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'O governo não quer deter os massacres na Colômbia porque nos considera oposição'

O senador Feliciano Valencia é um dos líderes indígenas mais conhecidos no departamento de Cauca, Colômbia. No dia 29 de outubro, ele foi vítima de uma tentativa de homicídio a caminho de Tacueyó. Este é seu relato.

Juanita Rico
11 November 2020
Feliciano Valencia
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Arquivo pessoal

Ele é um dos nove filhos de Claudio Valencia e Fidelina Medina. Ele nasceu em Santander de Quilichao, Cauca, na Colômbia, e passou sua infância e adolescência colhendo café e algodão. Ele veste camisas bordadas por sua esposa e é um dos mais importantes e reconhecidos líderes da etnia Nasa, povo indígena do departamento de Cauca, na zona andina do sudoeste do país. Em 2000, recebeu o Prêmio Nacional da Paz por ser um exemplo de resistência pacífica ao conflito armado. Desde 2018, Valência é senador pelo Movimento Alternativo Indígena e Social (MAIS).

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“Eu gosto quando me chamam de índio”, diz Valencia. “Muitos usam a palavra para tentar me insultar, mas para mim é uma honra. Desde que comecei meu trabalho como líder indígena, me acostumei a ser rotulado de guerrilheiro, entre outras coisas.”

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Feliciano Valencia em uma casa indígena no Cauca | Arquivo pessoal

Valencia tem um metro e meio de altura e uma voz forte, ainda mais quando ele fala dos direitos de seu povo. "Minha luta é antiga, embora eu tenha 54 anos de idade. Meu nome completo é Feliciano Valencia Medina. Meu avô era escravo dos senhores de engenho do Cauca, os famosos proprietários de terras. Foram eles que nos deram nossos sobrenomes. Nós herdamos os nomes e eles nos roubaram a terra."

Valência nasceu na reserva indígena Canoas, em Santander de Quilichao. "Eu fiz o ensino fundamental em meu vilarejo. Depois, em 2012, terminei o ensino médio". Ele cresceu como quase todas as crianças indígenas na Colômbia: trabalhando e entre a natureza, que, para eles, é sagrada, fonte de tudo. "Minha família é grande, então o dinheiro não rendia. Quando adolescente, saí à procura de trabalho em todo o país e assim acabei colhendo café em Antioquia e algodão em Tolima".

Ele nunca quis ser um soldado ou lutar na guerra de outros. Quando o exército chegava às aldeias, ele se escondia para não ser recrutado. A mesma coisa aconteceu quando chegou a guerrilha.

"Andei por aí sempre com a ideia de voltar à minha terra". Os Nasa, como outras tribos indígenas do país, sentem uma conexão com a terra desde o nascimento. Quando uma mãe dá à luz, a avó ou outro parente próximo corta o umbigo e o enterra perto da casa, selando assim a ligação entre o indígena e o território.

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Toribío, Cauca. | Archivo personal.

"Quando consegui juntar um dinheiro, voltei para Toribio, montei minha casa e me casei". Foi aí também que começou seu trabalho comunitário. "Meu ídolo sempre foi Alberto Ulcué Chocué, um padre indígena assassinado em 1984 por defender o processo de restituição de terras para os povos indígenas da região. A terra é nossa mãe. É sagrada e nós a defendemos, porque é o mandato que recebemos de nossos antepassados."

Valencia diz que o mundo ocidental não entende a filosofia dos povos indígenas. É por isso que é importante representá-los politicamente

Um caminho incomum

Desde seus primórdios como líder indígena, Valencia buscou fazer parte da ação política do país. Após obter cargos em sua comunidade como líder do Conselho Regional Indígena do Cauca (Cric), concorreu à prefeitura de Santander de Quilichao, em 2010, mas perdeu.

Em 2013, a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC) anunciou a criação do Movimento Alternativo Indígena e Social (MAIS). Naquela época, Valencia concorreu à presidência por este partido.

Em 2015, foi capturado pelo Corpo Técnico de Investigação (CTI) do Ministério Público da Colômbia por seu envolvimento na decisão tomada pela Guarda Indígena de condenar o cabo do Exército Jairo Danilo Chaparral a 20 chicotadas, seguindo a tradição indígena. O Tribunal Superior de Popayán condenou Valencia a 18 anos de prisão.

No entanto, em 2016, a Procuradoria Geral pediu ao Supremo Tribunal de Justiça que anulasse a condenação, que foi efetivada em junho de 2017, quando o Tribunal concordou em manter a decisão tomada pelo primeiro juiz no caso, em 2015, que absolveu Valencia.

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Logo do MAIS, partido político ao qual Valencia pertence

Dois anos mais tarde, foi eleito senador pelo MAIS, posição que usa para defender assiduamente os direitos de seu povo e o cumprimento do Acordo de Paz, assinado em 2016.

Líder ancestral

Feliciano diz que a liderança vem do lado de sua mãe, que se dedicava "à vindicação de nossos povos". Mas sua vocação também vem de ouvir seus avós. "Quando eu era criança, escutava atentamente as histórias contadas por meus avós e meus pais e absorvi as dificuldades que meus antepassados viviam. Decidi dedicar minha vida a defender nossas aldeias." Ele também se lembra de um episódio que o marcou: "Durante um ritual sagrado, um bambu caiu sobre mim. Senti um calor muito forte e desmaiei. O golpe foi tal que fui levado para o hospital em Cali". Ele sofreu perda de memória e paralisia em metade de seu corpo. Valencia se recuperou e diz ter voltado para sua aldeia "mais lúcido". Os taitas, como são localmente conhecidas as figuras equivalentes aos pajés, lhe disseram que seus antepassados estavam enviando uma mensagem. Foi então que decidiu dedicar-se totalmente a seu trabalho como líder.

Valencia nunca nega seus erros. Além da sentença e da absolvição no caso do cabo do exército, em 1999 ele recebeu 14 chicotadas por não cumprir a pensão alimentar de sua primeira ex-mulher. Para ele "essa punição foi consequência de uma desarmonia minha. Às vezes estamos cheios de energias negativas e os sábios nos dão chicotadas para nos trazer de volta ao equilíbrio. A liderança é importante porque, embora a constituição colombiana diga que somos uma nação multiétnica e multicultural, isso não se reflete na materialização de nossos direitos. A lei com respeito aos povos indígenas existe apenas no papel. Sem o desenvolvimento de normas para os povos indígenas, eles sempre nos olharão como pessoas estranhas. Eu vejo o pleno reconhecimento de nossos direitos como algo difícil, porque tem de passar pelo Congresso e, por sermos uma minoria, sempre perdemos".

Ataques implacáveis

Entre 2009 e 2020, Valencia recebeu centenas de ameaças exigindo que ele parasse seu trabalho. Em 2009, a Comissão Internacional de Direitos Humanos chegou a pedir ao governo colombiano que tomasse medidas de segurança para um grupo de líderes indígenas, incluindo Valencia.

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Valencia em uma marcha indígena em Bogotá | Arquivo pessoal

"A situação das lideranças indígenas é difícil. Na Colômbia o racismo é enorme; ainda somos vistos como pessoas de terceira classe, somos considerados minorias e não há políticas públicas que garantam proteção com uma abordagem diferenciada, respeitando nossa condição. Para completar, os setores políticos e uma grande parte da sociedade nos olham como guerrilheiros, criminosos, comunistas e nos tratam como tal. Muito difícil", diz Feliciano. "Nós, afro-americanos e indígenas, conseguimos incorporar o capítulo étnico nos acordos de paz, mas o não cumprimento desses acordos pelo atual governo arruinou nossas aspirações de obter acesso a mais terra. O pouco que conseguimos sobre a questão da terra deve-se aos acordos alcançados através das mobilizações e protestos."

Em 29 de outubro, Valencia viajava a Tacueyó, em Cauca, para acompanhar a comemoração do primeiro aniversário do massacre de La Luz – onde cinco indígenas da região foram mortos – quando sua camionete foi interceptada por homens armados, que dispararam contra o veículo.

"Acabo de sofrer um atentado contra a minha vida na estrada que liga o município de El Palo a Tacueyó, no ponto de El Tierrero em Toribío - Cauca. Saí ileso graças à mãe natureza."

"Sou grato pela solidariedade de todos aqueles que me apoiaram. Felizmente estou com minha família e estou bem, mas quero deixar algo claro: quando dizemos que estamos sendo mortos ou que vamos ser mortos, não estamos exagerando".

Prova disso é que, em 2020, mais de 40 líderes indígenas foram assassinados, somando-se aos 269 mortos desde 2016. Diante disso, Valencia pede proteção, ação por parte do governo que, embora tenha condenado o ataque, "continua a não proteger os líderes do país. O governo insiste que os assassinatos e massacres de líderes sociais são o resultado da retaliação do tráfico de drogas, o que não é verdade. Acredito que a inação do governo se deve ao fato de que ele não está interessado em atender e deter os massacres porque nos considera oposição política e, segundo o mesmo governo, porque estamos ligados ao tráfico de drogas."

Também solicita a adoção do Acordo de Escazú, que seria fundamental para defender aqueles que lutam por território em países como a Colômbia. "As organizações que fazem parte da Mesa Permanente do Acordo, que inclui os 115 povos indígenas da Colômbia, nunca solicitaram consulta prévia para ratificar o Acordo de Escazú. Em 30 de setembro, por via de uma carta, pedimos ao governo que iniciasse o processo para avançar o projeto de lei para endossar este Acordo", afirma.

"Eu me junto às vozes que pedem para iniciar o projeto de lei para que, como o governo propôs, o Acordo seja ratificado pelo Congresso, uma vez que isso significa fortalecer a legislação ambiental na Colômbia. Precisamos de proteção já".

Embora nem uma semana atrás tenha sofrido um atentado contra sua vida, Feliciano Valencia ainda está de pé: ele ainda está lutando.

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