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A crise de Covid-19 e o caminho para um novo paradigma

A pandemia mostrou que precisamos de um sistema com mais foco em questões de gênero e menos investimento militar. Español

Stefanie Elies
12 June 2020
Médicos, paramédicos, enfermeiros, assistentes de enfermagem, profissionais de UTI: combatentes da linha de frente na luta contra a Covid-19 em Madrid, Espanha
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Guillermo Santos/NurPhoto/PA Images

A crise do coronavírus oferece uma oportunidade para a esquerda criar um novo paradigma. Um sistema de cuidado sustentável com equidade de gênero deve ser um dos pilares fundamentais deste modelo a ser criado. O conceito de "segurança humana" deve prevalecer sobre os critérios neoliberais do presente.

Com todos os desafios atualmente colocados pela crise global desencadeada pela pandemia de Covid-19, fica muito claro que, além de estratégias para mitigar suas consequências a médio e longo prazo, pouco se fala sobre a necessidade básica de uma mudança sistêmica fundamental. A crise atual provavelmente será um impulso para pelo menos duas mudanças de paradigma: uma relacionada ao trabalho de cuidados e outra relacionada às mudanças institucionais na segurança humana.

No centro desta mudança dupla de paradigma está um redirecionamento do investimento para sistemas sustentáveis e preventivos que priorizem o cuidado e a segurança humana. Essa redistribuição não é contrária aos interesses econômicos, mas favorece uma profunda transformação sócio-ecológica.

Primeiro: mudança de paradigma para uma remuneração justa e investimento no trabalho de cuidados

A pandemia de Covid-19 deixou uma coisa bem clara: na crise global, são principalmente as mulheres as responsáveis pela manutenção dos "sistemas", seja em espaços públicos como hospitais, centros de atendimento e caixas de supermercado, seja em casa, como professoras, mães ou dependentes. Em todas essas áreas, as mulheres representam mais de 70% da força de trabalho ou realizam a maior parte do trabalho não remunerado.

E por mais alto que seja o reconhecimento emocional desse trabalho, raramente (com a exceção das professores ou médicas mencionadas acima) se reflete em boa remuneração.

Portanto, este é o momento certo para finalmente realizarmos a mudança de paradigma – especialmente no que diz respeito ao trabalho de cuidados – que há muito exigimos de uma perspectiva feminista.

Nós precisamos:

  • romper de uma vez por todas a lógica de produtividade do modelo econômico neoliberal,
  • realizar uma profunda redistribuição de investimento em serviços públicos e na criação de regimes de atendimento resilientes;
  • no que se refere ao trabalho de cuidado não remunerado: a) distribuí-lo com equidade de gênero e b) remunerar, com um cronograma de atividades e remuneração, o trabalho de cuidado não remunerado dos familiares que prestam cuidados e exercem uma profissão ao mesmo tempo;
  • revalorizar e melhorar a remuneração das profissões sociais e minimizar a precariedade do emprego (além de promover organização sindical e a realização de acordos coletivos para os cuidadores e cuidadoras);
  • quebrar as cadeias de atenção globais através de: a) um bom emprego para quem faz trabalho de cuidados em países "emissores" e b) uma reavaliação e ofensiva de qualificações para profissões de cuidados em países "receptores".

Em epidemias e crises econômicas passadas, foram principalmente as mulheres que acabaram tendo que pagar o preço mais alto e foram deixadas para trás

Com uma crise econômica iminente como resultado da pandemia, a atenção está mais uma vez voltada principalmente para os setores produtivos. Mas mesmo em epidemias e crises econômicas passadas, foram principalmente as mulheres que acabaram tendo que pagar o preço mais alto e foram deixadas para trás.

Estudos sobre as pandemias de Ebola e Zika, por exemplo, mostraram que as respostas às crises ignoraram desigualdades estruturais de gênero, exacerbando assim os efeitos negativos sobre as mulheres. As intervenções na autodeterminação sexual e direitos reprodutivos afetaram apenas a parte feminina da população. Elas também carregam a maior responsabilidade pelo trabalho de cuidados.

Na última crise financeira e econômica, as políticas de austeridade aprofundaram ainda mais as desigualdades e expuseram a desigualdade de gênero em muitos países. Algumas redistribuições (tais como bônus de sucateamento na indústria automotiva e seguro-desemprego parcial) foram pagas através de cortes na infraestrutura social. Os empregos industriais masculinos são assegurados às custas das mulheres que trabalham principalmente em outros setores.

Mesmo agora, as mulheres correm um risco desproporcional de perder suas fontes de renda, especialmente as autônomas e trabalhadoras independentes: cabeleireiras, costureiras, artistas ou livreiras. Para as mulheres, o trabalho de meio período é a forma de combinar o trabalho de cuidados com o trabalho profissional, mas isso também revela desigualdade de renda e pobreza na velhice.

Essas injustiças deixaram distorções profundas que continuam a ter impacto até hoje.

Evitar erros do passado

Não é possível evitar outras epidemias e crises. Portanto: este é o momento de "imunizar" as sociedades e a economia. Acima de tudo, devemos combater o argumento de que as questões de gênero são uma questão menor ou simplesmente uma distração da crise real. Pelo contrário, estão no centro do problema.

A crise do coronavírus é global e vai continuar por muito tempo, tanto na medicina como na economia. Mas também oferece uma oportunidade. Pode ser a primeira crise global em que o gênero e as diferenças de gênero são registrados e levados em consideração por pesquisadores e funcionários. As primeiras análises macroeconômicas já estão em andamento.

Isso significa mudar o paradigma do trabalho de cuidados, quebrar as cadeias de atenção e melhorar as condições para o trabalho de cuidados dentro e fora dos setores assistenciais e de saúde

Há muito tempo, os políticos presumem que o trabalho de cuidados pode ser realizado por pessoas particulares, especialmente mulheres, que por sua vez subsidiam indiretamente trabalhadores assalariados de outros setores da economia. Chegou a hora da política social-democrata acabar com essa distorção.

Isso significa mudar o paradigma do trabalho assistencial, quebrar as cadeias de cuidados e melhorar as condições para o trabalho de cuidados dentro e fora dos setores assistenciais e de saúde. O trabalho remunerado e não remunerado devem estar no centro do planejamento da política macroeconômica.

Segundo: mudança de paradigma para um sistema de 'segurança humana'

Também do ponto de vista global, é mais claro do que nunca que não existem sistemas regionais ou supranacionais capazes de operar em casos de crise. Em vez disso, muitas vezes são as constituições nacionais, os planos de resgate, a legislação e as instituições estatais que entram em jogo na gestão de crises.

A pandemia global deixou algo em evidência: os imensos déficits e a ineficácia dos sistemas de prevenção disponíveis em termos de segurança humana. Durante décadas, as medidas de "segurança humana" foram menos bem concebidas e equipadas que os sistemas de segurança tradicionais, ou seja, os orçamentos militares e de defesa. O governo alemão recentemente confirmou seu objetivo de aumentar os gastos militares para 2% do PIB, em conformidade com os acordos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Para estar melhor preparado para futuras pandemias, que certamente virão, avaliações de risco e de impacto completamente novas devem ser feitas, também com o objetivo de encontrar soluções interestaduais e supraestaduais. Os problemas de segurança humana (incluindo migração e sustentabilidade ambiental) não param nas fronteiras nacionais e devem ter precedência sobre as questões tradicionais de segurança.

Essas questões emergentes de segurança também exigem investimentos prioritários. Estes precisam ir além dos sistemas sociais e de saúde. A sociedade civil organizada, os serviços voluntários e as organizações sem fins lucrativos também devem ser capazes de enfrentar e mitigar esses riscos.

Hora de agir

Chegou a hora de uma mudança disruptiva dos padrões de retórica e respostas à guerra, em direção a uma arquitetura de segurança humana comunitária baseada na solidariedade.

É hora de congelar os orçamentos militares e aumentar os investimentos em saúde, educação, proteção climática, combate às causas da migração forçada e infraestrutura pública

Quando, se não agora, será hora de congelar ou cortar os orçamentos militares que continuam crescendo ao redor do mundo e aumentar os investimentos em saúde, educação, proteção climática, combate às causas da migração forçada e infraestrutura pública?

A crise do coronavírus é outro desastre para a humanidade, indicando que com a crescente globalização e urbanização, os riscos para a segurança humana também estão aumentando. É muito provável que surjam novas cepas do vírus, tão virulentas quanto letais. Enquanto isso, os efeitos das mudanças climáticas e padrões climáticos extremos nos afetarão ainda mais.

A crescente desigualdade está alimentando conflitos, confrontos militares, migração em massa e deslocamentos. Essas questões não podem ser combatido por medidas de segurança tradicionais, pelo menos não na sua origem.

A política social-democrata tem a missão de garantir condições de segurança humana, e esta missão aumenta à medida que estes novos riscos aumentam.

Por se tratar de uma redistribuição em termos de transformação sócio-ecológica, a política social-democrata deve, acima de tudo, fazer uso também do orçamento da defesa. Uma mudança dupla de paradigma que canalize o investimento em segurança humana e um trabalho sustentável e equitativo de gênero é uma oportunidade de sair da crise.*

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Este artigo foi publicado como parte da aliança editorial entre a Nueva Sociedad e Democracia Abierta. Leia o original aqui.

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