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O dragão chinês avança sobre a América Latina

Enquanto cresce a tensão entre os Estados Unidos e a China, em uma guerra comercial e hegemônica, as relações da potência asiática com a América Latina passam pelo momento mais crítico da história.

Miguel González Palacios
13 November 2020
Caminhões basculantes transportam minério na mina de Toromocho, nos Andes centrais do Peru, em 15 de julho de 2015 . A mina de cobre a céu aberto pertence e é operada pela Aluminium Corporation of China
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Tim Johnson/McClatchy/TNS/SIPA USA/PA Images

Parte da batalha geopolítica e econômica há muito travada entre os Estados Unidos e a República Popular da China se aproxima, silenciosamente, da América Latina, onde a potência asiática parece ganhar espaço a cada dia.

A China já é o principal parceiro comercial de todos os países da América Latina, com exceção do México, Colômbia e Venezuela, enquanto suas empresas estatais têm em suas mãos as obras de infraestrutura mais estratégicas para os países da região, tais como o metrô de Bogotá.

A pandemia de Covid-19 ofereceu uma oportunidade para a China consolidar ainda mais sua influência global, através da assistência técnica e sanitária aos países em desenvolvimento na luta contra a doença, à qual também prometeu condições favoráveis para o acesso à vacina desenvolvida por seus laboratórios.

A aproximação entre essas duas regiões começou há 50 anos, motivada pelo reconhecimento diplomático do governo de Pequim como representante legítimo da China na ONU, lugar previamente ocupado pelo governo nacionalista exilado em Taiwan.

Com a morte de Mao Tse Tung, líder da revolução comunista e fundador da República Popular da China, e a chegada ao poder de Deng Xiaoping em 1979, o país asiático embarcou em um processo de modernização e abertura econômica que lhe permitiu aderir, 20 anos depois, à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Seu reconhecimento como economia de mercado foi a base para a China assinar acordos de livre comércio com vários países do mundo, incluindo o Chile (2006), Peru (2009) e Costa Rica (2010), e entrar no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como um membro não-mutuário, em 2009.

Além disso, a "guinada à esquerda" de grande parte da América Latina no começo do século foi o clima político propício para a China assegurar seus interesses estratégicos, fortalecendo seus laços com governos interessados em contrabalançar a influência dos Estados Unidos no hemisfério.

Essa relação tomou principalmente a forma de acordos de cooperação bilateral, embora também tenha incluído a criação de espaços de diálogo multilateral, como o Fórum China-CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), fundado em 2015.

Essa nova versão da Nova Rota da Seda se estende para a América Latina e já conta com a adesão oficial de 19 países da América Latina e e do Caribe

A nova rota da seda

"É hora de assumirmos o centro do cenário mundial e dar uma contribuição maior à humanidade", disse o presidente chinês Xi Jinping no discurso de posse de seu segundo mandato presidencial, em outubro de 2017.

A estratégia central de Pequim para cumprir essa missão é a Iniciativa do Cinturão e Rota, popularmente conhecida como a Nova Rota da Seda, lançada pelo próprio Xi Jinping, em 2013, para consolidar a influência econômica, política e militar de seus país por meio da construção de redes de infraestrutura terrestre e marítima que melhoram a conexão da China com o resto do mundo.

O nome se refere às rotas comerciais que durante séculos articularam a troca de bens e ideias entre a Ásia, a Europa e o Norte da África. Esta nova versão se estende para a América Latina e já conta com a adesão oficial de 19 países da América Latina e e do Caribe.

Seu principal músculo financeiro é o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), criado em 2014 como alternativa de financiamento multilateral aos esquemas globais tradicionais como o FMI e o Banco Mundial, dos quais o Equador participa desde 2019 e o Uruguai desde abril deste ano.

O sucesso da candidatura da China para se tornar o principal investidor na América Latina se deve em grande parte ao fato de que seus empréstimos não estarem condicionados ao tipo de governo ou à implementação de reformas por parte do país beneficiário. Isso repercutiu nos países da região, acostumados com o financiamento internacional e até mesmo com a aprovação de acordos de livre comércio em função de reformas econômicas e compromissos políticos.

A nova frente de avanço da China no hemisfério é a Argentina, terceira maior economia da região, após a volta ao poder do Partido Justicialista, aliado histórico do Partido Comunista Chinês. O presidente Alberto Fernández já manifestou interesse em ver o país formalmente ingressar na Iniciativa do Cinturão e Rota e no BAII, e em aprofundar os laços da China com a região por meio de sua liderança na CELAC.

A América Latina pode sair mais forte da luta de poder entre a China e os Estados Unidos, pois pode ajudar a equilibrar a dependência histórica da região em relação a Washington

A contra-ofensiva de Washington

Apesar das políticas isolacionistas do presidente Donald Trump, os Estados Unidos resistem à ideia de ceder seu "quintal" à superpotência asiática.

Para tanto, lançou no final de 2019 o América Cresce (América Crece, em espanhol), estratégia de fundos governamentais voltada para promover o investimento privado em projetos de infraestrutura na América Latina, que já conta com a adesão de 14 países e tem sido descrita comoUma Nova doutrina Monroe para manter a região como uma área de influência exclusiva dos EUA.

Da mesma forma, o governo Trump tem usado o poder de seu país para fazer com que os governos do hemisfério se alinhem com sua agenda política global e neutralizem o efeito dos investimentos chineses por meio de bancos multilaterais, como ficou claro com a eleição, em setembro, de seu assessor, Mauricio Claver-Carone, como novo diretor do BID.

E embora a eleição presidencial de 3 de novembro possa mudar a política externa dos EUA, a posição do democrata Joe Biden não parece muito diferente quando se trata da China. É o que sugere um dos slogans de sua campanha, "Made in all of America", com o qual promete diminuir a dependência de seu país da produção industrial do gigante asiático.

Uma oportunidade para a América Latina

A América Latina pode sair mais forte da luta de poder entre a China e os Estados Unidos, pois a entrada da potência asiática no xadrez multilateral pode ajudar a equilibrar a dependência histórica da região em relação a Washington.

Neste cenário triangular, os países latino-americanos podem fazer pender o equilíbrio a seu favor se conseguirem enfrentar com sucesso o desafio de manter uma relação equilibrada entre as duas potências. Mas será difícil, porque a agenda da China, que desempenha um papel de muito longo prazo, envolve garantir o fornecimento de matérias-primas e alimentos não apenas através de importações, mas também através de empréstimos aos governos e a compra de terras. A hegemonia chinesa já começa a ser sentida em alguns mercados de commodities, e sua resistência a operar sob as regras estabelecidas pela comunidade internacional, somada à natureza autoritária de seu regime político, implica não poucos riscos geopolíticos.

Neste cenário, os efeitos da Covid-19 e da guerra comercial entre Washington e Pequim sobre a economia mundial estão levando à regionalização das cadeias produtivas, o que representa uma oportunidade para a América Latina substituir a China como centro de exportação de bens e serviços para os Estados Unidos, mas também poderia estimular o comércio entre os países da região.

Mas para que a América Latina se sente à mesa e deixe de fazer parte do cardápio das grandes potências, é indispensável que os países da América Latina e do Caribe assumam uma posição conjunta, que permita um maior poder de negociação em espaços multilaterais e melhore a competitividade da região de forma equitativa. Mas também para evitar o pior cenário possível: uma região ainda mais fragmentada pela competição entre as potências mundiais.

Ter como principal parceiro comercial e financeiro não a principal potência democrática do mundo (apesar da crise que os EUA estão atravessando atualmente), mas um regime autoritário implica estar vigilante. Por trás da luva de seda chinesa pode estar escondido um punho de ferro, que pode aparecer se a crise econômica devastadora que a pandemia traz consigo deteriorar ainda mais as relações entre ambas as potências e elas decidirem transferir parte de sua guerra para a região.

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