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Diplomacia cidadã para a relação entre Argentina e Brasil

A relação oficial entre a Argentina e o Brasil está no seu ponto mais fraco e mais delicado desde a transição democrática nos dois países. Como a diplomacia cidadã pode ajudar? Español English

Juan Gabriel Tokatlian
22 January 2020
O ex-presidente da Argentina, Mauricio Macri, com Jair Bolsonaro. Janeiro 2019
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Alan Santos/DPA/PA Images. Todos os direitos reservados

A relação oficial entre a Argentina e o Brasil está no ponto mais baixo e mais delicado desde a transição democrática nos dois países. Há um ano, em entrevista após assumir a presidência, Jair Bolsonaro disse que o Brasil procuraria "ter supremacia na América do Sul". Em dezembro de 2019, em um artigo publicado no site do Itamaraty, o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo disse que uma ameaça comunista paira sobre a América Latina e procura "estrangular" o Brasil. Um comunismo que "que ‘iluminar’ com suas trevas" nações como a Argentina. Em agosto de 2019, após as eleições presidenciais argentinas, o ministro da Economia Paulo Guedes disse que "se (Cristina Fernández de) Kirchner entrar e fechar economia, saímos do Mercosul". E em outubro Bolsonaro disse, antes das eleições do primeiro turno, que uma vitória de Alberto Fernández "pode colocar todo o Mercosul em risco".

Em 2020, o seguinte deve ser levado em consideração. 1) Estamos diante de um Brasil hiper-ideologizado, voltando às antigas aspirações hegemonistas da América do Sul, re-primarizado com um setor de agronegócios de peso crescente em relação aos segmentos industrializados, mais neoliberal na economia e cruzado civilizatório no que político-cultural. Esse Brasil não vai mudar de repente. 2) A situação é complexa e negativa para uma Argentina notavelmente vulnerável, instigada por desafios monumentais internos e externos e com vários atores sociais dispostos a extremar o nível de polarização interna. Essa Argentina não deve aprofundar seu declínio, mas revertê-lo com muito esforço e por vários anos. 3) Com o tempo, a Argentina vem perdendo (devido a ação, omissão ou negligência) alavancas e influencia e é menos relevante, em diferentes áreas, para o Brasil. Se o caminho atual continuar igual, o relacionamento entre o Brasil e a Argentina poderá perder o sentido estratégico para ambos; sendo mais prejudicial para a Argentina.

Assumindo esse diagnóstico, é essencial admitir que nossa liderança política, comercial, trabalhista, partidária, intelectual, social e militar está há cinco anos sem refletir e agir seriamente sobre o estado real dos laços argentino-brasileiros. Da mesma forma, deve-se enfatizar que, como em outros aspectos da política externa (investimentos, FMI, Trump etc.), o governo de Cambiemos acreditava que sua própria existência era sinônimo de harmonia; neste caso, em relação ao Brasil, sem perceber as profundas transformações que vêm operando nos dois países. Também é necessário lembrar que a diplomacia convencional de natureza interestatal é hoje insuficiente para enfrentar os enormes desafios gerados nas relações binacionais. Por isso, é urgente reivindicar, estimular e aprofundar a diplomacia cidadã.

A Argentina precisa talvez mais do que nunca que uma diplomacia cidadã renovada seja implantada com o Brasil

Apesar do fato de que, como destaca Kristian Herbolzheimer, esse é um conceito relativamente recente, sem definição única e universalmente aceita, em geral é assumido como parte de uma estratégia voltada para a solução de problemas; particularmente para mitigar relacionamentos e/ou situações difíceis. Entendo a diplomacia cidadã como aquele tipo de diplomacia em que grupos não-governamentais desarmados têm um papel complementar ao do Estado, assumem um trabalho legítimo de interlocução com diferentes contrapartes no exterior e desenvolvem alianças inovadoras com sociedades civis de outras nações em âmbitos bilaterais e multilateral. Em essência, é um processo de envolvimento social transnacional que não substitui contatos e acordos entre Estados e dos Estados em fóruns internacionais.

A diplomacia cidadã vem se expandindo desde os anos 80, mas ganhou intensidade nos anos 90, facilitada pela dinâmica da democratização, globalização e integração. Seus principais esforços visam influenciar governos e organizações intergovernamentais usando lobby e negociação. Essa diplomacia exige um entendimento aprofundado da agenda pública (interna e internacional), preparando-se para atuar fora das fronteiras nacionais, com capacidade de mobilizar recursos, gozar de alguma autonomia e ter a credibilidade indispensável para interlocução com diferentes contrapartes.

A diplomacia cidadã prova que a noção monolítica e ambígua de interesse nacional está errada: vários interesses são expressos dentro e fora dos países e podem ser fortalecidos ou fragilizados. Nesse sentido, é essencial entender a configuração e o alcance da economia política em vigor em cada país. Também confirma que as relações assimétricas de poder entre as nações podem ser compensadas, de alguma forma, por cidadãos mobilizados e ativos que complementam a diplomacia tradicional e aumentam a capacidade de manobra dos mais fracos.

Uma diplomacia cidadã de sucesso é aquela que estabelece redes e coalizões além das fronteiras, cria fortes interdependências sociais no exterior, influencia a opinião pública dentro e fora do país, expande os laços de cooperação com seus colegas de outras nações e contribui para reconstruir e/ou melhorar os vínculos entre Estados.

Hoje, a Argentina precisa talvez mais do que nunca que uma diplomacia cidadã renovada seja implantada com o Brasil. Políticos, empresários, trabalhadores, cientistas, ONGs, jovens, mulheres, universidades, comunicadores poderiam se organizar de maneira mais doméstica e se projetar bilateralmente para contribuir com o fortalecimento de laços binacionais. É uma prioridade entender o escopo do que está em jogo no presente e no futuro das relações entre a Argentina e o Brasil. E nessa direção, o governo argentino deve se comprometer a apoiar significativamente as tentativas de atualizar e aumentar a diplomacia cidadã. Só a diplomacia convencional já não é suficiente para regenerar uma cultura de amizade entre brasileiros e argentinos.

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