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A crise do coronavírus causa retrocessos na luta contra doenças na América Latina

A pandemia de Covid-19 ameaça os planos regionais para eliminar e controlar as crises sanitárias que assolam a região há gerações.

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13 August 2020
A Revolta da Vacina em charge de Leonidas Freire, publicada na revista O Malho, em 1904.
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Domínio Público

Os efeitos negativos da Covid-19 continuarão a ser sentidos muito além de quando os países consigam achatar e controlar a curva de contágio. Na América Latina, uma dessas consequências tem o potencial de reverter décadas de trabalho interno e multilateral entre os países da região: a propagação de doenças previamente controladas e o aumento de outros tipos de síndromes.

Em março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou a suspensão temporária da vacinação em massa em todos os países para evitar aglomeração e o contato físico entre as pessoas, especialmente em lugares mais pobres.

Pelo menos 80 milhões de crianças em 68 países ficarão sem ser vacinadas devido a essa recomendação, abrindo as portas para uma nova ameaça aos países do Sul Global: as epidemias dentro da pandemia.

A situação epidemiológica na maioria dos países da América Latina já era complexa antes de 26 de fevereiro de 2020, quando o primeiro caso de Covid-19 da região foi registrado no Brasil.

Com uma área de floresta tropical sobre fronteiras de muitos países, a região compartilha epidemias sobrepostas de doenças transmitidas por vetores, como dengue, malária, zika e febre amarela.

"A pandemia da Covid-19 chega à América Latina quando outras epidemias e surtos que assolam a região há gerações ainda estão presentes", disse Josefina Coloma, pesquisadora da Escola de Saúde Pública da Universidade da Califórnia, Berkeley, e membro do comitê consultivo da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em entrevista à BBC Mundo.

Além das doenças transmitidas por vetores, a região também sofre com a falta de acesso a atendimento médico para outras doenças infecciosas durante a pandemia de Covid-19. Como resultado, a região tem visto um aumento no número de pessoas com AIDS, tuberculose, hepatite e sarampo.

A pandemia de Covid-19, que já matou mais de 390 mil pessoas nas Américas, ameaça os planos regionais para eliminar e controlar as doenças infecciosas, disse esta semana a diretora da OPAS, Carissa F. Etienne.

Sarampo

Em 2016, a América Latina havia sido declarada livre da doença, que é causada por um vírus. Mas apenas um ano depois, a Venezuela sofreu um novo surto. Entre 2017 e 2019, o país notificou 7.054 casos confirmados e 84 mortes, segundo a OPAS.

Os casos de dengue na América Latina aumentaram em 139% nos últimos meses

Em janeiro deste ano, a OPAS havia declarado que o surto no país estava sob controle. Mas a OPAS relatou um aumento de quase 30% no número de casos confirmados de sarampo em 2020. Desde o início da crise sanitária da Covid-19, a Venezuela, o Brasil e a Colômbia registraram novamente surtos "importantes" de sarampo, de acordo com a OPAS.

Um dos países mais afetados é o Brasil, que hoje tem a maior incidência de sarampo desde 1997. Nos primeiros seis meses de 2020, o país registrou mais de 10 mil casos suspeitos da doença, com pelo menos 4 mil casos confirmados e quatro fatalidades, três das quais não haviam sido vacinadas.

A Argentina e o México também enfrentam aumentos nos casos de sarampo em meio à pandemia. A Argentina tem o maior surto de sarampo desde a eliminação da circulação endêmica da doença em 2000.

O México, de acordo com o último relatório da Direção Geral de Epidemiologia do Ministério da Saúde, detectou 154 casos de sarampo até 24 de abril. O país não registrava um único caso desde 1994.

"Os esforços para controlar o sarampo devem continuar com urgência no meio da pandemia de Covid-19 ou corremos o risco de apagar mais de 20 anos de progresso", disse Etienne.

Dengue

A dengue é endêmica em grande parte da América Latina, mas a chegada da Covid-19 reduziu a atenção e os recursos para o combate à doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti.

O novo coronavírus chegou na região latino-americana apenas meses depois de ela enfrentar um surto de dengue que infectou mais de 3 milhões de pessoas em 2019. Esse surto representou um aumento de 20% em relação a 2015, ano em que havia registrado seu maior número de casos.

Os casos de dengue na América Latina aumentaram em 139% nos últimos meses, segundo a OPAS, uma incidência que coincide com a chegada do coronavírus na região.

Em maio, sete estados brasileiros e o Distrito Federal já estavam registrando números de infecção por dengue que caracterizam uma situação de epidemia.

Entre janeiro e maio, foi confirmado um total de 52.679 casos de dengue na Colômbia, onde a média para o ano inteiro é de 75 mil.

"O coronavírus é a estrela no momento, então toda a atenção está sendo dedicada à Covid, mas ainda há problemas com a dengue", disse Jaime Gómez, médico de um hospital em Floridablanca, província de Santander, Colômbia.

Tuberculose, hepatite, HIV, zika e malária

Até este ano, a tuberculose, o HIV e a malária estavam sob controle. O número de vítimas de cada doença na década anterior atingiu seu ponto mais baixo em 2018, último ano para o qual há dados disponíveis.

Ao redor de 80% dos países da América Latina e do Caribe relataram problemas na distribuição dos tratamentos de tuberculose durante a pandemia

Mas em meio à crise sanitária, a incidência das quatro doenças está aumentando, disse Pedro L. Alonso, diretor do Programa Global contra a Malária da OMS. A pandemia afetou a disponibilidade de medicamentos para HIV, tuberculose (TB) e malária no mundo inteiro, interrompendo as cadeias de distribuição e desviando a capacidade de fabricação.

Além de retirar a atenção e os recursos anteriormente dedicados ao controle dessas doenças, o coronavírus também levou a quarentenas e lockdowns, especialmente nas regiões da África, Ásia e América Latina, que impuseram barreiras intransponíveis aos pacientes que precisam viajar para obter diagnósticos ou medicamentos.

Ao redor de 80% dos países da América Latina e do Caribe relataram problemas na distribuição dos tratamentos de tuberculose durante a pandemia, o que poderia transformar casos controláveis de TB em infecções ativas, diz a OPAS.

Um terço dos países da região também relatou interrupções nos testes de hepatite, o que é fundamental para sua detecção e tratamento. Da mesma forma, 30% das pessoas que vivem com HIV evitaram procurar cuidados e enfrentam limitações do acesso a medicamentos antirretrovirais.

As notificações sobre doenças transmitidas por mosquitos, como a malária, diminuíram em mais de 40%, e houve uma redução no número de pessoas testadas, tornando difícil controlar e tratar a doença, disse Etienne da OPAS.

O Brasil também está vendo aumentar o número de casos zika, que está sendo ofuscado pela Covid-19, de acordo com a Human Rights Watch. O Ministério da Saúde identificou 579 novos possíveis casos de zika entre dezembro de 2019 e fevereiro de 2020, o que é preocupante à luz da epidemia que afetou a região em 2015 e 2016.

Estima-se que uma quarentena de três meses e um retorno gradual ao normal dentro de 10 meses poderia resultar em 6,3 milhões de casos adicionais de tuberculose e 1,4 milhões de mortes por causa da doença.

Da mesma forma, a interrupção da terapia antirretroviral por seis meses poderia causar 500 mil mortes adicionais por doenças relacionadas ao HIV, de acordo com a OMS. Outro modelo da OMS previu que, na pior das hipóteses, as mortes por malária poderiam dobrar para 770 mil por ano.

Como os primeiros números e pesquisas sugerem, o impacto do coronavírus nos países do Sul Global continuará a ser sentido muito depois do fim da pandemia, que, como mostram o ressurgimento de casos na Europa e em outros lugares, não parece estar próximo.

Agora que os países estão começando a flexibilizar as quarentenas e reativar a economia, é essencial que os serviços de saúde e os Estados latino-americanos prestem dupla atenção à luta pela saúde para compensar o tempo perdido e evitar um revés de décadas na eliminação dessas outras doenças, que matam milhões na nossa região.

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