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Covid-19 atinge uma América Latina economicamente fraca e profundamente desigual

As economias latino-americanas voltarão ao "normal" ou construirão um futuro mais equitativo após a pandemia? English Español

Anna Grugel Smith
7 May 2020
Chatterjee Debarchan/ABACA/ABACA/PA Images

"O horror da guerra." Foi o que disse Cynthia Viteri, prefeita de Guayaquil, Equador, sobre os efeitos do Covid-19 em uma das cidades mais afetadas na América Latina. A recuperação da "guerra" contra a Covid-19 em toda a região exigirá não só uma resposta humanitária eficaz, mas também estratégias inovadoras para lidar com as enormes perdas econômicas causadas pela pandemia.

Muito tem sido dito sobre os impactos a curto prazo do vírus. Mas, até agora, talvez não tenha sido dada atenção suficiente a uma análise da capacidade da América Latina de absorver seus impactos econômicos. Embora o custo total ainda não esteja claro, parece quase certo que as implicações econômicas e financeiras empurrarão a América Latina para uma recessão que provavelmente será igual ou até pior do que o impacto da crise financeira global de 2008.

Por que a crise será tão profunda na região e como poderá sair dela? Uma das razões fundamentais é que a vulnerabilidade estrutural das economias latino-americanas irá exacerbar os custos da pandemia. Mesmo em tempos de crescimento, os benefícios são sentidos de forma muito desigual. Se o desafio é sair equitativamente da crise atual, será necessário que os governos, apoiados por organizações internacionais e regionais, planejem uma saída que não seja um retorno à "normalidade", mas um caminho para um projeto de desenvolvimento inclusivo de longo prazo.

Os custos econômicos da pandemia

Estimativas indicam que a Covid-19 pode custar ao mundo mais de 10 trilhões de dólares. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) sugere que isso levará à perda de 195 milhões de empregos em todo o mundo. Na América Latina, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) estima uma contração de 1,8% do PIB regional, um aumento de 10% no desemprego, um aumento no número de pessoas pobres, de 185 milhões para 220 milhões, e um aumento no número de pessoas muito pobres, de 67,4 milhões para 90 milhões (de uma população total de 620 milhões). A CEPAL também prevê queda do salário mínimo e aumento do desemprego devido ao colapso das indústrias, à contração econômica generalizada e às fracas perspectivas de crescimento.

Os efeitos da recessão anunciada reverterão quase todos os progressos em direção a um crescimento mais equitativo na região, feitos na primeira parte do século XXI. Ao mesmo tempo, como outras crises de saúde, a Covid-19 está exacerbando as desigualdades, pois os pobres são mais propensos a sofrer de doenças crônicas que aumentam o risco de morte, incapacidade e perda de renda. Já sabemos, por exemplo, que as medidas de quarentena na região têm tido um impacto muito mais sério nas comunidades que vivem em favelas e áreas periféricas.

A debilidade estrutural das economias regionais

O específico impacto negativo da Covid-19 na América Latina se deve, em grande parte, às grandes falhas estruturais das economias regionais. A desigualdade caracteriza todas as economias latino-americanas, com ou sem crescimento econômico. O relatório do Banco Mundial de 2013, Shifting Gears to Accelerate Shared Prosperity, observou que, embora a desigualdade tenha sido reduzida nas primeiras décadas do século XXI na América Latina, se o mesmo nível de crescimento continuasse, seriam necessários 41 anos para que a região fechasse a brecha salarial com a Europa.

A receita tributária é, em média, de apenas 22% do PIB na América Latina, contra uma média de 34% para todos os países da OCDE. No México, o número está em torno de 16% e na Guatemala 12%. Isso torna o desempenho econômico e os programas de bem-estar dependentes do crescimento das exportações, sempre vulneráveis à quedas bruscas nos preços das commodities e à demanda global.

Os preços do petróleo caíram 50% em 2020, antes da pandemia, e estão agora no seu nível mais baixo desde 1973. Este é um golpe para várias das maiores economias da região, incluindo Brasil, Colômbia, México, Equador e Venezuela. Os preços do cobre, soja e outras commodities também estão caindo, o que significa que a região terá que tentar se recuperar da Covid-19 a partir de uma posição debilitada, já que é pouco provável que a demanda de exportação se recupere imediatamente.

A região precisa urgentemente articular uma resposta forte através do planejamento para o crescimento equitativo

Os ganhos dos primeiros anos do século XXI são cada vez mais frágeis. Embora o Coeficiente de Gini, entre 2000 e 2010, tenha diminuído em 13 dos 17 países da América Latina, esses ganhos recentes estão agora mais em risco do que nunca. Se os governos latino-americanos adotarem políticas de austeridade, correm o risco de transformares uma crise econômica em uma crise política.

Do crescimento desigual ao planejamento de um desenvolvimento equitativo

O Banco Mundial anunciou um fundo de 14 milhões de dólares dedicado aos países em desenvolvimento para enfrentar os custos da pandemia, com a primeira rodada de apoio para a região da América Latina projetada na ordem de 100 milhões de dólares e um adicional de 170 milhões de dólares através de projetos de redirecionamento para atender às necessidades da Covid-19.

Além disso, muitos governos já tomaram medidas. Por exemplo, o Chile anunciou um plano econômico de US$ 12 bilhões. Mas esta parcela de financiamento só vai atender necessidades imediatas. Ela não fornece recursos para lidar com os custos a longo prazo da crise sanitária e não vai mudar os níveis crescentes de desigualdade ou a forma como a Covid-19 tem exacerbado as desigualdades. No máximo, pode proporcionar um mecanismo de contenção de curto prazo para aqueles que mais necessitam.

A região precisa urgentemente articular uma resposta forte através do planejamento para o crescimento equitativo. Os danos a longo prazo sobre as economias regionais e os mais vulneráveis, juntamente com os problemas estruturais das economias latino-americanas e os fracassos políticos de alguns governos, destacam a necessidade de mudar após a crise e não focar simplesmente no retorno à normalidade.

Em resposta à pandemia, a CEPAL publicou recentemente um manifesto de mudança e desenvolvimento mais igualitário. A proposta da CEPAL se concentra na necessidade de reformas econômicas drásticas a longo prazo para enfrentar os problemas econômicos subjacentes, assim como a atual crise da COVID-19. Em particular, a CEPAL chama a atenção para a necessidade de reformas efetivas e inclusivas do bem-estar social, juntamente com a necessidade de crescimento.

Como diz a CEPAL, mesmo antes da crise, a região tinha uma proteção social inadequada, falta de seguro-desemprego e uma organização injusta do cuidado social. Ao lado da instabilidade política generalizada, esses fatores dificultam o crescimento sustentável e inclusivo e reduzem as chances da região atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030.

A CEPAL recomenda uma resposta coesa e coordenada dos governos que inclua o fortalecimento dos sistemas de proteção social, a fim de apoiar as populações vulneráveis.

É hora da região considerar reformas para tentar emergir da pandemia com um futuro brilhante. Essas reformas poderiam incluir a introdução da renda básica universal como forma de reduzir a desigualdade e compensar aqueles que estão pagando um preço alto para estabilizar a propagação da Covid-19 na região.

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