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Indignação com a brutalidade policial na Colômbia: por que algumas vidas valem mais do que outras?

A brutalidade policial na morte de Javier Ordóñez chocou o país. Deveríamos ter reagido da mesma forma nos casos de Anderson Arboleda, Janner García e centenas de outros que, por serem pobres, venezuelanos ou indígenas, não receberam indignação pública.

Beverly Goldberg
15 September 2020
Monumento às vítimas do massacre policial de 9 de setembro em Bogotá
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Beverly Goldberg

O som do taser que os policiais usaram em Javier Ordóñez em Bogotá, capital da Colômbia, na madrugada de 8 de setembro, me perturba há dias. Um som crepitante que até a semana passada era inofensivo e inidentificável para a maioria dos colombianos e hoje evoca os gritos de Javier, que suplicava à polícia que por favor pare, que não aguentava mais a corrente elétrica que continuava recebendo, muito depois de ser imobilizado contra o asfalto. Javier — que foi levado a um posto policial conhecido na Colômbia como Comando de Atenção Imediata (CAI) em Villa Luz, onde foi supostamente torturado e espancado por policiais — morreu na Clínica Parthenon à 1h20.

Estas imagens brutais indignaram os bogotanos, que foram às ruas nas noites de 9 e 10 de setembro para protestar a brutalidade policial no país na frente de diversos CAIs.

O assassinato causou tamanha dor e indignação entre os colombianos certamente devido à divulgação do vídeo das ações violentas que Javier sofreu nas mãos de dois policiais, o que reafirma que nós, seres humanos, não permanecemos impassíveis diante da violência quando ela ocorre diante de nossos olhos e de forma tão explícita.

Mas logo após sua morte, uma armadilha perversa começou a surgir na mídia nacional e nas redes sociais e a imagem ficou clara: na Colômbia, nem todas as vidas valem o mesmo e a mídia perpetua a noção de que a morte de uns deve causar mais indignação do que a de outros.

A cobertura da morte de Javier enfatizou que ele era um homem de família dedicado aos dois filhos e que era formado em engenharia aeronáutica e estava prestes a se formar em direito

A cobertura da morte de Javier enfatizou que ele era um homem de família dedicado aos dois filhos e que era formado em engenharia aeronáutica e estava prestes a se formar em direito. Imagens circularam nas redes sociais com críticas como "nenhum diploma universitário protege da brutalidade policial" e manchetes apareceram na mídia dizendo "Quem foi Javier Ordóñez, o advogado que morreu após um julgamento policial em Bogotá", e "Este era Javier Ordóñez, o advogado e pai que morreu após ser espancado pela polícia em Bogotá".

Esta cobertura dá à vítima a dignidade que ela merece e deveria estar presente em todos os casos. No entanto, ela é muito diferente da cobertura que a maioria das vítimas de brutalidade policial no país recebeu. Devido a diferentes circunstâncias de vida, suas mortes não provocaram a mesma indignação que vimos na ocasião da morte de Javier.

O caso de Anderson Arboleda é um dos mais recentes. Em 19 de maio, o jovem afro-colombiano, de apenas 19 anos, foi brutalmente espancado até a morte supostamente por policiais por alegada violação das medidas de quarentena. Anderson era um jovem trabalhador que estava terminando o ensino médio para ajudar a melhorar a condição de sua família. Além de estudar, ele servia no exército e vendia roupas e tênis para trazer dinheiro para casa. Era um jovem sociável e alegre, que gostava de passar tempo com sua família e tinha um bom relacionamento com todos à sua volta.

Logo depois, em Puerto Tejada, outro afro-colombiano de 22 anos, Janner García, foi assassinado em um caso que também aparenta envolver policiais. Janner era um esportista profissional com um futuro promissor pela frente como goleiro e se dedicava arduamente para dar um futuro melhor a sua família.

A cobertura de ambas os casos se concentrou muito mais na forma como morreram do que em quem eram e, embora houve uma pequena demonstração em Puerto Tejada, os bogotanos decidiram não ir às ruas naquela ocasião. Então por que não ficamos tão indignados quando Anderson e Janner foram mortos? Quem decide quais mortes são mais ultrajantes?

Devemos ficar indignados com todos os casos de brutalidade policial que ocorrem, e não cair na armadilha de pensar que algumas vidas valem mais do que outras

O caso de um grupo de trabalhadoras do sexo trans que relatou graves abusos pela polícia em Bogotá no dia 20 de junho também não recebeu a cobertura humanizadora que Javier recebeu na mídia, nem causou indignação fora das redes trans da cidade. A Rede Comunitária Trans de Bogotá compartilhou relatos em suas contas de rede social de várias mulheres trans, cujas identidades foram protegidas, que dizem haver recebido golpes de balas de borracha por um grupo de policiais enquanto trabalhavam na Calle 22 com a Avenida Caracas.

Elas relatam que a polícia as insultou, usando termos pejorativos contra a comunidade trans, antes de começar a atirar. Embora a Rede Comunitária Trans tenha convocado um ato contra a violência sofrida pelas pessoas trans na cidade e no país, poucas pessoas incluem estas violações dos direitos humanos em suas definições de brutalidade policial, o que reflete como, na Colômbia, algumas vidas estão acima de outras.

A indignação é necessária para alcançar mudanças sociais duradouras e necessárias e, neste caso, para provocar mudanças estruturais dentro da polícia e evitar que a polícia use força excessiva contra um cidadão que tem a responsabilidade de proteger. Entretanto, devemos ficar indignados com todos os casos de brutalidade policial que ocorrem, e não cair na armadilha de pensar que algumas vidas valem mais do que outras.

Os protestos provocados pelo assassinato de Javier foram um estopim social fundamental, Mas temos que reconhecer que também era necessário maior indignação quando Anderson e Janner foram assassinados, quando mulheres trans foram atacadas e quando centenas de outras pessoas foram mortas que, por serem humildes, por serem venezuelanas ou por serem indígenas, não receberam o tratamento digno e a indignação pública que mereciam por causa de suas mortes.

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