democraciaAbierta: Opinion

A Covid-19 não freia o desmatamento da Amazônia no Brasil e na Colômbia

Com números alarmantes em ambos países, a destruição da floresta virgem, que produz 20% do oxigênio do mundo, se aproxima do ponto de não retorno.

democracia Abierta
20 July 2020
Deforestación por incendios en Candeiras do Jamari, Amazonas.
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Foto: Victor Moriyama/Greenpeace.

A Amazônia se estende por oito países da América Latina – Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana e Suriname – e cobre cerca de 40% do continente sul-americano. É também um berço de biodiversidade e lar da maior floresta tropical do planeta, que absorve 10% das emissões de dióxido de carbono e produz 20% do oxigênio do mundo.

A floresta tropical amazônica é um recurso estratégico para a humanidade, mas o desmatamento continua sendo um dos golpes mais duros para a região e para o mundo. De acordo com um artigo da WWF, a "Amazônia legal" perdeu mais de 3.000 km2 durante o primeiro semestre de 2020 no Brasil.

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil, de 1º de janeiro a 30 de junho deste ano, foram perdidos 3.070 quilômetros quadrados de vegetação, 26% a mais do que no mesmo período de 2019.

Os números do INPE mostram que, somente em junho, foram desmatados 1.034 km2, o que é alarmante considerando que, segundo números do mesmo instituto, o desmatamento total da Amazônia brasileira em 2019 foi de 10.000 km2.

O que isso deixa claro é que a pandemia e o isolamento não são obstáculos ao desmatamento. Se os números continuarem a subir, o Brasil será vítima, pelo segundo ano consecutivo, de uma taxa de desmatamento insustentável. O ano passado foi o ano do maior desmatamento do país desde 2008.

A situação é consistente com as políticas do presidente Jair Bolsonaro, que em seu discurso inaugural saudou madeireiros, garimpeiros e grileiros. Bolsonaro também aprovou vários decretos como a MP 910 de 11 de dezembro de 2019, que legalizam a apropriação de terras. Este decreto poderia transferir entre 40 e 60 milhões de hectares públicos para mãos de particulares que, por sua vez, seriam autorizados a desmatar legalmente um quinto destas terras, cerca de 10 milhões de hectares.

Segundo a WWF Brasil, os estados com maior desmatamento até agora este ano são Pará (1.212 km2), Mato Grosso (715 km2) e Amazonas (539 km2).

A situação mostra que os incêndios na Amazônia brasileira que alarmaram o mundo no ano passado podem se repetir se o governo não monitorar eficientemente os focos de calor que podem indicar queimadas e as ações de desmatamento no território, tais como: exploração de madeira, plantio ilegal e falhas na governança. Além disso, a combinação de desmatamento e condições extremamente secas poderia facilitar novos incêndios.

A realidade é que, nos últimos 13 meses, o desmatamento nesta área do Brasil atingiu seu auge desde que o monitoramento começou em 2007.

O DETER, sistema de monitoramento do INPE, detectou que, somente em abril, 406 km2 de floresta foram perdidos dentro da "Amazônia legal".

Deforestación en Brasil
Deforestación en Brasil, monitoreo hecho el 9 de julio de 2020.C | Foto: Christian Braga/ Greenpeace.

Para entender a importância de frear o desmatamento na Amazônia brasileira, que representa cerca de dois terços da Amazônia global, vale a pena lembrar um estudo de 2014 publicado na revista Science que explica que a diminuição do desmatamento na região entre 2004 e 2013 diminuiu emissões de gases de efeito estufa equivalentes a retirar todos os carros dos Estados Unidos de circulação por três anos. Isso equivale a 3,2 trilhões de toneladas de dióxido de carbono.

A Colômbia não fica atrás

A situação é parecida na Colômbia. Embora o relatório de 2019 do Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais (Ideam), publicado na quinta-feira (9), mostre uma redução total de 19,2%, o desmatamento na Amazônia colombiana entre janeiro e abril de 2020 não é encorajador.

Enquanto um total de 158.894 hectares da Amazônia colombiana foram desmatados em 2019, os primeiros três meses de 2020 já contam com mais de 75.000 hectares derrubados e mais de 58.000 focos de calor, de acordo com um relatório da Fundação para Conservação e Desenvolvimento Sustentável (FCDS) com dados obtidos com o apoio da Rainforest Foundation, USAID, do Fundo Andes-Amazônico e da Fundação Gordon e Betty Moore. Isso representa 47,4% da área total desmatada em 2019 em apenas três meses.

Para a FCDS e seu diretor, Rodrigo Botero, os números, em meio ao isolamento causado pela Covid-19, podem ser atribuídas a vários motivos: por um lado, as áreas de baixa governança e com a presença de atores armados eram focos claros de desmatamento; por outro lado, mais de 280 km de estradas que estavam sendo construídas sob a floresta passaram a ser desmatadas a céu aberto e mostram a abertura de lotes e fazendas de diferentes tamanhos. Além disso, a pecuária cresceu em mais de 690.000 cabeças de gado durante os últimos quatro anos nos municípios mais afetados pelo desmatamento ao redor de Chiribiquete, onde 290.000 hectares de floresta foram desmatados.

Esse fato se soma ao crescimento das plantações de eucalipto e palma na Reserva Florestal Guaviare, e até mesmo dentro das reservas da tribo nukak, e também a um aumento no foco de desmatamento em Mapiripán onde, desde fevereiro, vêm sendo expulsos os guardas florestais dos parques Puré Apaporis, Chiribiquete, la Paya, Macarena, Tinigua e Picachos e as reservas naturais Puinawi e Nukak por supostos dissidentes das FARC, deixando mais de 9 milhões de hectares de floresta desprotegidos e sem monitoramento.

Durante os primeiros meses de 2020, os focos de calor aumentaram substancialmente em comparação com 2019. De acordo com dados do Sistema de Informação Ambiental Territorial da Amazônia Colombiana (SIAT-AC), enquanto em março de 2019 foram detectados 4.691 focos de calor, em março de 2020 foram detectados 12.953 focos ativos.

O primeiro mapa mostra o desmatamento na Amazônia colombiana e como ele se sobrepõe a reservas indígenas, áreas povoadas, áreas florestais, áreas naturais protegidas e limites departamentais; o segundo mostra a densidade por zona de calor em 2020. As zonas amarela, laranja e vermelha são altas em sua densidade de desmatamento e as zonas azul e verde são mais baixas.

deforestación  en el amazonas
Mapa de deforestación en la Amazonía colombiana en 2020. | Foto: cortesía de FCDS.
deforestación  en el amazonas
Densidad de la deforestación en la Amazonía colombiana en 2020. | Foto: cortesía de FCDS.

No início de abril, a Corpoamazonía, a Corporação para o Desenvolvimento Sustentável do Sul da Amazonia colombiana, chamou a atenção do governo nacional para os focos de calor ativos nos departamentos de San José del Guaviare e Cartagena del Chairá, que fazem fronteira com o Parque Natural Nacional Chiribiquete.

Embora pareça que a pandemia possa retardar o avanço do desmatamento na região, dada a limitação da mobilidade e o freio da atividade econômica em todos os níveis, a realidade é diferente.

Em seu relatório, a Corpoamazonía criticou pessoas que, se aproveitando do isolamento, danificam áreas de conservação de diferentes maneiras. De acordo com seus monitores, as queimadas, que são uma das principais causas de desmatamento, têm aumentado.

Historicamente, os incêndios na região amazônica estão vinculados à busca de lugares para expandir as atividades agrícolas. Queimar a floresta é uma das formas mais comuns de preparar o solo para agricultura e pecuária. Mas o que começa como fogos controlados, em muitas ocasiões, saem do controle.

Em uma conversa com o democraciaAbierta, Manuel Rodríguez, especialista em meio ambiente e ex-primeiro ministro do Meio Ambiente da Colômbia, explicou explicou que o desmatamento se deve, em grande parte, à falta de presença do Estado e esclareceu que "com isso não me refiro à presença das forças públicas, que também é um fator importante, mas à existência de serviços como o monitoramento, o acesso à educação e os serviços públicos. Ele acrescentou que, embora o presidente Iván Duque, no início de seu mandato, tenha se comprometido a deter o desmatamento, e até mesmo presidiu o comitê anti-desflorestação do governo, ele abandonou este propósito assim que a pandemia começou.

Se o desmatamento continuar a aumentar e as condições secas da Amazônia permanecerem, o bioma poderia chegar ao ponto de não retorno, o que faria com que vastas áreas de floresta tropical fossem perdidas para o processo de desertificação. Se isso acontecer, o planeta perderia um de seus grandes reguladores climático e uma reserva de biodiversidade essencial a sobrevivência de todos.

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