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Drag “cholita” usa arte para enfrentar a exclusão na periferia da Argentina

Com Bartolina Xixa, a personagem andina “drag folk”, Maximiliano Mamaní luta contra desafios de estereótipos de gênero e folclore na periferia argentina.

Romina Navarro
9 July 2019
Richard B. Levine/SIPA USA/PA Images.

No meio de um grande lixão cercado de neblina, uma figura de saia rosa pastel e longas tranças dança uma vidala, uma forma de poesia tradicional acompanhada de música típica do folclore argentino.

É Bartolina Xixa, a personagem andina “drag folk” criada por Maximiliano Mamaní, que reavalia o folclore do norte argentino a partir de uma perspectiva de gênero e busca a descolonização com foco nos povos indígenas.

Em seu trabalho mais recente, “Ramita Seca, la colonialidad permanente”, o artista escolheu a locação ao ar livre de Hornillos, localizada na Quebrada de Humahuaca, uma região declarada Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade pela UNESCO em 2003.

A vidala tem muitos simbolismos. Composta pela cantora e compositora Aldana Bello, a letra aborda o tema da exploração mineira e as atrocidades perpetradas contra as comunidades indígenas:

Esta vidala que canto / Sangra de tristeza e dor / As injustiças dos séculos / Seguem de pé e com ardor […] Na zona andina há mineradoras / Elas poluem sonhos / A água, a terra e tudo / o que anda ao seu redor.

Mamaní nasceu em Jujuy, localizada no extremo noroeste da Argentina, e cresceu na região vizinha de Salta. Ele estudou antropologia na Universidade Nacional de Salta e trabalha como professor de dança folclórica.

Com Bartolina Xixa, Mamaní desafia estereótipos encontrados na arte popular, em que os papéis de gênero perpetuam estruturas binárias que deixam de fora uma gama de identidades. Como Mamaní aponta em uma entrevista ao site argentino VOS:

Faço danças folclóricas argentinas, peruanas e bolivianas. Eu gosto de música popular, é por isso que eu senti a necessidade de refletir sobre o folclore e pensar que a mim, como gay, foi negada a oportunidade de me mostrar quando se trata de construir uma coreografia e ter um parceiro de dança.

E acrescenta: "Percebi que a mesma coisa acontece com muitas pessoas porque o folclore é pensado a partir de uma lógica heterossexual. Certos atributos são dados aos homens, os gaúchos [por exemplo], como força, firmeza e cortejo. Ele é quem conduz. As mulheres, entretanto, são submissas, complacentes".

Uma homenagem a uma heroína aimara

Os questionamentos sociais de Mamaní não se limitam ao mundo do folclore, eles também falam sobre as tendências que dominam a estética global com as quais a “drag” é abordada, uma estética na qual o artista diz estar ligada aos estereótipos das noções de feminino do ocidente.

Sua personagem “drag” é um desvio dessa tendência: inspirada por Bartolina Sisa Vargas, uma líder aimara que se rebelou contra o Império espanhol e posteriormente foi capturada, torturada e assassinada em La Paz, na Bolívia, em 1782, Mamaní presta homenagem a essa mulher andina, a cholita, “uma mulher trabalhadora, chefe de família, que sai para o trabalho todos os dias e tem laços com a família, a comunidade, os antepassados e as tradições”.

Em um episódio do podcast “Relatos Disidentes”, do portal de Salta, VóVè, Mamaní descreve sua personagem: "Eu costumo dizer que empresto meu corpo para Bartolina Xixa. [Uma personagem que] nasceu da urgência de poder pensar em outras formas de fazer folclore, outra forma de entender identidades que cruzam minha própria experiência e que atravessam a experiência de todo um grupo".

Desafiando a construção da masculinidade argentina e a “norma LGBT”

O ativismo e a militância de Mamaní atraem as redes sociais – especialmente Facebook e Instagram – por meio das quais transmitem mensagens provocativas. O melhor exemplo é uma postagem no Facebook que ficou conhecida como o “beijo gay”, e que se tornou viral em novembro de 2018.

O post foi compartilhado durante a partida de futebol entre Boca Juniors e River Plate, com imagens de Mamaní beijando outro homem em frente ao convento San Bernardo, em Salta, enquanto usavam as camisas das equipes rivais e com os dizeres “O Superclássico Beijo Gay”.

Um trecho do texto no post diz: "O superclássico Beijo Gay. Somos negros, somos das favelas, somos do interior da Argentina, somos pobres, não somos o estereótipo de um corpo esguio, somos rostos negados pela colonialismo. Somos gays, empoderados e subalternos, longe do gay ‘clássico’ estereotipado […] Vivemos nossa vida nos espaços e nas memórias que são sempre silenciados pela norma hétero e pela norma LGBT […] Um clássico argentino não é um BOCA contra RIVER, um clássico argentino é ver como nos estigmatizam, nos insultam, nos expulsam, nos odeiam, nos matam".

O post recebeu muitos comentários e todos tipos de reações de apoio, rejeição, ridicularização, admiração, amor e ódio dos usuários. A Global Voices falou com Mamaní sobre o post via WhatsApp:

Uma coisa interessante foi ver como nos atacaram dizendo que não éramos argentinos […] O que estavam tentando dizer é que o rosto da Argentina é branco, é heterossexual, e não tem características negras ou indígenas, nem tem diversidade sexual.

Mamaní reconheceu que é cauteloso quando publica nas redes sociais, ciente de como fica exposto a ataques e intolerâncias. Mas não permite que ataques e críticas negativas interfiram em seu objetivo principal de divulgar o trabalho artístico através de sua personagem drag, Bartolina, no espírito do ativismo ambiental, social, político e de gênero.

Ele também enfatizou como, dentro das chamadas comunidades de drag queens e LGBTQ na Argentina, ele é constantemente questionando por sua maneira de expressar a diversidade a partir de uma “perspectiva periférica”, de escolher como personagem um ícone estético da cultura indígena boliviana: "Não é o mesmo ser um gay branco de uma cidade do que um gay de pele morena, com um corpo fora dos padrões [segundo os padrões de beleza dominantes], com rosto indígena, que vive em uma comunidade distante de toda a cultura capitalista. [Ser] gay, pobre, da classe trabalhadora… tudo isso diferencia as construções".

Este artigo foi originalmente publicado em Global Voices. Para ver o conteúdo original, clique aqui.

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