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De Hong Kong a Beirute, de Quito a Santiago e Barcelona, a frustração se espalha pelo mundo

A frustração cresce em toda parte e muitas vezes explode em violência urbana. As razões são diversas, mas há algo no sistema que está quebrado e é urgente repará-lo. Español, English

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Francesc Badia i Dalmases
22 October 2019
Grafite no centro de Quito, Equador, durante os protestos de outubro de 2019.
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Foto: Francesc Badia. Todos os direitos reservados.

Localizada na latitude 0º, na divisão dos dois hemisférios, com seus 2.850 metros acima do nível do mar, Quito, no Equador, é a segunda capital mais alta do mundo, depois de La Paz, com 3.640 m. Desta considerável torre de vigilância andina é possível observar o mundo convulsivo em que vivemos com certa distância e perspectiva.

Também aqui em Quito, outdoors anunciam a estréia do hit americano do momento, o filme Joker, traduzido como Coringa no Brasil e El Guasón no Equador. O filme representa muitas coisas e tem muitas camadas, mas é uma metáfora apropriada para a ascensão dos marginalizados, para a vingança da vítima contra um sistema cruel, cínico e abusivo dos mais fracos. A vítima se rebela, desperta o oprimido e abre a porta da libertação.

Enquanto isso, após a ressaca dos 6 meses violentos dos “gilets jaunes” (coletes amarelos) em Paris, protestos e duros confrontos com a polícia em importantes cidades dos quatro continentes estão vivos na retina da opinião pública mundial.

Agora, embora as imagens da repressão policial sejam muito parecidas, as causas dos protestos e a maneira brutal de reprimi-los não o são, mesmo que uma rápida olhada nas manchetes ou no Twitter nos faça pensar que respondem da mesma forma e que todos os policiais agem da mesma maneira.

Protestos violentos marcam o começo de uma séria de frustrações diante de algumas medidas dos respectivos estados, mas todos têm suas peculiaridades e não podem ser colocados no mesmo saco.

Quais são as chaves para essa onda de protestos urbanos?

Em Hong Kong, uma capital financeira global, numerosos grupos de jovens muito bem organizados defendem o status especial da ex-colônia britânica, que mantém alguns mecanismos de participação democrática, ameaçados pelo governador do enclave, em conformidade com a República Popular da China.

Os manifestantes acumulam várias semanas de confrontos violentos, armados com capacetes, máscaras de gás, roupas de proteção e até luvas anti chamas, e conseguiram, por enquanto, que o governo adie as medidas, diante do olhar vigilante de Pequim.

Em Beirute, são os destituídos que queimam pneus de carros, uma combinação do que resta das ruínas das milícias xiitas e dos sem-teto, protestando contra os últimos aumentos abusivos de impostos e preços em um sistema profundamente injusto que, como sempre, prejudica desproporcionalmente os mais fracos.

Enquanto isso, refugiados sírios definham no Vale do Bekaa, que se juntou ao eterno desespero dos palestinos no Líbano, por décadas tratados como despojos do Estado de Israel.

Protestos violentos marcam o começo de uma séria de frustrações diante de algumas medidas dos respectivos estados, mas todos têm suas peculiaridades e não podem ser colocados no mesmo saco

Nesta semana se incendeia Santiago, onde a frustração acumulada por muitos, especialmente jovens que, diante da sensação de abuso e desprezo social, acabou explodindo. Vemos protestos violentos diante de uma medida profundamente anti-social, como o aumento desproporcional do preço do transporte público, que é a ponta do iceberg de um sistema socioeconômico profundamente injusto e prejudicial para os mais desfavorecidos.

E o governo de direita não pode pensar em outra coisa senão declarar o Estado de Exceção, colocar a situação nas mãos dos militares e começar a matar pessoas (11 pessoas morreram até aqui). "Estamos em guerra", disse o presidente Sebastián Piñera, numa atitude desproporcional e reacionária, beirando o crime de estado.

Ninguém esperava que a democracia chilena tão liberal e estável explodisse com tanta violência.

Revolta no Equador

Também os confrontos muito violentos vividos em Quito nas duas primeiras semanas de outubro respondem a uma frustração coletiva considerável por parte de muitos equatorianos.

Como no Chile, a última gota foi a duplicação do preço do combustível como parte de um pacote de cortes e medidas para reduzir o déficit, a pedido do FMI. Foi quando as diferentes comunidades indígenas, especialmente afetadas por medidas agressivas de austeridade, decidiram mobilizar-se e ir à capital em diferentes marchas, que a situação de confronto ficou muito tensa até que eclodiu em uma batalha campal.

Os indígenas equatorianos foram e continuam sendo vítimas de um sistema neo-extrativo agressivo (como foram também do colonialismo), em que grandes fazendas de petróleo, madeira e mineração devastam seu território.

Isso lança os povos originários na miséria e desenraizamento, e penetra e destrói seus habitats, onde eles só podem viver em um equilíbrio frágil e à beira da miséria. Em sua luta, os indígenas, que são os sobreviventes de mil abusos e assassinatos por séculos, se juntam a outros setores sociais também afetados pelo pacote neoliberal. Mas eles colocam seus corpos na frente porque não têm mais nada a perder, apenas a própria vida, cujo valor de mercado é quase nulo.

Os indígenas conseguiram negociar com o governo graças à força, determinação e responsabilidade dos líderes comunitários

Finalmente, após 12 dias de duras batalhas com uma polícia de choque treinada nas táticas de guerra urbana americana e inspirada no RoboCop, as comunidades indígenas conseguiram negociar com o governo. Isso foi graças à força, determinação e responsabilidade dos líderes comunitários, que acamparam em Quito, dispostos a não ceder.

Suas condições muito precárias suscitaram a solidariedade de muitas pessoas em Quito que ofereceram sopa quente, cobertores e primeiros socorros. Nesse caso, sim (ao contrário de Hong Kong ou mesmo Santiago), eles são os deserdados da terra, dispostos a lutar até morrerem. Como povos indígenas, eles sabem há séculos que resistir é a única maneira de sobreviver.

Estabelecida a mesa de diálogo com o governo e retirado o artigo prejudicial 883, em uma lição de dignidade que surpreende quem não conhece a natureza desses povos, as comunidades enterraram seus mortos e montaram equipes que, durante dois dias, limparam e arrumaram a cidade.

Eles limparam as feridas causadas pelos confrontos selvagens, subiram em seus caminhões e retornaram às suas aldeias. A sensação geral aqui em Quito é de uma calma tensa, de que este foi apenas um capítulo de uma batalha que será longa e continua. Muitos dizem que o que estamos vendo agora é apenas uma trégua.

Na Catalunha é diferente

Mas como Barcelona se encaixa nisso tudo?

Visto de longe, pode parecer que aqui estamos novamente vendo o caso em que um estado assume o papel de um velho Leviatã que reprime e aprisiona uma nação historicamente oprimida e punida, periférica e empobrecida, que apenas luta democraticamente por sua liberdade.

Um estado autoritário, herdeiro da ditadura fascista do general Francisco Franco, que apenas procura destruir o povo catalão, desprezando seus direitos históricos e que é atingido com vingança na menor ocasião. Ninguém deve se surpreender então que o povo se levante e enfrente, mesmo violentamente, as "forças de ocupação" antidemocráticas do inimigo externo.

Essa Espanha sem dúvida existiu por 40 anos no século XX. Mas muitos têm dificuldade em superar o clichê de uma Espanha autoritária e retrógrada e assumir que os espanhóis conseguiram superar seu passado mais sombrio e construir um regime democrático avançado, homologado pelas democracias europeias em um dos estados mais descentralizados do mundo.

Mas os índices que o corroboram são desqualificados porque vêm do mainstream. O Democracy Index publicado pela prestigiada Economist Intelligence Unit coloca a Espanha entre as 20 democracias mais completas do mundo, e a Espanha obtém 94 dos 100 pontos no índice de liberdade da Freedom House. Ainda assim, para muitos esses dados são manipulação, mentira.

Na atual batalha de histórias políticas, o populismo é responsável por sustentar que tudo é mentira, que tudo é fake e que a verdade é opinião

E é que, na atual batalha de histórias políticas, o populismo é responsável por sustentar que tudo é mentira, que tudo é fake e que a verdade é opinião. Para o populismo, negar as evidências e construir uma história alternativa igualmente falsa é legítimo, se se trata de salvar as pessoas.

No mundo dos fatos alternativos do populismo nacional, atacar a imprensa livre e de qualidade, desqualificar os pilares da democracia institucional e abominar os tribunais de justiça independentes é igualmente legítimo, se serve para enfraquecer o inimigo.

A Catalunha, uma das regiões mais ricas e autônomas da Espanha (e do mundo), também foi pega nas redes do populismo nacional. E isso talvez desde o início da transição política, quando a constituição concedeu ao território um estatuto de autonomia amplo o suficiente para desenvolver um poderoso processo de construção da nação.

Mas, mesmo com todos esses instrumentos e em uma situação de certo privilégio em relação a outras regiões da Espanha com base em seus "direitos históricos", as elites extrativistas e rentistas, em uma batalha pela hegemonia política, colocam a promessa de "independência" como o eixo quase único de sua agenda política. Afirmam que essa é a única coisa que lhes garantirá um espaço totalmente democrático diante do estado opressor, ocultando o resto da verdade.

Esta história foi assumida por uma parte importante da sociedade catalã, que sente a mágoa em sua própria carne. E quando, depois de levarem essa agenda ao limite, romperem as costuras constitucionais e fragmentarem a convivência entre os povos de origem plural e diversa que habitam o território catalão, os políticos impuseram seu referendo à força.

Eles o fizeram ignorando o Tribunal Constitucional e sem a maioria social, sem um censo ou garantias democráticas, um referendo no fundo fake, seguido de uma declaração unilateral de independência, também fake, mas na qual quase dois milhões de catalães queriam acreditar com fé quase cega.

E digo fake porque no dia seguinte à declaração da independência, em vez de levantar a bandeira e publicá-la no jornal oficial, uma parte do governo viajou de fim de semana e a outra, com medo das consequências criminais de suas ações, fugiu para a Bélgica e a Suíça, vestindo a capa dourada de um exílio político também fake.

O velho Leviatã, escravo de seu arcaísmo e sua incapacidade de antecipar politicamente o desastre irresponsável que se esperava, caiu na armadilha de espancar os cidadãos

Inexoravelmente, o velho Leviatã, escravo de seu arcaísmo e sua incapacidade de antecipar politicamente o desastre irresponsável que se avizinhava, caiu na armadilha de espancar os cidadãos que impediam, em resistência passiva, a retirada das urnas chinesas nas quais depositariam seus votos de liberdade.

Mais tarde, após a declaração unilateral de independência, o Leviatã interveio na autonomia e colocou nas mãos das justiça os responsáveis ​​por sequestrar o Estado de Direito. Algo que foi, como muitos tanto à direita como à esquerda acreditam, o exercício de seu direito inalienável à autodeterminação.

Depois de dois anos de prisão preventiva (e provavelmente abusiva) dos principais líderes, as sentenças foram duras, apesar de permitirem a aplicação imediata de uma medida que em breve suavizará as penas.

Mas depois de dois anos desqualificando sistematicamente qualquer sentença que não fosse absoluta e acusando a Suprema Corte de ser nada mais que um instrumento de vingança (embora o julgamento foi realizado com todas as garantias processuais de um estado democrático, e transmitido ao vivo pela televisão com a máxima transparência) veio a indignação, institucional e popular. Com as mobilizações massivas de outubro, o objetivo era criar um novo "momentum" que levasse a revoltas populares e a "independência" diante do colapso do estado espanhol.

É hora de rasgar as roupas de guerra e convocar, de dentro do governo autônomo, suas organizações civis e similares para sair às ruas e expressar indignação. Apelam não apenas às centenas de milhares de fiéis que acreditaram religiosamente que o processo foi sério, genuinamente esperançoso de que a libertação chegaria, mas a outros indignados com a crueldade da justiça, acompanhados por alguns milhares de militantes radicalizados que, com bênção do presidente da Catalunha, estão dispostos a causar intermináveis ​​acidentes rodoviários e a enfrentar violentamente a polícia.

O que move os jovens (e não tão jovens), além da emoção compreensível de se ver humilhados pela justiça, é a imensa frustração de ver que as promessas não aconteceram, que a suposta República Catalã independente acabou sendo fake, e que o engano está sendo monumental e permanente.

A surpreendente incapacidade de autocrítica dos políticos catalães vem do tique de atribuir qualquer coisa (incluindo seus próprios erros) ao inimigo estrangeiro chamado Espanha. Parte disso também acontece vice-versa, já que na Espanha o "problema catalão" é sempre usado com vantagem política e eleitoral, sem nenhum escrúpulo.

Resta apenas queimar a cidade rica e burguesa, a cidade da qual são filhos privilegiados, aquele lugar único no mundo onde vivem os "burgueses oprimidos".

Frustração compartilhada

A frustração, embora causada por razões diferentes, é o motor dos protestos que estamos vendo em tantas cidades ao redor do mundo.

Mas estudantes radicalizados em uma capital financeira asiática, libaneses deserdados, indígenas despojados ou jovens chilenos que acumulam dificuldades despretensiosas e cortes sociais diante de um sistema desigual que os pune injustamente não são a mesma coisa.

Como não é a mesma coisa alguns jovens de classe média que ficaram frustrados porque seus pais lhes disseram que eram oprimidos por um estado autoritário do qual seriam libertados muito em breve e cujos líderes desenvolveram de forma errada.

Mas aqueles meninos que jogam projéteis e queimam contêineres em Barcelona não são primos do Coringa que Joachim Phoenix encarna, daquele “coringa” vítima de marginalização e abandono de uma sociedade neoliberal e selvagem.

Ele é vítima de abusos não mencionados que o tornam uma criatura marginal e doente, e acaba matando o principal representante da sociedade do espetáculo, hipócrita e abusivo, incentivando uma revolta contra o sistema que incendeia as ruas de Gotham.

Aqueles que queimam Barcelona não são os deserdados da terra que lutam com a vida, nem mesmo os marginalizados e explorados de uma sociedade descontroladamente neoliberal. São os filhos de classe média capturadas pelo populismo nacional

Aquele Coringa que levanta um discurso político contra a sociedade do capitalismo mais selvagem, capaz de gerar monstros na América do Norte mais trumpiana sem sequer recuar, não tem semelhança com esses meninos europeus. Estes, na Barcelona burguesa, atacam para provocar a polícia como se estivessem jogando paintball, sabendo que não há policiais militarizados, equatorianos ou chilenos, prontos para matá-los. E assim eles lutam para alcançar uma liberdade que já desfrutam.

Eles não são os deserdados da terra que lutam com a vida, nem mesmo os marginalizados e explorados de uma sociedade descontroladamente neoliberal. São meninos estagnados da classe média, rentista, capturada pelo populismo nacional que floresce entre as democracias europeias avançadas.

Do alto e da distância do Equador, vale a pena perguntar como será que construiremos alternativas viáveis ​​e construtivas e histórias esperançosas e otimistas para uma sociedade melhor, porque está evidente que a frustração cresce à medida que cresce a depredação da natureza.

Hoje é urgente superar o autoritarismo, o neoliberalismo destrutivo e o populismo nacional, que deprimem os idosos, frustram tantos jovens e acabam incendiando nossas cidades.

Não basta invocar o diálogo. É preciso ir além.

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