Transformation: Opinion

A esquerda é responsável pela política da pós-verdade?

Abraçar o relativismo é desastroso; é uma das razões pelas quais temos governos de idiotas orgulhosos de sua idiotice.

Bob Brecher
2 October 2020
Pixabay/Open Clipart Vectors. Pixabay licence.

Ao ouvir os relatos do último fracasso do governo britânico em torno das notas de exame da A-Level, GCSE e BTEC, fico impressionado com a forma como continuamos nos surpreendendo com a extraordinária incompetência de Boris Johnson e seus colegas – e sua igualmente extraordinária capacidade de escapar impune através de negações, ofuscações e mentiras. Esta é a característica mais marcante dos populistas políticos de hoje: eles são completamente indiferentes à verdade e à falsidade. As próprias noções de mentira e incompetência estão ausentes de seus mundos.

Exemplos óbvios além do Reino Unido incluem Donald Trump, Jair Bolsonaro e Narendra Modi e suas respostas ao coronavírus – respostas totalmente além da realidade que ignoram suas contradições internas. Como devemos entender o que está acontecendo, e como isso aconteceu? As respostas a essas perguntas exigem uma séria auto-reflexão.

Uma forma de entender o populismo é através de sua atitude em relação à linguagem e, especificamente, como as formas em que usa a linguagem não têm nada a ver com a compreensão, explicação, concordância ou discordância. Em vez disso, o populismo espelha como a linguagem é usada e compreendida por crianças jovens frustradas e todos os tipos de fantasistas, valentões e abusadores. É por isso que a natureza livre da verdade desta linguagem não é uma barreira à popularidade entre aqueles que a usam de maneira semelhante, ou seja, como uma arma. Mas de onde vem isso?

Parte da resposta é que – em sua determinação de negar verdades universais – o pós-modernismo lançou as bases para a atitude dos populistas em relação à linguagem. Ou seja, ao acatar o pós-modernismo, a esquerda ocidental ajudou os populistas a destruir suas próprias esperanças. Nessa medida, o populismo de hoje é algo pelo qual a esquerda pós-moderna das últimas décadas tem uma responsabilidade considerável.

Como Norman Geras memoravelmente apontou, 'Se não há verdade, não há injustiça'.

Após as decepções dos anos 60 e a destruição do assentamento pós-guerra dos anos 70, a esquerda procurou conforto no pós-modernismo, o que parecia fornecer uma forma de proteger as crenças socialistas do crescente sucesso material da direita. Como o filósofo pós-moderno Richard Rorty disse em seu livro Contingency, Irony, and Solidarity (Contingência, ironia e solidariedade), "Qualquer coisa pode parecer boa ou ruim, importante ou sem importância, útil ou inútil, ao ser redescrita", de modo que não há necessidade de dar continuidade à árdua tarefa de justificar essas crenças.

Em particular, não há necessidade de se envolver em conversas com seus oponentes, uma vez que, como Rorty coloca através de um exemplo pouco convincente, "não há como ‘refutar’ um (...) nazista que favoreceria sua própria eliminação caso ele próprio fosse judeu", uma afirmação particularmente tola que confunde os acidentes de persuasão com a questão da verdade.

No entanto, nesta leitura, envolver-se com qualquer pessoa que ainda não esteja de acordo com você é uma ilusória perda de tempo. Nazistas e anti-Nazistas habitam mundos diferentes e jogam jogos de regras diferentes. Eles não conseguem se comunicar porque simplesmente não conseguem entender as reivindicações uns dos outros, então – para mudar de exemplo – não é de se admirar que as pessoas que não são socialistas não sejam receptivas a argumentos socialistas. Não vale a pena se envolver com tais pessoas, pois as diferenças de perspectiva política são suficientes para garantir que tais diferenças nunca possam ser superadas.

Mas ao aceitar a insistência pós-moderna de que abandonamos qualquer coisa tão ingênua como a verdade, a esquerda entrou em um beco sem saída, cavou um buraco do qual está apenas agora emergindo lentamente. Inevitavelmente, neste buraco, os debates se tornaram cada vez mais internos e mutuamente destrutivos, já que não podia haver debate com pessoas cuja visão de mundo fosse diferente e cuja linguagem constituía uma prática separada e estancada.

Como resultado de se libertar da necessidade de justificar seus princípios, a esquerda pagou um preço altíssimo, pois se não tem tal necessidade, então a direita também não tem. Um efeito do luxúria da esquerda na virada pós-moderna foi ceder espaço intelectual ao neoliberalismo, que não cometeu tal erro e que aproveitou devidamente a oportunidade para atacar o relativismo da esquerda. Em suma, a direita entrou onde a esquerda tinha medo de pisar. Como Norman Geras memoravelmente apontou em seu ensaio publicado na New Left Review, "Language, truth and justice" (Linguagem, verdade e justiça), "Se não há verdade, não há injustiça".

Após as decepções dos anos 60 e 70, a esquerda procurou conforto no pós-modernismo, o que parecia fornecer uma forma de proteger as crenças socialistas do crescente sucesso material da direita

Infelizmente, porém, o pior ainda estava por vir. Ao abrir mão da verdade, a esquerda pós-moderna ajudou a abrir o caminho para os populistas de extrema-direita de hoje, que negam completamente a ideia de verdade. Para eles, o que conta não é apenas a ideia de que o que é verdade para mim não é verdade para você, porque estamos jogando jogos diferentes, com regras diferentes. Ao contrário, qualquer concepção da verdade é simplesmente irrelevante, e essa posição muda o modo como a linguagem é entendida de maneiras ainda mais radicais.

No que diz respeito a Trump ou Johnson em si, o que eles dizem não tem nenhuma pretensão de ser verdade; apenas expressa o que eles sentem naquele momento específico (não o que eles 'pensam', o que não seria a palavra certa a ser usada). Portanto, o que os políticos populistas afirmam hoje pode ser alegremente negado no dia seguinte.

É assim que eles conseguem negar as realidades da Covid-19 mesmo quando eles mesmos pegam o vírus – como Johnson e Bolsonaro (e Trump no momento desta tradução). O propósito de fazer pronunciamentos públicos não tem a ver com a realidade, mas apenas com avançar uma posição. As noções de bom senso e absurdo não têm lugar no que tais líderes dizem.

A maneira como esses populistas usam a linguagem é a mesma usada em uma briga doméstica – ou, pior, no abuso doméstico: é apenas retórica sem regras, e como tal reflete muito bem a realidade vivida por aqueles a quem os populistas fazem seu apelo. É algo que eles e seus apoiadores sentem e reconhecem em seu fervoroso anti-intelectualismo mútuo. Temos governos – ou melhor, uma "gangue", como Alan Bennett recentemente escreveu na London Review of Books – de idiotas que se orgulham de sua idiotice.

É uma horrível ironia que o caminho para um autoritarismo tão desastroso tenha sido aberto, em parte, pela esquerda pós-moderna, uma esquerda incapaz de enxergar o que a olhava de frente. Em vez disso, ela serviu como líder de torcida do próprio relativismo que a minou, consolando-se erroneamente em não ter mais que demonstrar a verdade de suas reivindicações para e sobre o mundo. Nessa medida, não é exagero dizer que a esquerda agiu como um cavalo de Tróia para a tomada populista de hoje. Não é de admirar que ela tenha poucos recursos para responder à armamentização da linguagem.

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