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Eleições na Bolívia: outro mandato de Evo Morales?

Com ou sem uma vitória do presidente socialista carismático, mas cada vez mais isolado e criticado, a Bolívia enfrenta muita incerteza. Español English

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18 October 2019
19 de julho de 2019, Bolívia, La Paz: Evo Morales, presidente da Bolívia, com uma multidão na frente do Supremo Tribunal Eleitoral.
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Gaston Brito/DPA/PA Images. Todos os direitos reservados.

Com alguns altos e baixos, reviravoltas e contradições, a Bolívia prosperou sob o comando de Evo Morales. Mas isso quer dizer que ele deveria governar pela quarta vez? Com ou sem uma vitória do presidente socialista carismático, mas cada vez mais isolado e criticado, a Bolívia enfrenta muita incerteza.

O cenário econômico está mudando. A popularidade de Morales está em declínio devido a uma série de decisões antidemocráticas e à falta de apoio nos países vizinhos. Um possível quarto mandato presidencial dificilmente seria tão forte quanto os anteriores.

Seu oponente mais forte, Carlos Mesa, também está longe de ser o perfil ideal. Tendo presidido acidentalmente o país por um curto período de tempo após a renúncia do presidente eleito, ele também foi forçado a renunciar em meio a uma crescente crise social. A chance é quase certa de que desses desafios que ele enfrentou voltarão a assombrá-lo.

A princípio deste ano, a opinião popular indicava que Morales estava caminhando em direção à saída. Mas agora, poucos dias antes do primeiro turno das eleições, o primeiro presidente indígena da Bolívia está ganhando força novamente

A princípio deste ano, a opinião popular indicava que Morales estava caminhando em direção à saída. Mas agora, poucos dias antes do primeiro turno das eleições, o primeiro presidente indígena da Bolívia está ganhando força novamente.

A popularidade de Morales sofreu um baque quando ele decidiu disputar um quarto mandato legalmente questionável, quando 51% dos bolivianos votaram contra sua reforma constitucional durante um referendo em 2016. No entanto, o tempo passou e as pessoas superaram sua raiva inicial, pois novas pesquisas indicam que ele é o favorito para vencer ainda no primeiro turno.

Segundo pesquisas recentes, Morales lidera com mais de 40% dos votos por uma diferença de 10 pontos em relação a Mesa. Se isso se concretizar, como sugerem as pesquisas, Morales vencerá no primeiro turno e evitará um possível segundo turno em dezembro.

Mas as pesquisas são voláteis e pouco confiáveis e os dois candidatos ainda podem se enfrentar no final do ano. Os resultados são complicados de qualquer maneira.

Morales e a ameaça aos valores democráticos

Com quase 14 anos no cargo, Morales é o presidente com o mandato mais longo da história da Bolívia. Além disso, seu partido, Movimento para o Socialismo, controla todos os poderes do governo, bem como uma parcela significativa da mídia boliviana.

Em 2016, ele tentou reescrever a Constituição do país para permitir sua candidatura pela quarta vez. Diante de críticas intensas, ele colocou sua decisão à prova popular, realizando um referendo no mesmo ano. Os bolivianos rejeitaram seu pedido, com 51,3% dos votos contra sua proposta.

Em vez de aceitar a derrota, ele foi ao tribunal superior do país para buscar a validação legal de sua decisão. E ele conseguiu. A corte, repleta de aliados de Morales, decidiu que, se deixado de fora das eleições, os direitos humanos de Morales seriam violados.

Mas nada disso choca a nós, latino-americanos. Nossos líderes não têm medo de quebrar a tradição democrática, em parte porque os latino-americanos têm pouca fé na democracia

Mas nada disso choca a nós, latino-americanos. Nossos líderes não têm medo de quebrar a tradição democrática, em parte porque os latino-americanos têm pouca fé na democracia. Estudos mostram que menos da metade dos latino-americanos é a favor da democracia. A mesma pesquisa mostra que menos de um quarto está satisfeito com o que a democracia conquistou em seus países.

Assim, embora a atitude de Morales possa ser má notícia para a democracia, provavelmente não importará muito para os que irão às urnas nesses ciclo eleitoral.

Nossos desafios para Morales

A economia da região perdeu força nos últimos anos. A arrecadação de petróleo e gás está em queda e a dívida pública da Bolívia chega a níveis recordes. Esse cenário indica que Morales terá que mudar sua abordagem em relação à economia, o que poderia afetar sua leal base.

O déficit fiscal do país é de 7,8% e o déficit comercial é de 4%. As exportações de gás natural para o Brasil diminuíram diante da queda dos preços de mercado. Além disso, o país não conseguiu produzir gasolina a partir do gás extraído de forma eficiente, o que levou ao aumento das importações de gasolina, que são vendidas no mercado interno pela metade do preço. Esses pesados subsídios, com o atual déficit fiscal, tendem a se tornar mais difíceis de financiar, e Morales pode se achar em uma posição delicada, pois a retirada dos subsídios à gasolina é improvável, principalmente depois do que testemunhamos recentemente no Equador.

Alguns temem que a Bolívia se transforme em outra Venezuela em caso de crise

Parte da popularidade de Morales se deve ao seu sucesso com a economia do país. Durante seus 13 anos de governo, a Bolívia passou por um período notável de crescimento econômico. A presidência de Morales é, também, marcada por uma impressionante redução nas taxas de pobreza. Hoje, 17% dos bolivianos vivem em extrema pobreza, um nível bem abaixo dos 38% de antes dos socialistas assumirem o controle. A desigualdade diminuiu drasticamente: enquanto os 10% mais ricos da Bolívia costumavam ganhar 128 vezes mais do que os 10% mais pobres, hoje em dia eles ganham 38 vezes mais.

Uma nova crise econômica provavelmente atrasará a Bolívia. No entanto, o PIB da Bolívia cresceu 4,2% no ano passado e o Banco Mundial estima que crescerá outros 4% este ano. Nesse contexto, é improvável que riscos econômicos distantes e incertos incomodem os eleitores.

Uma nova Venezuela?

Alguns temem que a Bolívia se transforme em outra Venezuela em caso de crise. Isso é altamente improvável. Morales não é Nicolás Maduro, nem Hugo Chávez. Seus críticos argumentam que os sucessos econômicos de Morales são em grande parte consequência do impressionante boom das commodities durante grande parte da década passada. E isso é verdade, mas não é toda a verdade. Além de que as maneiras como um líder pode gerenciar (ou não) suas boas fortunas são infinitas.

A Venezuela também viveu o mesmo boom nos preços das commodities. E, em grande medida, a vantagem da Venezuela era ainda maior que a da Bolívia. Enquanto a arrecadação de exportação da Bolívia subiu de US$ 2,2 bilhões antes da eleição de Morales para US$ 12,9 bilhões no auge do boom, a Venezuela passou de US$ 23 bilhões antes do boom do petróleo para US$ 153 bilhões no auge.

A maneira como os líderes do país lidaram com suas respectivas "sortes" pode ser vista e sentida na economia e no desenvolvimento (ou falta dela) que estão deixando para trás. Considerando o abismo de diferença entre os dois países, é difícil argumentar que outros quatro anos de Morales levariam à catástrofe que os líderes venezuelanos desencadearam. Ao fim ao cabo, a Venezuela ocupa uma posição geoestratégica, enquanto a Bolívia está na periferia.

Os velhos desafios de Mesa

O candidato Carlos Mesa teria que enfrentar os mesmos desafios econômicos. Suas chances de lidar com eles podem ser ainda mais difíceis, considerando seus problemas passados.

Mesa foi presidente da Bolívia entre 2003 e 2005, depois de herdar o título de Gonzalo Sánchez de Lozada, que renunciou durante a amarga Guerra do Gás na Bolívia. A mesma onda de manifestações intensas que forçou Sánchez do poder tomou as ruas novamente em 2005, acusando Mesa de se curvar aos interesses corporativos dos EUA. Ele renunciou em junho daquele ano.

Além da nova realidade econômica, Mesa certamente enfrentaria os movimentos sociais do país, historicamente altamente organizados e ativos na Bolívia. Essas são as mesmas bases sociais que vêm elegendo Morales, e as mesmas pessoas que forçaram Mesa a sair do poder uma vez. É improvável que façam sua vida fácil dessa vez.

Qualquer que seja o resultado, as eleições na Bolívia reabrirão certas feridas. Morales caiu na mesma armadilha que outros líderes da Onda Rosa, que também não conseguiram criar uma frente coesa que pudesse garantir a continuidade de seu projeto.

Em vez disso, Morales criou mais do mesmo: um movimento vertical com raízes frágeis, totalmente dependentes de um único indivíduo e pesados ​​subsídios. Se os casos do Brasil e da Venezuela são alguma indicação, deveríamos ter aprendido que o culto à personalidade, um pecado tão comum na esquerda latino-americana, tende a ricochetear na direção oposta.

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