Transformation

Precisamos desafiar o distanciamento social

A separação está no cerne do capitalismo. Como podemos superá-la e permanecer seguros?

Pablo Ruiz Naime
29 October 2020
Distanciamento social na fila do supermercado J. Sainsbury's norte de Londres em meio à pandemia de coronavírus 30 de março de 2020
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Philafrenzy/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0

Eu não estava presente quando minha avó morreu, a 9 mil quilômetros de distância, no México. Ela já estava sendo cremada quando me contaram sobre seu falecimento. Meu avô havia morrido dois anos antes, mas quando ele nos deixou, todos os seus entes queridos estavam ao seu lado em um adeus íntimo. Isso fez toda a diferença – para nós certamente e acredito que para ele também. A distância importa, e não apenas em uma pandemia, quando estamos separados de muitos daqueles que amamos.

É verdade que o distanciamento social, a separação física e a desconexão emocional estão todos interligados nestes tempos estranhos e difíceis, mas a distância é algo constante na minha vida e na vida de tantas outras pessoas há séculos. Isso se dá porque, dentro do sistema capitalista, estamos sistematicamente separados uns dos outros em todas as esferas da vida e não apenas socialmente distanciados para preservar a saúde das pessoas.

Nós nos distanciamos da violência para não termos que vê-la. Desmerecemos a distância que os escravos tiveram que percorrer para chegar às Américas, bem como as distantes histórias de exploração que foram tecidas pelo colonialismo e ainda estão sendo tecidas pelas cadeias de abastecimento de hoje.

Ignoramos a distância alienante que criada e mantida entre os homens brancos e a terra. Omitimos a distância existente entre os fatos imortalizados pela História e as vozes que ela silenciou; entre o conhecimento que é valorizado e o que é descartado; e entre as possibilidades futuras que são dadas aos privilegiados, mas negadas aos que são marginalizados e oprimidos.

Sofremos quando nossas mentes e nossos corpos se distanciam um do outro, e quando as mulheres são distanciados do controle sobre seu próprio corpo. Lamentamos que o capitalismo, o racialismo e a heteronormatividade exacerbam a distância entre pessoas de diferentes gêneros, raças, sexualidades e habilidades, um distanciamento que continuamente separa e divide o mundo entre quem tem e quem não tem.

Em sua essência, o capitalismo prospera ao manter a distância entre os trabalhadores e os frutos de seu trabalho, entre as pessoas e a terra, a produção e o consumo, a ética e a economia, o individual e o coletivo. O capitalismo depende da atomização da sociedade.

Devo me concentrar em me proteger, mas quem sou eu sem poder cuidar daqueles que não posso ver ou tocar?

Agora chega o coronavírus com seu próprio mandato de separação. Com exatamente 2 metros de distância, nossas liberdades e responsabilidades estão sendo redefinidas. Devo me concentrar em me proteger, mas quem sou eu sem poder cuidar daqueles que não posso ver ou tocar? Eu sinto que estou perdendo minha essência e meu senso de pertencimento conforme a distância aumenta.

Eu me sinto vazio e sozinho, mas tento lembrar que “nossas vidas não são nossas”, como o escritor David Mitchell coloca em seu livro "Cloud Atlas": “estamos ligados a outros, no passado e no presente, e através de cada crime e de cada bondade, tecemos nosso futuro". Posso estar vazio, mas não estou vazio sozinho.

Isso é uma coisa que aprendi na minha infância no México. Nascemos dentro de uma certa estrutura que acarreta um padrão de privilégios e opressões. Nascemos em um capitalismo racial. Como um mexicano "branco" de classe média baixa, vi como classe e raça se cruzam. A minha família lutava para sobreviver economicamente, mas pertencia a um círculo social mais alto, porque éramos considerados brancos. Havia confrontos constantes com meus colegas brancos de classe alta. Apesar do meu status econômico, eu ainda era considerado parte da classe superior. Eu era "um deles", enquanto os mexicanos "morenos" eram menosprezados.

A distância estava em toda parte, e sempre foi racializada e baseada em gênero. Agora ela é replicada e exacerbada pelas desigualdades do vírus, que determinam quem é infectado, quem sobrevive e quem exerce o trabalho de cuidar dos outros. Na cidade de Nova York, o vírus é duas vezes mais mortal para negros e latinos do que para brancos, devido às condições socioeconômicas que dividem quem tem e quem não tem. Na Cidade do México, a área mais afetada também é a mais pobre – Iztapalapa – que está deliberadamente localizada longe dos ricos, com menos leitos hospitalares, menos capacidade de tocar a vida em um cenário de distanciamento social e menos espaço para preservar sua saúde.

No entanto, essas desigualdades são geralmente ignoradas ou marginalizadas na tomada de decisões. Procuramos soluções técnicas para os problemas que a distância cria. “Colonizadores e cientistas (...) cortam e separam partes que constituem um todo, isolam essas partes, analisam-nas em condições de laboratório e sintetizam-nas novamente em um novo modelo artificial, feito pelo homem”, como diz a escritora Maria Mies.

A especialização nos permite evitar ver todas as consequências interligadas das medidas implementadas. O distanciamento social e os lockdowns seletivos negligenciam a impossibilidade que algumas pessoas enfrentam de cumprir seus regulamentos, atrapalham nosso desejo de honrar a morte de nossos entes queridos, expõem algumas pessoas a riscos adicionais de violência doméstica ou a transtornos psicológicos que vêm com solidão, acrescentem trabalho adicional sobre os ombros das mulheres devido à construção patriarcal dos papéis femininos, especialmente durante uma pandemia.

O distanciamento social pode ser uma tática vital no aqui e agora, mas não pode ser o roteiro do futuro

A dinâmica da opressão e do privilégio sempre distancia as pessoas umas das outras dessas formas. Em tempos de crise, esta distância se torna ainda mais clara. "O vírus nos isola e individualiza", diz o filósofo Byung-Chul Han, "A solidariedade (...) em manter nossas distâncias mútuas não é uma solidariedade que nos permite sonhar com uma sociedade diferente, mais pacífica e justa". "O trabalho de coalizão não é trabalho feito dentro de casa". As formas como o vírus está sendo usado pelos políticos para promover suas agendas também são outra estratégia do distanciamento.

No entanto, não há nada que nos impeça de re-imaginar e re-habitar constelações de intimidade que tornam possíveis futuros diferentes. Inspirando-nos no que já está acontecendo no meio da pandemia – nas ações de ajuda mútua, na organização virtual e nos cuidados com o outro de forma segura e responsável – podemos nos libertar dessas estratégias de distanciamento, encontrando conexões e nos aproximando uns dos outros e do mundo. Devemos olhar além dos binários porque eles ofuscam e colocam mais distância entre as coisas que realmente importam.

Os povos indígenas já estão nos mostrando como viver vidas radicalmente diferentes com menos separação entre o passado e o presente, entre nós e o mundo ao nosso redor, entre a economia e a sociedade, entre você e eu.

"A crença de nosso povo é que somos parte da terra", escreve Freda Huson, porta-voz do acampamento Unist'ot'en, no que hoje é o Canadá. "A terra não está separada de nós. A terra nos sustenta. E se não cuidarmos dela, ela não será capaz de nos sustentar, e nós, como uma geração, morreremos". O mesmo é verdade para a separação como um todo.

O distanciamento social pode ser uma tática vital no aqui e agora, mas não pode ser o roteiro do futuro.

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