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A cortina de fumaça da Covid-19 paira sobre a América Latina

A pandemia levantou uma densa cortina de fumaça em toda a América Latina, encobrindo o aumento preocupante da magnitude de crises ambientais e da violência de gênero.

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5 November 2020
Incêndio descontrolado queima área do Pantanal brasileiro na zona rural de Pocone, Mato Grosso, Brasil, em 19 de agosto de 2020, o maior incêndio já registrado no bioma
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Gustavo Basso/NurPhoto/PA Images

Com a pandemia da Covid-19 que assola a América Latina, que já dura quase nove meses, a região sofreu uma grave deterioração de problemas que já estavam saindo do controle.

2020 está sendo o cenário de uma pandemia que já custou mais de 1,2 milhões de vidas – 400 mil delas na América Latina. Um fenômeno desta magnitude está fadado a desviar a atenção global – e a dominar todas as manchetes.

Embora seja compreensível, a cortina de fumaça que se ergueu em toda a América Latina está ficando mais espessa, encobrindo algumas crises latentes que só estão piorando. Se conseguirmos perfurar essa cortina, veremos, por exemplo, aumentos preocupantes nos números de crises ambientais e violência de gênero.

Incêndios na Amazônia

As notícias dos incêndios na Amazônia brasileira rodaram o mundo em agosto de 2019, um assunto que permaneceu nos trending topics por várias semanas. Líderes mundiais e celebridades com milhões de seguidores se manifestaram diante da situação, cobrando ação do presidente Jair Bolsonaro.

Mas embora a escala da área destruída pelos incêndios tenha mais que dobrado desde 2019, não vimos nada parecido este ano.

Como mostra a BBC, o número de incêndios na região amazônica do Brasil em outubro de 2020 foi mais que duas vezes maior do que no mesmo mês de 2019, de acordo com dados de satélite. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 17.326 incêndios na Amazônia, em comparação com 7.855 em outubro de 2019 – um aumento de 121%.

E a Amazônia não é o único bioma brasileiro em perigo. O Pantanal – a maior área tropical alagada do mundo – está em chamas há meses, tendo o pior mês de outubro de sua história desde que começaram os registros de incêndios. O Inpe relatou 2.856 focos de incêndio na região do Pantanal no mês passado.

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BBC

O governo Bolsonaro é conhecido por promover o extrativismo e promover políticas anti-ambientais. Ele e seus ministros deixaram claro que pretendiam usar a atenção desviada pela pandemia para afrouxar as leis ambientais, como o Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles expressou em uma reunião ministerial de 22 de abril – ironicamente o Dia da Terra.

Os crimes ambientais no Brasil fazem parte da agenda do governo de Bolsonaro. A atenção da sociedade civil, da mídia e da comunidade internacional deve conseguir enxergar além da cortina da Covid-19.

Feminicídio: o caso da Argentina

Se a América Latina já era a região mais letal para mulheres, 2020 consolidou essa realidade. Em 2018, 12 mulheres foram mortas por dia como resultado da violência de gênero, de acordo com um relatório da ONU Mulheres – uma realidade que foi agravada pela pandemia.

Apenas nos primeiros 20 dias após a Argentina ter declarado quarentena, 18 mulheres foram mortas por seus parceiros. As ligações telefônicas para linhas de apoio à vítimas de violência doméstica aumentaram em 39%.

Entre 1º de janeiro e 31 de outubro, a Argentina – berço do poderoso movimento "Ni Una Menos" – registrou pelo menos 275 assassinatos de mulheres, travestis e trans por causa de seu gênero. Dessas mortes, 227 são consideradas femicídios diretos. Cerca de 200 dos assassinatos ocorreram durante o período de quarentena.

Na semana passada, o caso de Paola Tacacho chocou os argentinos. Tacacho, professora de inglês, foi esfaqueada nas costas em pleno centro de San Miguel de Tucumán, capital da província de Tucumán, como relatado pela revista Semana.

O agressora era um ex-aluno. Mauricio Parada Parejas esteve em uma de suas classes em 2015 e, por cinco longos anos, atormentou e assediou Tacacho, ameaçando-a inclusive de morte, de acordo com o artigo.

As ameaças se materializaram na última sexta-feira (30), quando ele a matou na frente de várias pessoas, antes de usar a mesma faca para tirar a própria vida. Tacacho havia denunciado Parada Parejas 14 vezes.

"Paola o vinha denunciando na justiça desde 2015. Ninguém a levou a sério... Paola foi morta pelo Estado", escreveu a jornalista Tucuman Mariana Romero.

"Violação Culpada": legitimação da impunidade no Brasil

Em setembro deste ano, o empresário André de Camargo Aranha compareceu perante um juiz em Florianópolis, após ser acusado de estupro pela influencer Mariana Ferrer, em 2018.

O juiz absolveu Aranha, qualificando o crime de "estupro culposo", quando não há intenção de estuprar a vítima, um término que não tem precedente na justiça brasileira. Em outras palavras, "estupro culposo" não existe

Ferrer, com 21 anos na ocasião do crime, estava em uma festa como promotora de eventos. As câmeras de segurança mostram Aranha ajudando Ferrer, que parecia grogue. Ela acredita ter sido drogada na noite da festa.

O juiz Rudson Marcos absolveu Aranha, qualificando o crime de "estupro culposo", quando não há intenção de estuprar a vítima, um término que não tem precedente na justiça brasileira. Em outras palavras, "estupro culposo" não existe.

Depois de dois meses atrás da cortina de fumaça, o caso de Ferrer viralizou esta semana quando o The Intercept Brasil publicou um vídeo da audiência, conduzido online pela pandemia, que mostrou o grau de humilhação sofrido pela vítima durante o processo.

O vídeo mostra o advogado de Aranha questionando se a vítima nunca havia feito sexo antes do incidente, usando não apenas o conceito machista de "virgindade", mas também fotos que a vítima postou em suas redes sociais, para provar sua sexualidade – fotos que ela caracterizou como "ginecológicas".

“Excelentíssimo, eu tô implorando por respeito, nem os acusados são tratados do jeito que estou sendo tratada, pelo amor de Deus, gente. O que é isso?”, disse Ferrer, visivelmente alterada.

O caso trouxe à luz a magnitude dos esforços do judiciário para assegurar a impunidade em casos de violência contra as mulheres. No Brasil, o Estado está disposto a inventar um crime, indo contra a lei brasileira, para permitir que um homem influente possa estuprar uma mulher sem sofrer consequências.

A Covid-19 veio para ficar. A pandemia se soma à coleção de crises que assolam a América Latina. A cortina de fumaça que ela levanta é muito espessa, mas não pode ser usada como desculpa para fazer vista grossa a realidades intoleráveis como as muitas mulheres que foram estupradas ou a crise climática que continua a destruir a Amazônia.

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