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A Covid-19 já afeta 93 povos indígenas

Já existem quase 7.000 casos de infecção em toda a bacia amazônica, totalizando 639 mortes oficiais. Español, English

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10 June 2020
Membros de uma família indígena Satere-Mawe usam máscara durante a caça para prevenir a infecção pelo coronavírus
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Lucas Silva/DPA/PA Images

Os xamãs da bacia amazônica estão fazendo o que podem para controlar a xawara de Covid-19. Mas a pandemia é tão marcante que os números estão além de qualquer capacidade de ação dos líderes indígenas.

Já existem cerca de 7.000 casos de infecção em toda a Bacia Amazônica, e segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA) já existem 639 mortes oficiais entre 93 nações indígenas. Foram relatados casos em todos os países amazônicos, desde a Bolívia, Colômbia, Venezuela e Brasil até a Guiana, Guiana Francesa, Peru, Equador e Suriname.

"Sintam nossa dor, sintam nossa emergência," apelou aos governos Gregorio Díaz Mirabal, coordenador da COICA, em 24 de abril, durante uma videoconferência.

Mais de 45 dias depois, a situação só se deteriorou.

Brasil catastrófico

O país mais afetado em termos de casos confirmados entre os povos indígenas é o Brasil, com 2.642. A Covid-19 já matou 218 indígenas na Amazônia brasileira, de acordo com dados da COICA até 9 de maio. A doença já afeta mais de 80 nacionalidades no Brasil, em meio a uma crise que não mostra sinais de abrandamento.

No Brasil, um país com mais de 740 mil casos e 38 mil mortes, segundo dados oficiais, as regiões mais afetadas estão na floresta amazônica ou próximas a ela. Enquanto o estado de São Paulo registra quase 10.000 mortes, 1 pessoa em cada 314 contraiu o novo coronavírus. No Amapá, a proporção é muito maior, com 1 pessoa em cada 62; no estado do Amazonas, 1 em 81; em Roraima, 1 em 98.

"Estamos acompanhando a doença Covid-19 na nossa terra e muito tristes com as primeiras mortes dos Yanomami. Nossos xamãs estão trabalhando sem parar contra a xawara [epidemia]. Vamos lutar e resistir. Para isso, precisamos do apoio do povo brasileiro e do mundo inteiro", disse Dario Yanomami, da Associação Hutukara Yanomami.

Na Amazônia, a Covid-19 já tem uma dimensão genocida, disse o neurologista Erik Jennings Simões em entrevista à GQ. Segundo Jennings, houve um aumento de 550% no número de mortes em um mês na região. A taxa de mortalidade na população em geral é de 5,7%, enquanto na população indígena é de 9,7%, disse ele.

Peru esquecido

O Peru lidera o ranking no número de mortes indígenas, com 349 fatalidades num contexto de 2.191 casos totais, de acordo com os registros oficiais. É uma taxa de mortalidade de 16% entre as comunidades indígenas. Na Amazônia peruana, 638 pessoas morreram devido ao Covid-19, o que mostra mais da metade – 54,7% – das fatalidades na região afetam os povos indígenas, segundo dados da COICA. Nacionalmente, as mortes indígenas de Covid-19 representam 6% de todas as fatalidades, totalizando mais de 5.700.

Apesar de que as associações de povos indígenas do Equador estão entre as mais bem organizadas politicamente do mundo, não conseguiram evitar o alastramento do vírus

Mais de 60% das comunidades indígenas da Amazônia peruana carecem de centros de saúde e as que existem estão sem equipamentos médicos e medicamentos, segundo dados da Organização dos Povos Indígenas do Oriente boliviano (ORPIO). Somente nas últimas semanas, houve um aumento da população indígena infectada e um aumento da mortalidade nas comunidades nativas.

Amazônia colombiana

Depois do Brasil e do Peru, a Colômbia tem o maior número de infecções entre os povos indígenas, com 1.809. Este número é notável porque o país está entre aqueles que conseguiram conter a pandemia com relativo sucesso. Em nível nacional, a região mais afetada da Colômbia é justamente a região amazônica.

Liderada por Leticia, capital do departamento do Amazonas, na fronteira com o Brasil e o Peru, a Amazônia colombiana já tem mais de 3.115 infecções e 85 fatalidades. Entre os membros de grupos indígenas, 12 morreram da doença.

Autoridades e líderes políticos garantem que os primeiros casos na cidade de Leticia, separados por apenas uma rua da cidade brasileira de Tabatinga, foram importados de Manaus. "Nossa fronteira é muito porosa, há muitos lugares por onde você pode passar (...) aqui teríamos que somar os casos de Letícia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil) porque são cidades gêmeas", disse à AFP Daniel Oliveira, comptroller do departamento.

Segundo a AFP, o especialista indígena Antonio Bolívar, um dos astros do famoso filme "O Abraço da Serpente", morreu aos 75 anos de idade por Covid-19, em Leticia.

Equador e Bolívia

Apesar de ter sofrido grandes impactos com o coronavírus, a região amazônica do Equador não foi o epicentro da pandemia no país. O primeiro caso entre os povos indígenas foi registrado em meados de maio. Mas, nessas poucas semanas, o vírus já atingiu 272 indígenas de sete nações diferentes e matou 22, segundo a COICA. Apesar de que as associações de povos indígenas do Equador estão entre as mais bem organizadas politicamente do mundo, e que decidiram se coordenar para fechar os acessos aos territórios de acesso até que a pandemia seja controlada, não conseguiram evitar o alastramento do vírus.

A pandemia também está afetando a Amazônia boliviana, com mais de 12.280 casos confirmados e quase 400 fatalidades nos estados amazônicos. A Bolívia atravessa atualmente um impasse político, aguardando uma eleição presidencial que foi adiada em meio a uma grande incerteza, e os números da Covid-19 não são confiáveis e certamente relatam muito menos casos do que os atuais. Mesmo assim, nas últimas semanas o vírus se espalhou, afetando 272 povos indígenas de sete nações diferentes e matando 22, sempre de acordo com a COICA.

Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa

Oficialmente, a Venezuela registrou oito casos confirmados entre os povos indígenas e zero mortes entre 819 casos na região. Mas se na Bolívia os números são duvidosos, na Venezuela há um consenso de que os números oficiais estão muito mais longe da realidade. A situação na Amazônia venezuelana é de grande isolamento e abandono, e é difícil saber o que realmente está acontecendo lá.

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Finalmente, o Suriname registra um caso de infecção e zero mortes entre 128 casos regionais; a Guiana um caso e uma morte entre 154 casos na Amazônia; e a Guiana Francesa tem uma morte entre os indígenas, sempre de acordo com o registro mantido pela COICA.

Preocupação

A situação na Amazônia é de profunda preocupação para as ONGs locais e lideranças indígenas, que estão conscientes da grande vulnerabilidade dessas comunidades. Diante da negligência e da discriminação sistêmica por parte dos Estados, as regiões amazônicas e suas comunidades nativas enfrentam níveis mais elevados de pobreza e menos escolaridade, bem como falta de acesso à água potável e saneamento, e barreiras culturais, inclusive linguísticas.

Essas desigualdades estruturais se destacam ainda mais fortemente diante desta crise, sem precedentes na história recente. No Brasil – país que elegeu um presidente que baseou sua campanha eleitoral em promessas de derrubar a floresta amazônica para fazer crescer a economia com soja, pecuária e mineração – as consequências do desinteresse do Estado pelas populações indígenas se revelaram fatais.

Em um dos países mais afetados pela pandemia no mundo, o vírus está circulando mais rapidamente precisamente nas áreas que abrigam alguns dos povos mais ameaçados do mundo. Mesmo as tribos mais remotas, que deveriam estar seguras por causa do seu isolamento, enfrentam risco de infecção. Assim, os Yanomami acabam de lançar uma campanha internacional contra a invasão dos garimpeiros e a disseminação da COVID-19, de acordo com a Survival International.

Além disso, o Brasil compartilha a região amazônica com outros oito países e a Guiana Francesa. Muitos deles tomaram precauções duras e oportunas para conter o vírus, mas a irresponsabilidade do governo de Jair Bolsonaro, negando a gravidade da situação e evitando tomar as medidas adotadas internacionalmente, provou ter consequências fatais, não só dentro de sua jurisdição, mas em toda a região, e além.

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