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Os custos do populismo pandêmico

O Brasil tem a capacidade pública, privada e sem fins lucrativos de conter e controlar o vírus. Para que isso aconteça, todavia, falta encarecidamente uma liderança competente.

Robert Muggah Miguel Lago
24 July 2020
Wheatpaste by graphic artist Szucinski with Bolsonaro saying: ''it's just a flu''. Sao Paolo, Brazil, july 2020
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Cris Faga/Zuma Press/PA Images

O único fato surpreendente sobre o diagnóstico positivo de Jair Bolsonaro para COVID-19 foi o tempo que demorou. Durante meses, o Presidente desprezou as precauções sanitárias e travou uma insistente campanha para que os brasileiros voltem ao trabalho. Apesar da grande quantidade de casos de infecções e fatalidades no país, Bolsonaro rejeitou o uso de máscaras, e fez questão de participar de comícios públicos em seu favor, negou provas de que o vírus representava uma ameaça real e promoveu tratamentos comprovadamente ineficazes ao vivo, pela televisão. Em vez de incitar seus cidadãos a tomar cuidado ou expressar um mínimo de empatia com o número escandalosamente alto de vítimas, ele continuou espalhando informações falsas, dizendo que pessoas saudáveis estariam a salvo do vírus. O populista pandêmico demonstra poucos sinais de uma próxima mudança de rumo. Pelo contrário, a pandemia parece lhe proporcionar uma distração conveniente das múltiplas investigações criminais que ameaçam seu mandato.

Embora exista a possibilidade do Presidente ganhar alguma simpatia de sua base por contrair o vírus e sobreviver, isso poderia marcar o início do fim da administração mais caótica da história do Brasil. A resposta de seu governo à pandemia tem sido marcada pela incompetência, imprudência e crueldade, e não há sinais de que essas doenças tenham cura. Hoje, a resposta do Brasil à crise é coordenada por um general ativo do exército, sem experiência em saúde pública. Apesar de registrar mais de 2.3 milhões de casos confirmados e 84,000 óbitos - especialistas acreditam que os números poderiam ser 10 a 15 vezes maiores - o gabinete de Bolsonaro ainda não montou uma estratégia coordenada, incluindo testes sérios e estratégia de rastreamento de contatos. Assim, o Brasil registra o segundo maior número de pessoas infectadas do mundo, e poderá ultrapassar os Estados Unidos no próximo mês.

Em vez de reunir o país e tomar as rédeas de uma resposta coordenada, Bolsonaro procurou sabotar os esforços de prevenção, forçando os 27 governadores e milhares de prefeitos do país a se defenderem sozinhos. Alguns governadores estavam vasculhando os mercados internacionais procurando desesperadamente por equipamentos de proteção básica e foram denunciados veementemente por terem pagado preços inflacionados, afim de garantir máscaras, luvas e soro fisiológico. O SUS, sofrendo com sua notória falta de financiamento, e seus 300.000 profissionais de saúde estão à beira do colapso, especialmente na região amazônica,. Apesar do aprofundamento da crise, Bolsonaro tem feito campanha para voltar a abrir os comércios e as empresas, o que garante o agravamento da crise.

Em vez de reunir o país e tomar as rédeas de uma resposta coordenada, Bolsonaro procurou sabotar os esforços de prevenção, forçando os 27 governadores e milhares de prefeitos do país a se defenderem sozinhos

Apesar de sua bravura, o apoio popular a Bolsonaro está em declínio desde o início do surto da Covid-19. A doença se espalhou incontrolavelmente – o Brasil agora registra o maior número de enfermeiras que morreram como resultado do vírus em todo o mundo – e o desânimo veio logo atrás. Com o presidente desafiando medidas de saúde razoáveis, ministros de alto nível foram demitidos ou se demitiram, antigos aliados se voltaram contra ele, o apoio de sua base nas classes médias começou a cair, e os pedidos para sua demissão ou impeachment cresceram. Mesmo antes do diagnóstico positivo do presidente, ele enfrentou pelo menos 48 acusações passíveis de impeachment. Contando a partir do mês passado, 55% dos brasileiros disseram que gostariam de vê-lo afastado antes das próximas eleições.

Por mais terrível que a situação possa parecer, o presidente não vai abrir mão do cargo facilmente.

Nas últimas semanas, Bolsonaro passou seu tempo expandindo sua base no Congresso, onde, segundo informações, conta com o apoio de 40% dos parlamentares. Ele conquistou alguns, oferecendo pequenos cargos em seu governo. O presidente conquistou partes do establishment militar da mesma maneira: quase 3.000 militares foram nomeados para cargos governamentais. Isto é proporcionalmente mais do que a Venezuela, um país que suporta há anos uma ditadura militar. Bolsonaro conta igualmente com o apoio de seu núcleo duro, que representa cerca de 30 por cento da população, muitos deles armados. O presidente também tem o apoio de muitas polícias estaduais, tendo apoiado rebeliões ilegais no início de 2020. Recentemente, oficiais em São Paulo protegeram manifestantes pró-Bolsonaro que desrespeitaram as ordens de distanciamento social.

Mesmo assim, Bolsonaro enfrenta uma série de ameaças existenciais vindas não somente da crise descontrolada da Covid-19, mas de políticos opositores, da Suprema Corte e da Justiça Penal. Além da ameaça de impeachment por crimes de responsabilidade, ele pode ser condenado pela Suprema Corte por crimes comuns, ou ejetado pelo tribunal eleitoral nacional por suposta má conduta durante a campanha de 2018. Seus três filhos também enfrentam uma série vertiginosa de investigações criminais, inclusive por lavagem de dinheiro e crimes de ódio. O presidente está bem ciente de que o cerco está se fechando em torno de seu primogênito, Flavio, investigado pela polícia federal após meses de resistência. Enquanto isso, políticos da oposição estão se preparando para apresentar acusações por colocar o público em risco de infecção pela Covid-19. A associação de jornalistas também está preparando um caso para a Suprema Corte acusando o presidente de colocar suas vidas em perigo.

O populista pandêmico do Brasil está em uma encruzilhada. Por um lado, a Covid-19 poderia humanizar o Presidente. Sua sobrevivência também poderia convencer alguns de seus apoiadores sobre os méritos de sua cruzada de desinformação contra o vírus. No mínimo, o presidente espera que as controvérsias sobre a Covid-19 distraiam a opinião pública das crescentes investigações criminais contra ele, sua família e sua equipe. Como populistas em outras partes do mundo, Bolsonaro prospera na polarização e no tumulto - é o que energiza sua base e o que o mantém no poder. Mas há também uma chance de que a pandemia possa acelerar sua saída, dando lugar a uma resposta mais responsável e eficaz. O Brasil tem a capacidade pública, privada e sem fins lucrativos de conter e controlar o vírus. Para que isso aconteça, todavia, falta encarecidamente uma liderança competente.

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