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Enquanto dois papas divergem em Roma, a igreja evangélica vence na América Latina

Enquanto as divergências ideológicas entre os dois papas estão em disputa, o evangelicalismo na região continua crescendo, usando a falta de posicionamento claro e unificado dentro do catolicismo para atrair novos seguidores. Español English

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16 January 2020
Papa Bento XVI e Papa Francisco durante a final da Copa do Mundo de 2014 entre Argentina e Alemanha.
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Há poucas semanas, tornou-se público que o Papa Emérito Bento XVI (92 anos) deveria aparecer como co-autor de um livro onde ele advoga, com paixão conservadora e fervor religioso, a prática do celibato dentro da igreja católica.

A doutrina defende que a vida familiar e a vida de sacerdote são incompatíveis por natureza. A ideia por trás do celibato é o conceito divino de amor, que argumenta que a dedicação a Deus combinada com o compromisso altruísta de amar a todos igualmente nunca deve criar um espaço que permita que as relações sexuais ocorram.

Mas essa postura conservadora de Bento XVI (cujo nome secular é Joseph Ratzinger) se choca com a do Sínodo para a Amazônia, convocada pelo próprio Vaticano, onde foi aberta a porta para o não celibato de padres em partes remotas do mundo.

Bento XVI tornou-se Papa emérito após renunciar à sua posição devido a "falta de força" em 2013, aos 85 anos de idade. Na época, ele se comprometeu a não se envolver nos processos de tomada de decisão do novo Papa, Francisco, conhecido por suas posições mais progressistas.

Bento, talvez surpreso com a controvérsia causada pelas notícias, alguns dias depois solicitou que seu nome fosse removido do livro, mas isso não divergiu a atenção das divergências que existem entre ele e o Papa Francisco.

Parece que o livro foi uma reação aos pedidos do Sínodo da Amazônia para autorizar a ordenação de homens casados ​​como sacerdotes, uma vez que não há homens solteiros suficientes que se tornem sacerdotes para celebrar a missa.

Embora sua participação no texto demonstre que Bento XVI ainda não está pronto para entrar em segundo plano, sua retirada da autoria mostra que ele é consistente com seu compromisso de não expressar suas divergências com seu sucessor tão publicamente.

Mas enquanto as divergências ideológicas entre os dois papas estão em disputa, o evangelicalismo na região continua crescendo e se aproveitando da falta de uma posição clara e unida dentro do catolicismo para atrair novos seguidores. As igrejas evangélicas também têm a vantagem competitiva de formar pastores com homens casados, o que o Papa Francisco quer combater.

Neste editorial, vamos discutir os antecedentes do conflito entre Francisco e Bento, e como ele alimenta ainda mais o evangelicalismo, seu rival religioso direto.

Tensões entre dois papas

O cenário de dois papas vivos convivendo lado a lado não tem precedentes há pelo menos centenas de anos na Igreja Católica, e as tensões entre Francisco e Bento XVI não são novidade.

Uma das posições do Papa Francisco que mais criou um conflito ideológico entre os dois foi a relativa abertura para a comunidade LGBTI

Os conflitos começaram a aparecer quando Francisco subiu ao trono de São Pedro quase sete anos atrás. Uma das posições de Francisco que mais criou um divergência ideológica entre os dois foi sua relativa abertura para a comunidade LGBTI, que foi recebida com a rejeição por Bento, que considera a sodomia um pecado. O ex-Papa chegou a expressar que a homossexualidade “representa uma ameaça para a paz mundial”.

Esse conflito começou com uma entrevista de 2013 publicada pela America Magazine, em que Francisco afirmou não condenar os gays e insistiu que eles são seres humanos iguais a todos.

Anos depois, ele declarou em outra entrevista que a Igreja Católica poderia estar aberta ao casamento homoafetivo, mesmo se a posição da Igreja de que o casamento geralmente é entre um homem e uma mulher seja reconhecida. Segundo Francisco, a Igreja deve avaliar essa possibilidade caso a caso.

Também existem profundas divergências sobre os escândalos generalizados de pedofilia e abuso sexual entre padres da Igreja Católica. A decisão de Francisco, no ano passado, de abolir a lei do silêncio contrasta com a abordagem de seu antecessor, que quase sempre promoveu confidencialidade absoluta sobre esse assunto terrível com o argumento de proteger a reputação da Igreja.

A decisão de Francisco implica que agora a Igreja Católica pode colaborar com autoridades civis na investigação de casos de abuso sexual e fornecer informações a promotores e juízes, algo que eles não podiam fazer antes. A nova medida procura evitar a impunidade dos padres culpados de abuso sexual e pôr fim à política da Igreja de tolerar e encobrir esses casos.

No entanto, a postura de Bento a de negar qualquer responsabilidade por ter tolerado esses atos, culpando a existência de uma certa homossexualidade enrustida dentro da Igreja pelo escândalo de abuso. Em nenhum momento o Papa Emérito apoiou a abolição da política de confidencialidade defendida por Francisco.

Evangelicalismo na região

Enquanto esse conflito se desenrola nas fileiras mais altas da Igreja Católica, o evangelicalismo está vendo uma oportunidade para atrair novos seguidores, confusos e cansados da falta de consenso moral que esses embates exibem.

O evangelicalismo, em suas muitas manifestações, é hoje a força religiosa mais poderosa da América Latina

O evangelicalismo, em suas muitas manifestações, é atualmente a força religiosa mais poderosa da América Latina. As igrejas evangélicas ainda têm capacidade e dinheiro para influenciar as eleições na região. Segundo o historiador Andrew Chesnut, "a forte influência dos evangélicos em ascensão é uma das principais tendências da política atual nas Américas".

No Brasil, 22,2% da população se identificava como evangélica em 2012, comparada 5% na década de 70. Na ausência de estatísticas confiáveis mais atualizadas, todos os indicadores apontam para o fato de que esse número aumentará significativamente nos últimos anos.

Alguns cientistas políticos chegaram a sugerir que o voto evangélico influenciou a vitória de Bolsonaro, um evangélico convertido, nas eleições presidenciais de 2018.

Em troca, Bolsonaro até nomeou uma pastora evangélica, Damares Alves, como Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos como membro de seu governo. Hoje, a chamado “bancada evangélica” no Congresso em Brasília é maior e mais poderoso do que nunca.

No México, o partido evangélico Encuentro Social conseguiu criar uma aliança eleitoral com o atual presidente, Andrés Manuel López Obrador, obtendo seu maior número de cadeiras no Congresso em sua história. Na Bolívia, com Jeanine Áñez substituindo Evo Morales de maneira fraudulenta, a política evangélica de direita ganhou uma força incomum.

Áñez chegou a acusar os indígenas de adoração a Satanás e celebrou com entusiasmo o "retorno da Bíblia ao governo". Na Guatemala, o ex-presidente Jimmy Morales se identifica abertamente como evangélico e seu sucessor, Alejandro Giammettei, mantém muitos laços com a comunidade evangélica.

Sem dúvida, os evangélicos da região estão felizes com a existência de um conflito ideológico dentro da Igreja Católica que está ajudando a enfraquecer seu maior rival religioso na região. No entanto, o catolicismo ainda permanece hegemônico e é a religião oficial de todos os países da América Latina. Em todos os países, exceto Guatemala e Honduras, mais de 60% ainda se identificam como católicos.

Parece que a ideia de ter dois papas vivos não resultou como esperado, o que impede a Igreja Católica de recuperar a iniciativa nesse cenário de enorme competição pelas almas latino-americanas. Parece que o papa argentino sabe disso muito bem, mas em Roma os caminhos do Senhor são inescrutáveis.

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