democraciaAbierta

Da Cuba de Castro à Trumplandia

Uma visita a Cuba, coincidindo com a morte de Fidel Castro e a vitória de Donald Trump, põe em perspetiva os êxitos e as carências de ambas sociedades. Español English

Teofilo F. Ruiz
19 December 2016
PA-29465256_1.jpg

Javier Galeano AP/Press Association Images. Todos os direitos reservados.

Ao regressar a Cuba de Cuba (onde nasci há muitas décadas) no dia seguinte à morte de Fidel Castro, não pude deixar de refletir sobre a coincidência temporal entre o falecimento de Fidel, uma figura histórica imponente e a eleição de Donald Trump como próximo presidente dos Estados Unidos. Sou um historiador que estuda a península ibérica e o Mediterrâneo ocidental a finais da Idade Médias e os princípios da Idade Moderna. Portanto, estes comentários que se seguem não apelam à experiência de um historiador de Cuba ou dos Estados Unidos. Estas são reflexões pessoais, que tentei situar no seu contexto histórico.

A minha esposa e eu estivemos em Cuba durante mais de duas semanas, uma das quais na Havana, passeando sobretudo pelos bairros não turísticos da cidade. Para aqueles que criticaram durante muito tempo a Revolução e a liderança de Fidel, houve muito que assinalar e muito onde apoiar as suas criticas. Apesar de que as condições sejam melhores agora que as que vivemos quando visitámos a cidade há quatro anos, e o cuidado do centro histórico da Havana ter melhorado muito, ainda há inúmeros edifícios da cidade que estão em ruinas e perto do colapso. Os passeios e as estradas tendem a desmoronar-se. Há escassez de bens essenciais como papel higiénico, shampoo, tomates e similares (ainda não há escassez de turistas nem de estrangeiros). O sistema de transporte público é praticamente inexistente. Para movimentar-se pela cidade, a maioria dos cubanos dependem de táxis muito antigos, os “coletivos”, que se detém nas esquinas e recolhem diferentes passageiros, dependendo do seu destino.  

Muitos cubanos humildemente expressaram as suas queixas abertamente, e vigorosamente. Ainda que ninguém tenha feito criticas abertas ao governo, muitos disseram-nos que queriam ir-se embora do país. Uns quantos (jovens) preguntaram se conhecíamos alguma rapariga agradável que lhes pudéssemos apresentar, ou seja, uma estrangeira sensível que se apaixonasse por eles e os tirasse da ilha. Não eram intelectuais, nem dissidentes, nem blogueiros ou artistas. Eram gente comum.

Também presenciámos, muito mais que há quatro anos, o impacto que a aceleração das economias cubanas paralelas tem no ideal revolucionário de uma sociedade igualitária. Porém, existe uma economia reservada aqueles que estão ligados ao negócio turístico – não só o staff do hotel, os trabalhadores do restaurante, e os pequenos comerciantes, mas sim os artistas de elite e os músicos – que tem acesso à moeda especial (o peso cubano convertível ou CUC, equivalente ao dólar, ao euro, etc…), e estão prosperando. E existe uma segunda economia para os que funcionam no âmbito da desvalorização da moeda nacional (o CUP, peso cubano nacional – 25 CUP =1 CUP), com poucos trabalhos e escasso beneficio proveniente do fluxo de turistas. Estas pessoas raramente prosperam, e suportam o peso da escassez e dos bairros em ruinas. Assim, grande parte do igualitarismo do país está a ser socavado pela decisão do governo de permitir duas economias, e pelo desejo de muitos cubanos de aventurar-se no mundo da empresa capitalista para alcançar uma vida melhor para eles e para as suas famílias. Se julgássemos os êxitos de Fidel Castro e o seu lugar na histórica unicamente em função destes pontos, o seu legado não seria digno de elogio. Mas Cuba é uma sociedade de contradições, uma ilha desconcertante, que dever ser vivida no seu conjunto.

Vimos e experimentámos todas as coisas que detalhei anteriormente, mas nos meus passeios, nas expedições fotográficas da minha esposa por toda a cidade, também vimos e experimentámos outras coisas. Vimos (já seja por nós mesmos ou com um grupo que acompanhámos durante a metade da nossa viagem) uma Cuba onde a educação e a cultura continuam a ser uma prioridade permanente. A maioria das crianças estão na escola, vestidos com uniformes de cores que identificam o seu nível de ensinamento e idades. Os seus uniformes, que inundam as ruas com essas cores, contam com subsídios do governo, tal como os manuais escolares.

Vimos uma Cuba onde os serviços de saúde, o cuidado das crianças e outras características de uma sociedade avançadas estão disponíveis sem custo algum para a maioria da população. A taxa de mortalidade é igual à dos Estados Unidos. A sua mortalidade infantil é muito menor. A taxa de alfabetização é a mais alta do continente. Também vimos uma Cuba na que a música (desde um concerto barroco realizado numa igreja do século XVI, a um grupo a capella numa cidade de província, a interpretações de musica tradicional afro-cubana, hip-hop, reggaeton e jazz) está sempre presente nas ruas, e não só para os turistas.

Vimos uma Cuba onde os festivais de cinema, as galerias de arte e outros espaços culturais se encontram nas partes mais diversas da cidade. No bairro onde nos alojávamos, um dos cinemas locais da Calçada da Infanta (um destino não turístico) mostrava um ciclo de duas semanas de filmes de Ettore Scola. Preguntámo-nos se o senhor Trump alguma vez ouviu falar de Ettore Scola, ou viu algum dos seus filmes.

E isto digo-o não só pelo meu habitual snobismo, que confesso sem qualquer problema, mas também porque é a realidade de uma cultura revolucionária que não deu as costas ao mundo. Já agora, o preço da entrada é equivalente a 7 centavos de dólar.

Vimos uma Cuba onde não há pessoas sem casa, não há drogaditos óbvios, onde as crianças brincam com total liberdade nas ruas sem que os pais se preocupem constantemente pela sua segurança. Vimos uma Cuba onde, por humildes que sejam as retribuições, se garante a todos um salário mínimo e uma ração mínima de alimentos. Ás vezes comíamos onde os cubanos comiam – uma sandwich de carne e uma cerveja – por 1 CUC e dez centavos ou pouca mais de dólar. E estava ótimo. Mas estes são temas materiais, que em teoria se esperam que qualquer sociedade avançada proporcione aos seus cidadãos. Para dar somente um exemplo: as sociedades escandinavas, os sistemas sociais mais avançados do mundo, prestam serviços sociais e, ao contrário de Cuba, garantem a prosperidade económica, a modernidade e o bem-estar de todos os seus cidadãos. Existem defeito, grandes defeitos em Cuba. Afinal de contas, estes programas sociais não podem ocultar a destruição da economia cubana, o seu sistema político autocrático e a sua sociedade fortemente controlada.

Mas o que realmente nos impressionou, o que vimos vividamente nas ruas da Havana e noutras cidades da ilha, foi a extraordinária vitalidade do povo cubano, a sua alegria de viver, mesmo quando se queixavam da escassez. As suas brincadeiras, os sons dos vendedores ambulantes na Havana, a música por todo o lado. O que realmente nos impressionou foi o seu especial sentido de pertença, o evidente orgulho na sua cultura, no seu país, em si mesmos. Esse orgulho era evidente numa mulher pobre, que me vendeu uma sandwich de carne, mas rejeitou a minha propina e, contudo, pagou a minha cerveja. Era evidente num homem cego, que vendia amendoins numa paragem de autocarros e camiões nas Tunas, que insistia em vender a sua mercadoria em vez de aceitar ajuda, e que podia falar de literatura e arte de uma forma que não é comum noutros lugares. O que verdadeiramente nos impressionou foram os muitos cubanos que mostraram uma profunda convicção na sua capacidade de resistir e de sobreviver.  

Uma canção, que ouvimos em Santiago de Cuba, capturou esse sentido bem desenvolvido da identidade cubana. Recordou-me, dolorosamente, o que perdi. A canção dizia: “Se pudesse escolher voltar a nascer, escolheria Cuba”. A maior contribuição de Fidel Castro à criação da nação cubana foi inculcar na maioria dos seus cidadãos – através da educação, da propaganda e da exaltação dos grandes êxitos de Cuba nas artes, na música e nos desportos – um sentido de excecionalidade da ilha revolucionária e das suas gentes.

Lembro-me como, sendo um jovem estudante a meados dos anos cinquenta, sob o terrível regime de Batista, os marinheiros americanos bêbados, que se amontoavam na Havana, urinavam sobre a estátua de José Marti, na praça central. Lembro-me da nossa sensação de indignação e impotência. Para aqueles que desejam rescrever a historia da Cuba pré-Castro através de lentes cor-de-rosa, também me lembro das suas crianças, na grande maioria de cor e esfomeados, com estômagos fracos e parasitários, somente a dez quilómetros dos casinos e bordeis da cidade. Hoje em dia, os pretos e os brancos, e toda a gama intermédia de tons de pele, vão à escola juntos, cantam juntos, dançam juntos e casam-se uns com os outros.

.... || ....

E voltámos a Trumplandia. Voltamos para nos enfrentarmos à duvidosa bússola moral e às carências intelectuais de uma personagem narcisista, vingativa e ignorante, que será o homem mais poderoso do planeta durante os próximos quatro anos. O que dói ler ou ouvir as noticias (algo que jurei não fazer nunca mais, mas sim ler Jane Austen) é o uso orwelliano da linguagem por parte de Trump e dos seus seguidores. Se se repetem suficientes vezes, as falsidades convertem-se em verdades. O que dói é a falta de compaixão e dignidade. O que dói é a vulgaridade profunda e ostentosa do Sr. Trump e a de muitos dos seus seguidores, insuportáveis comparsas que se regozijam pela sua vitoria.

O que dói é regressar e ver os cubanos em Miami celebrando a morte de Fidel nas ruas. Obviamente, muitos deles lutaram “heroicamente” contra a revolução em South Beach, no restaurante Versailles e nos McDonalds e Burger Kings que não faltam em Miami. É compreensível que desejassem celebrar a morte de alguém que morreu de forma natural na sua cama, alguém cuja revolução esteve a salvo desde a sua reforma, e para cuja sobrevivência eles contribuíram com os dólares das suas remessas sem fim.  

Sinto uma profunda tristeza pelo Presidente Obama e pela Primeira-Dama Michelle Obama. O seu mandato na Casa Branca esteve presidido por uma extraordinária gentileza e dignidade, e pelo desejo inflexível de criar uma sociedade inclusiva. Sentiremos falta da sua elegância. Também lamento profundamente a derrota de Hillary Clinton, talvez a pessoa melhor qualificada, a pesar dos seus defeitos, para ser presidente dos Estados Unidos. No final, o género, as filtrações da wikileaks, a extemporânea carta do diretor do FBI pouco antes das eleições e a continua demonização das suas ações acabaram por ser impossíveis de superar.

Sou velho e não importa muito para o meu futuro, mas temo pelo dos meus netos, por todos os que vivem neste grande país. Se Cuba não é a resposta, seguramente que algumas das coisas que vimos ali poderiam servir como modelo para fazer dos Estados Unidos uma sociedade mais igualitária, na que a violência armada, a misoginia, o discurso anti-imigrante, a homofobia e o ódio racial não sejam as diretrizes para organizar os seus cidadãos e criar uma ordem social justa.

Ao final do seu famoso discurso depois do ataque à base militar de Moncada em 1953, Fidel Castro declarou: “a história absolver-me-á”. Não sei se a história o absolverá, mas certamente será recordado como uma das figuras mais significativas e influentes da segunda metade do século XX. Ao governar uma pequena ilha nas Caraíbas, com perto de seis milhões de pessoas no momento em que chegou ao poder, Fidel refez a sociedade cubana e influenciou o mundo. Continua a ser uma figura inspiradora em muitos países africanos, em muitas partes da América Latina e, sim, inclusive em Cuba, onde presenciámos, depois do anuncio da sua morte, a dor de muitos cubanos.

Enquanto ao Sr. Trump, a sua história ainda está por escrever. Pelo bem do país e do mundo, esperemos que não seja uma história triste, que não seja uma história que dilapide o mundo. Mas, pelo que vimos até agora (as suas nomeações, por exemplo), não creio que a história alguma vez o venha a absolver.


La Habana e Los Ángeles, 2016

Unete a nuestro boletín ¿Qué pasa con la democracia, la participación y derechos humanos en Latinoamérica? Entérate a través de nuestro boletín semanal. Suscríbeme al boletín.

Comentários

Aceitamos comentários, por favor consulte ás orientações para comentários de openDemocracy
Audio available Bookmark Check Language Close Comments Download Facebook Link Email Newsletter Newsletter Play Print Share Twitter Youtube Search Instagram WhatsApp yourData