ourEconomy: Opinion

A crise do coronavírus mostra que chegou a hora de abolir a família

O que a pandemia nos diz sobre o núcleo familiar e a família? English

Sophie Lewis
11 June 2020
Alex Milan Tracy/SIPA USA/PA Images

A humanidade entrou com todas as forças na era do coronavírus.

Na esperança de 'achatar a curva' da pandemia, vastos setores da sociedade adotaram práticas para conter o contágio (sejam elas obrigatórias, voluntárias ou semi-voluntárias, dependendo da legislatura local) conhecidas como 'distanciamento social' e 'isolamento em casa'.

As redes sociais estão inundadas de crônicas dessas práticas, muitas delas compreensivelmente cheias de ansiedade, horror e preocupação pela perda de renda ou pela saúde de entes queridos. Mas muitas delas, por sua vez, são retratos bem-humorados de estarem longe do trabalho e cheias da criatividade de atividades inusitadas dentro de casa (que incluem: jogar jogo-da-velha com o peixe de estimação; fazer música com fogão; e simular viagem de metrô usando a cortina do chuveiro).

Certamente, tem havido sentimentos eco-fascistas, que pedem por um controle autoritário do Estado sobre a situação, mas a ajuda mútua também tem proliferado: vizinhos que se oferecem para fazer as compras de pessoas imunocomprometidas; ajuda com os cuidados infantis e distribuição de injeção segura para profissionais do sexo e usuários de substâncias; suspensão de cobrança de seguro de saúde e aluguel; moratórias aos despejos; e esforços para garantir abrigo para os sem-teto. Este último, em particular, expõe o ponto crucial não dito e, em grande parte, inquestionável da resposta prescrita para a pandemia: as casas privadas.

O núcleo residencial, ao que parece, é para onde todos nós, intuitivamente, devemos recuar a fim de prevenir o alastramento da doença. 'Ficar em casa' é o que de alguma forma, de forma evidente, vai nos salvar. Mas há vários problemas com essa noção, como qualquer pessoa inclinada a pensar criticamente (mesmo que por um momento) consegue perceber – problemas que poderíamos resumir na mistificação do casal; a romantização do parentesco; e a idolatria do espaço fundamentalmente inseguro que é a propriedade privada.

Como pode uma zona definida pelas assimetrias de poder do trabalho doméstico (sendo o trabalho reprodutivo tão intrinsicamente relacionado à questões de gênero), de aluguel e da dívida hipotecária, da posse de terra e de escritura, de paternidade patriarcal e (muitas vezes) da instituição do casamento, beneficiar a saúde? Esses lares padrão são onde, afinal, todos sabem secretamente que a maior parte da violência terrena acontece: a Organização Mundial da Saúde chama a violência doméstica de "a mais difundida, mas entre as menos denunciadas violações de direitos humanos".

Isolamento em casa... na de quem? Distância de quem... ou de todos, menos de alguns?

Pessoas queer e feminizadas, principalmente as muito velhas e muito jovens, definitivamente não estão seguras em casa: sua prosperidade no lar capitalista é a exceção, não a regra. Daí se conclui que, ao serem examinados mais de perto, ambos os termos – "distanciamento social" e "isolamento em casa" – parecem notáveis tanto pelo que não dizem (ou seja, pelo que presumem e naturalizam) quanto pelo que fazem. Isolamento em casa... na de quem? Distância de quem... ou de todos, menos de alguns?

Mas o primeiro e mais grave problema com a diretiva de ficar em casa é simplesmente este: nem todos têm acesso a uma moradia particular. Como o grupo Moms 4 Housing, sediadas em Oakland, na Califórnia, colocaram: "Como você #FicaEmCasa quando você não tem um uma?" Acontece que existem pelo menos duas formas diferentes: compartilhando e ocupando. Em desafio ético às diretrizes do Estado, vizinhos relativamente imunes em muitas cidades têm aberto voluntariamente suas casas para os expostos e doentes, julgando o dever de solidariedade com os desabrigados mais premente do que o imperativo de evitar o contágio.

Enquanto isso, ao ocupar propriedades vazias sem permissão, e viver nelas ("quarentena em andamento", diz um cartaz visto na janela de uma mãe), Moms 4 Housing está liderando o caminho para vencer a gentrificação na Califórnia e decretando a habitação confortável como um direito humano básico.

Infelizmente, ainda há muitas populações cuja resposta à pandemia não pode ser "ficar em casa", mesmo que quisessem que fosse, além dos sem-teto: por exemplo, pessoas armazenadas em prisões, centros de detenção, campos de refugiados ou dormitórios de fábricas, pessoas presas em casas de repouso superlotadas, ou aquelas mantidas contra sua vontade em instalações médicas e/ou psiquiátricas. Se a Covid-19 é incompatível com estas instituições, no sentido de que uma resposta humana à pandemia é impossível em espaços tão antidemocráticos, então fica demonstrado, da mesma forma, que elas são incompatíveis com a dignidade humana.

Em Los Angeles, as autoridades estaduais estão providenciando trailers individuais e cabines de isolamento ao estilo pop-up para os desabrigados. Mas uma resposta muito mais lógica poderia ser: abrir todos os hotéis e palácios privados seguindo a lógica de habitação arejada, iluminada e higiênica para todos. Soltar todos os prisioneiros e detentos, transformar as instalações de cuidado de saúde em vilarejos espaçosos e auto-governados, e liberar todos os trabalhadores — com salário integral — para que possam deixar seus beliches para sempre, morar com seus amigos e viver o ócio pelo menos pela próxima década.

Em segundo lugar, entre aqueles de nós que têm casas particulares, uma grande parte não está segura dentro delas; e ser incapaz de sair apenas multiplica a ameaça. Uma quarentena é, na verdade, o sonho de um abusador – uma situação que entrega um poder quase infinito àqueles que têm o poder sobre uma casa. Assim, no início da epidemia na China, ONGs de direitos das mulheres publicaram guias sobre o abuso doméstico específico do coronavírus. Em 21 de março de 2020, o The Guardian citou a fundadora de uma organização chinesa sem fins lucrativos: "De acordo com nossas estatísticas, 90% das causas da violência está relacionada à epidemia de Covid-19."

O modo de reprodução social da família privada nos sexualiza, nacionaliza e racializa. Nos normatiza para o trabalho produtivo. Nos faz acreditar que somos 'indivíduos'

E à medida que o vírus se espalha pelas Américas, faríamos bem em prestar atenção nisso. A CEO do número de emergência para denúncia de violência doméstica nos Estados Unidos já observou: "Perpetradores ameaçam expulsar suas vítimas de casa para que adoeçam... Ouvimos falar de retenção de recursos financeiros ou assistência médica".

Em suma, a pandemia não é hora de deixar a abolição da família de lado. Nas palavras da teórica feminista e mãe Madeline Lane-McKinley; "As famílias são as panelas de pressão do capitalismo. Esta crise vai ver um aumento no trabalho doméstico – limpeza, cozinha, cuidados, mas também abuso infantil, molestamento, estupro por parceiros íntimos, tortura psicológica, e muito mais". Longe de um tempo para aceitar a ideologia dos "valores familiares", então, a pandemia é um momento extremamente importante para prover, evacuar e capacitar os sobreviventes – e refugiados – do núcleo do lar.

E, em terceiro lugar, mesmo quando o núcleo familiar privado não representa nenhuma ameaça física ou mental direta à pessoa – sem espancamento de cônjuge, sem estupro de crianças e sem agressão contra pessoas queer – o modo de reprodução social da família privada ainda é, francamente, uma porcaria. Nos sexualiza, nacionaliza e racializa. Nos normatiza para o trabalho produtivo. Nos faz acreditar que somos 'indivíduos'. Minimiza os custos do capital e maximiza o trabalho de vida do ser humano (dentro de bilhões de cubículos, cada uma com sua própria cozinha, micro-creche e lavanderia). Nos chantageia a confundir as únicas fontes de amor e cuidado que temos com a extensão do que é possível.

Merecemos mais do que a família. E o tempo do corona é um excelente momento para praticarmos a sua abolição. Nas palavras sempre sábias de Anne Boyer: "Temos que aprender a fazer o bem pelo bem do estranho. Agora temos que viver como evidência diária de que acreditamos que há valor na vida do paciente com câncer, do idoso, do deficiente, dos que estão em condições de vida impensáveis, apinhados e em risco".

Ainda não sabemos se conseguiremos arrancar algo melhor do que o capitalismo dos destroços desta Peste e da Depressão que se aproxima. Eu só postularia com alguma certeza que, em 2020, a dialética das famílias contra a família, dos lares reais contra o lar, vai se intensificar.

Artigo originalmente publicado em inglês no ourEconomy em 24 de março.

Peter Geoghegan: dark money and dirty politics

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