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A Covid-19 está saindo do controle na Colômbia. Por quê?

Depois de ser parabenizado pela ONU por suas medidas de isolamento, o país é agora o novo epicentro de contágio na região.

DemocraciaAbierta
8 August 2020
Imagem de uma loja no Dia Sem IVA na Colômbia e mapa de infecções.

É inexplicável que um país de 50 milhões de pessoas tenha 346.000 casos confirmados de Covid-19, mais de 9.000 mortes e números diários de infecção de mais de 7.000 casos por mais de um mês. É mais inexplicável ainda se considerarmos que a Colômbia tomou, ao contrário de vários países, medidas rigorosas desde que os primeiros casos foram identificados no final de março.

Em seu programa diário sobre redes sociais de 23 de maio, o presidente Iván Duque anunciou que, a partir de agosto, as universidades e escolas voltariam receber alunos presencialmente. A ministra da Educação, María Victoria Angulo, declarou que o retorno seria feito de forma escalonada e que a razão para tomar a decisão era que, naquela época, as UTIs na Colômbia tinham menos de 50% dos seus leitos ocupados. No mesmo discurso, Duque garantiu que, a partir de 1º de junho, adultos com mais de 70 anos teriam mais liberdade para sair, apesar de serem os mais vulneráveis ao vírus junto com as pessoas imunocomprometidas.

Em 1º de maio, as Nações Unidas também parabenizaram o presidente colombiano por sua liderança e ações para controlar a pandemia, e asseguraram que as medidas econômicas e a reativação da vida produtiva implementadas na Colômbia eram excepcionais. Dois meses depois, a população colombiana está novamente em estrita quarentena até 1º de setembro, as escolas e universidades estão longe de retomar as atividades presenciais e a economia está sofrendo um impacto incalculável. O que aconteceu?

O Dia Sem IVA

As perspectivas pareciam boas para a Colômbia. Apesar de fazer parte do continente mais afetado pelo vírus, parecia ser um dos melhores preparados.

Em julho, porém, tudo começou a mudar. As infecções começaram a aumentar e a quarentena menos rigorosa começou a parecer insuficiente.

Algumas semanas antes, em 19 de junho, Duque aprovou um dos eventos que provavelmente contribuiu para o estouro nos números: o Dia Sem IVA.

O IVA é um imposto indireto que incide sobre os custos de produção e venda das empresas e se reflete nos preços pagos pelos consumidores finais, ou seja, pelo povo colombiano. Para reativar o comércio, Duque autorizou três dias sem IVA por ano.

Em tempos de coronavírus, no entanto, incentivar um dia em que centenas de pessoas podem se aglomerar passa de ser questionável a insensato. Naquele dia, foram registradas 85 multidões na Colômbia, de acordo com o relatório do Ministério do Comércio. Várias lojas em Medellín e Bogotá tiveram que fechar devido ao perigo que o número de pessoas representava para as regras de biossegurança. Até mesmo pessoas que já haviam testado positivo para a Covid-19 saíram para comprar produtor a preços mais baixos.

Apesar do resultado positivo para os lojistas, o impacto negativo ficou evidente duas semanas depois: em 15 de junho, o número total de pessoas infectadas na Colômbia era de 53.063, de acordo com a Worldometers. Um mês depois, era de 87.269.

Os números são devastadores. E embora o Dia Sem IVA não tenha sido o único responsável pelo contágio incontrolado na Colômbia, certamente desempenhou um papel fatal.

Os números do presidente

Iván Duque en su programa .diario el 6 de agosto de 2020.
Iván Duque en su programa .diario el 6 de agosto de 2020. | Foto: medios para periodistas de la presidencia de Colombia.

Há outro fator que contribuiu para a situação, e que passou despercebido no início da pandemia: os números que o presidente colombiano apresenta todos os dias às 18h em seu programa nas redes sociais muitas vezes estão descontextualizados. Toda segunda-feira, o presidente publica os números sobre o avanço do coronavírus na Colômbia. Entretanto, de março a junho, os números que publicou em sua conta do Twitter e declarou em seu programa das 18h sempre mostraram a Colômbia como o país com o menor número de infecções e mortes por Covid-19 entre vários países latino-americanos e europeus.

Repetidas vezes em seu discurso ao povo colombiano, ele disse a mesma frase: "Isso não é uma competição entre países, mas é visível o esforço que está sendo feito no nosso". Em várias ocasiões, no entanto, o presidente usou números questionáveis. Por um lado, ele comparou a Colômbia com países que já estavam em diferentes estágios de contágio do vírus e ignorou dados que tornaram a situação de cada país única. Além disso, comparar um país com outro para validar as medidas que cada um tomou contra o vírus ajuda a desinformar em vez de dar conhecimento real aos cidadãos.

Em um podcast com a epidemiologista Tania Valbuena dedicado a este último ponto, o portal colombiano Colombianchek enfatizou que "é muito mais fácil nos comparar com um país vizinho para dizer que estamos melhor simplesmente por ver que a realidade de outros países é pior do que nossa. Mas na vida real, essa comparação não é válida, e no caso para questões de saúde, e neste caso para a Covid, é importante considerar as circunstâncias nas quais as pessoas nascem, crescem, trabalham, vivem e envelhecem."

Nesse mesmo podcast, Valbuena observou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) define esses aspecto como "determinantes sociais da saúde" que indicam que a saúde de uma pessoa é determinada não apenas por um agente infeccioso, mas também por um sistema político, social, econômico e por um acesso apropriado a um sistema de saúde. Além disso, em suas comparações, o presidente colombiano nunca inclui países com taxas de infecção ou mortalidade mais baixas do que a Colômbia.

Considerando que o número de infecções depende do número de testes e da forma como os testes são realizados, que varia de país para país e ao longo do tempo, não é possível fazer comparações desse tipo.

Para onde a Colômbia está indo

Embora estas sejam apenas duas das possíveis razões pelas quais o vírus e seu crescimento saíram do controle na Colômbia, não há resposta simples para a questão do que tornou as medidas rigorosas de quarentena não tão eficazes.

Zulma Cucunubá, epidemiologista do Imperial College London, disse no final de julho que vários picos da pandemia poderiam ocorrer na Colômbia. Ela também disse que "este momento não é inesperado devido à velocidade com que a pandemia avançava, especificamente nas áreas mais povoadas do país como Bogotá, Medellín e Cali, onde este será o primeiro o pico de infecção e de perigo de colapso do sistema de saúde, mas não será o único pico."

A Covid-19 continua sendo uma doença altamente infecciosa, ainda pouco conhecida e seu comportamento está longe de ser previsível. Entretanto, é claro que o governo colombiano deve encontrar uma maneira de conter o avanço da pandemia para não sobrecarregar as UTIs, que em Bogotá já atingiram 91% de sua capacidade. Além disso, os atrasos nos testes de diagnóstico precisam ser eliminados, pois isso torna impossível saber quantas pessoas estão morrendo a cada dia. Se a pandemia não for controlada eficientemente, o país sul-americano continuará a subir no ranking mundial que já o coloca em um surpreendente nono lugar entre 215 países do mundo. Esta é a realidade a partir de 7 de agosto, data exata dos dois anos de mandato de Duque, que enfrenta um desafio que definirá seu mandato: se ele será ou não capaz de controlar efetivamente a pandemia de Covid-19 em seu país.

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