensificação de uma polarização ideológica, que se concentra na luta do governo contra a "doutrinação" nas escolas e universidades. Depois de cortar o orçamento de três das principais universidades brasileiras em 30%, porque supostamente promoviam "mimimi" (interpretado como a abertura de um espaço para debates políticos e discussões sobre a situação nacional), o Ministério da Educação viu a opinião pública se voltar contra ele por perseguir politicamente instituições com altos níveis de pesquisa e comprometimento acadêmico e resultados. Em resposta, o governo simplesmente estendeu os cortes para todas as 69 universidades federais, afetando seus mais de 1,2 milhão de estudantes. Essa decisão coloca em risco o funcionamento cotidiano de várias instituições e a integridade do ensino superior no Brasil.

A decisão de fazer esses cortes veio poucos dias depois de o presidente da República anunciar sua intenção de pôs fim a cursos de filosofia e sociologia para privilegiar "áreas que geram retorno imediato ao contribuinte, como as ciências veterinárias, a engenharia e a medicina".

Para o público brasileiro, nada disso é estranho. Já no segundo dia após sua eleição, o próprio Bolsonaro postou vídeos de professores de escolas públicas que supostamente "doutrinavam" estudantes, prometendo que agora é hora de "menos política nas escolas". Pode-se imaginar a pressão sob a qual os professores de hoje no sistema público brasileiro estão trabalhando.

É das universidades que os desejos de transformação social e mudanças progressivas nos nossos modos de vida são enunciados

Poderíamos dizer que o Estado brasileiro é mais um exemplo da guerra dos governos de extrema direita contra as instituições acadêmicas. Casos semelhantes são evidentes, em diferentes escalas, na Turquia e na Hungria, com a perseguição de professores e o fechamento de departamentos. Esses governos sabem que nunca terão o apoio do mundo acadêmico, pois é das universidades que emergem muitas das diretrizes sociais e educacionais a que se opõem, e é das universidades que os anseios por transformações sociais e mudanças progressivas são enunciados, o que inclui o foco intelectual em questões de identidade, a fronteira nacional, origens, indigenismo e maneiras de pertencer, todos os quais estão atualmente na vanguarda do debate político.

A outra revolução

No entanto, no caso brasileiro, há mais um elemento que não deve ser menosprezado. É importante considerar que na última década as universidades brasileiras viram uma mudança significativa em sua composição demográfica. Atualmente, 51,2% dos estudantes das universidades públicas federais são negros, 54,6% são mulheres e 70,2% têm renda per capita abaixo do salário mínimo. Além disso, 60,4% dos estudantes universitários passaram por escolas públicas. Esses números efetivamente derrotam a afirmação neoliberal hegemônica de que, por meio de universidades públicas, o Estado brasileiro está financiando a formação de sua elite econômica.

Os operativos de Bolsonaro travaram uma verdadeira contra-revolução... através de uma política regressiva de militarismo

Pelo contrário, as universidades tornaram-se, nos últimos anos, um dos poucos espaços da vida nacional onde há um retorno efetivo sobre o investimento para setores empobrecidos e vulneráveis da sociedade. Contra as transformações sociais que melhorariam a vida dos estudantes desses setores da sociedade brasileira, os operativos de Bolsonaro travaram uma verdadeira contra-revolução destinada a impedir a mudança social e as oportunidades educacionais para os menos emancipados, através de uma política regressiva do militarismo.

O atual governo está reagindo a uma possibilidade latente de uma transformação mais radical da sociedade brasileira emergente, em parte, através das instituições educacionais que eles agora procuram desmantelar.

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