democraciaAbierta: Opinion

Para Donald Trump, sua derrota será uma fake news

Trump ameaça rejeitar uma possível derrota e contestar os resultados. Essa é a principal ameaça frente às eleições de hoje.

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Francesc Badia i Dalmases
3 November 2020
Presidente Donald Trump, transportado de helicóptero para o Hospital Walter Reed em Bethesda, Maryland, em 2 de outubro de 2020. Captura de tela da cobertura da MSNBC
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© Msnbc/ZUMA Wire

"O súdito ideal do governo totalitário não é o nazi convicto ou o comunista convicto, mas pessoas para quem a distinção entre fato e ficção e a distinção entre o verdadeiro e o falso já não existem mais."

Hanna Arednt, As origens do totalitarismo

Donald Trump se conecta emocionalmente com uma parte importante dos americanos porque ele parece autêntico, real para eles. Ele se parece com o que eles são. Se você lhes perguntar, muitos dirão que, por ser um homem de negócios, ele diz a verdade, ao contrário dos políticos, que sempre dizem mentiras. Ele diz o que pensa, ele é honesto, dizem eles. E Trump grita em seus comícios: "Olhe para aqueles políticos mentirosos e corruptos. Eu não sou como eles. Eu não sou um político e vocês sabem disso".

E é sobre este ataque direto à política e sobre a morte da verdade que ele construiu seu legado populista, que se resume a isso: "Diga-lhes o que eles querem ouvir e depois faça o que é melhor para você e seus negócios". Essa é a ética empresarial inescrupulosa e individualista compartilhada por tantos de seus compatriotas. Os Estados Unidos não são uma nação, são um negócio, eles pensam. É nisso que concordam com Trump.

Assim, sua presidência vem baseando-se não em governar, ou seja, em buscar as soluções mais favoráveis e duradouras para o maior número de pessoas, mas em fechar negócios. É um jogo de soma zero: nós ganhamos, eles perdem. Sua foto favorita é aquela em que ele exibe orgulhosamente um contrato (geralmente um decreto) com sua ornamental assinatura estampada, rodeado pelos sorridentes e satisfeitos beneficiários do negócio, principalmente lobistas de todos os tipos, que prosperam bajulando o presidente.

Manipular a realidade

Desde o início, Trump construiu sua presidência sobre a manipulação da realidade que não lhe convém, ou que simplesmente não o satisfaz. Ele começou sua carreira política teorizando que o ex-presidente Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos e, portanto, era um presidente ilegítimo. Ele foi tão insistente que Obama foi forçado a mostrar publicamente sua certidão de nascimento. Mas Trump nunca se retificou.

E assim, embora fosse bastante evidente que na sua festa de posse havia muito menos gente do que na de Obama, ele determinou que isso era humilhante e, portanto, não era verdade. Ele estava respondendo a uma construção da mídia hostil, fabricantes de notícias falsas, como ele repetiu incessantemente durante estes quatro anos. Seu porta-voz afirmou que a mídia mentiu sobre quantas pessoas participaram da inauguração e que eles, a Casa Branca, tinham "fatos alternativos". Não importa se a realidade científica prova o contrário. O pesadelo de George Orwell virou realidade.

Como a crítica literária do New York Times Michiko Kakutani apontou recentemente em seu livro "A Morte da verdade", na distopia descrita no romance "1984", a palavra 'ciência' não existe porque o método do pensamento empírico, no qual todos os avanços científicos do passado se baseiam, representa uma realidade objetiva que ameaça o poder do Big Brother de determinar o que é verdadeiro e o que não é.

Assim, toda sua presidência tem girado em torno de desacreditar a verdade quando esta não se ajusta a seu interesse. Seu método é atacar sistematicamente a mídia não alinhada a ele e construir os fatos alternativos que se encaixam em sua retórica. É por isso que Trump agora ameaça rejeitar uma possível derrota e desafiar os resultados. Essa é a maior ameaça das eleições de hoje.

Famoso pelo bordão "Você está demitido," Trump confunde poder político com o poder de demitir pessoas e não concebe nenhum cenário em que alguém possa demiti-lo

Ontologicamente, Trump não pode perder. Para ele, essa realidade é inconcebível. Ele não pode ser expulso da Casa Branca. É preciso entender a psicologia do personagem. Ele construiu sua imensa popularidade no programa de televisão "O Aprendiz", no qual ficou conhecido pelo bordão: "Você está demitido". Trump confunde poder político com o poder de demitir pessoas e não concebe nenhum cenário em que alguém possa demiti-lo. É por isso que é tão perigoso para a democracia, é por isso que ameaça declarar-se vitorioso, seja qual for o resultado das eleições de hoje.

Desafiar a verdade

Em todo caso, enfrentamos a possibilidade de mais quatro anos de Trump na presidência, tanto no caso de ganhar as eleições ou de impor uma vitória à força. As pesquisas (e apostas) dizem que é difícil, mas não impossível. Se, como parece mais provável, Biden ganhar confortavelmente, é muito possível que Trump grite fraude (ele vem preparando esse argumento há meses). Nesse caso, assistiremos ao perigoso espetáculo de um Trump que se recusa a sair da Casa Branca, gritando como uma criança histérica que não quer obedecer aos pais.

A evolução da política na democracia norte-americana sofreu reveses importantes nos últimos anos, mas nenhum como o da presidência de Trump. Nos últimos quatro anos, testemunhamos a implosão da unidade comum, em que o consenso é tecido sobre os valores e princípios que devem reger uma sociedade aberta e a separação de poderes que a democracia liberal deve garantir na prática.

O ataque à verdade tem sido fulminante, enquanto o espetáculo político, um em que o ator principal ocupa quase toda a tela quase o tempo todo, apresenta uma imitação histriônica do Big Brother de Orwell. O show de sua chegada à Casa Branca de helicóptero, depois de se internar em um hospital militar para tratamento da Covid-19, entrará para a história dos espetáculos de propaganda.

Quando o populismo mais despótico se instala na cadeira mais poderosa do mundo, somente a rebelião da própria realidade pode destituí-lo. E essa realidade, hoje, se chama Covid-19

Sua resistência em abandonar a tela e ocupar toda a esfera pública através do barulho, da propaganda e da compulsão pelo Twitter, onde promove mentiras, confrontos e violência, remete ao pior pesadelo dos anos 30.

Mas fazê-lo, além disso, não através da política, mas da antipolítica, é a contribuição mais tóxica do trumpismo vivida nos últimos quatro anos. A fórmula utilizada consiste em posicionar-se sistematicamente contra as instituições democráticas e atacá-las quando estas não jogam o jogo do engano e da manipulação que favorece a posição do chefe de Estado. Assim, os últimos episódios deste perigoso melodrama incluem os ataques a Anthony Fauci, principal assessor do governo sobre a pandemia, por dizer que o coronavírus está fora do controle no país, ou ao tribunal que validou 127 mil votos no Texas, lançados por cidadãos assustados pela Covid-19 que preferiram votar sem sair de casa.

"Estou aqui para curar os terríveis danos causados a este país por Obama e Biden", prega Trump em seus comícios. Lá ele se apresenta como o "salvador" da América, que realizou verdadeiros milagres em seus três anos e dez meses de presidência, e que agora vem para nos salvar do socialismo.

Somente o maldito vírus, "enviado pelos chineses", que infectou 9 milhões de americanos e matou mais de 230 mil, foi capaz de estragar a verdade da melhor presidência da história dos Estados Unidos.

Quando o populismo mais despótico, baseado no desafio sistemático da verdade, se instala na cadeira mais poderosa do mundo, somente a rebelião da própria realidade pode destituí-lo. E essa realidade, hoje, se chama Covid-19.

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