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Os herdeiros do sofrimento colonial na Guatemala

79% dos indígenas na Guatemala vivem na pobreza – uma situação agravada pela pandemia. Realmente deixamos para trás aquele aparato estatal da Colônia que subjugou os povos indígenas?

Javier Urizar Montes de Oca
Javier Urizar Montes de Oca
21 September 2020
Jovem indígena com uma criança em área rural da Guatemala
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Nico Boersen/Pixabay/Creative Commons

"Com perfeito direito os espanhóis imperam sobre esses bárbaros do Novo Mundo e ilhas adjacentes, os quais em prudência, inteligência, virtude e humanidade são tão inferiores aos espanhóis como as crianças são inferiores aos adultos e as mulheres aos varões, havendo entre eles tantas diferenças como a que existe entre as pessoas cruéis e inumanas e aquelas piedosas, entre aquelas extremamente intempestivas e as contidas e moderadas e, enfim, entre os macacos em relação aos homens." É assim que Frei Juan Ginés de Sepúlveda, famoso cronista do século 16, escreveu em seu “Tratado sobre as causas justas da guerra contra os índios”.

O mundo descrito no tratado já se foi. Quase 500 anos se passaram desde a conquista das Américas. No entanto, as palavras do Frei Ginés perduraram, marcando profundamente a história da Guatemala. Nos séculos seguintes, as elites promoveram a ideia de uma raça superior. Já no século 19 surgiu uma frase que é comum ainda hoje: "Melhorar a raça" – uma celebração da ancestralidade europeia que ao mesmo tempo deixa uma mensagem clara: quanto menos "indígena", melhor.

O Estado guatemalteco levou essa frase muito a sério. Durante o restante daquele século e a primeira metade do seguinte, uma distribuição extremamente desigual de riqueza, trabalho forçado e violência patrocinada pelo Estado fizeram parte da vida diária dos povos indígenas. A opressão fez explodir a Guerra Civil da Guatemala, um dos conflitos mais longevos de toda a América Latina, que resultou no genocídio de 200 mil maias e em 1,5 milhão de deslocados internos.

Apologistas e nacionalistas desinformados não hesitarão em refutar que essas tragédias ficaram no passado. Dirão que, desde a assinatura dos Acordos de Paz nos anos 1990, a Guatemala se tornou um país de igualdade, onde os pobres são pobres porque querem. Por outro lado, os ativistas de direitos humanos temem que o sistema que deu origem a essas tragédias nunca mudou, apenas se adaptou.

Quem está certo? Considere o seguinte: em 2020, cerca de 6,5 milhões de pessoas se identificam como indígenas na Guatemala. Pelo menos 79% delas vive na pobreza (duas vezes mais do que não indígenas, ou "ladinos"), pelo menos 35% sofre de insegurança alimentar e, apesar disso, o gasto público para esta população é menos da metade do que para os ladinos. A Guatemala tem 257 mil deslocados internos, 100 mil emigrantes anuais e as taxas de mortalidade materna e infantil mais altas na região. Dentre essas populações, a grande maioria das pessoas afetadas é indígena.

Tudo isso antes da Covid-19.

Gravidez infantil, violência familiar e contra a mulher, bem como homicídios, feminicídios e assassinatos aumentaram durante a quarentena

A situação das crianças

“Não existe revelação mais nítida da alma de uma sociedade do que a forma como esta trata as suas crianças” – Nelson Mandela

A pandemia causada pela Covid-19 exacerbou todos esses problemas, prejudicando principalmente crianças indígenas.

O colapso econômico empurrou mais famílias indígenas para a pobreza, deixando muitas necessidades básicas sem serem atendidas e aumentando o trabalho infantil. As Nações Unidas estimam que o acesso limitado a produtos de higiene, água potável e serviços médicos causará um aumento nas doenças respiratórias e estomacais. Situação em si preocupante, mas que é agravada pela escassez de serviços públicos de saúde nas áreas rurais do país, muitos dos quais já estão sobrecarregados.

A situação não é melhor para crianças migrantes, que são em sua maioria indígenas. Os Estados Unidos vêm deportando centenas de imigrantes, muitos infectados com Covid-19. Seu país de origem os acolhe com instalações precárias, com a mesma violência e criminalidade da qual tentaram fugir e em um contexto de rejeição local por carregarem o estigma de haverem sido “devolvidos” e por medo de estarem infectados.

Quarentena

O confinamento obrigatório para limitar o aumento da taxa de infecção da Covid-19 se deu às custas das crianças guatemaltecas. Meninas e meninos têm sofrido altos níveis de violência pelo confinamento com seus agressores. Gravidez infantil, violência familiar e contra a mulher, bem como homicídios, feminicídios e assassinatos (entre outros) aumentaram durante a quarentena. Os serviços de justiça não estão conseguindo acompanhar.

É uma ironia cruel que as consequências mais sinistras da pandemia de Covid-19 não tenham surgido de uma doença para a qual não há cura, mas de problemas sistêmicos já antigos e bem documentados

Por outro lado, desde meados de março, cerca de 3 milhões de meninas, meninos e adolescentes deixaram de ir à escola. Rico ou pobre, isso é grave para seu futuro: a falta de socialização, educação individualizada e atividade física terá graves consequências em suas habilidades sociais e em sua saúde física e mental.

Mas são os quase 2 milhões de crianças pobres que sofrerão danos por toda a vida: a educação, especialmente nos primeiros anos, é fundamental para alcançar a mobilidade social e escapar da pobreza. Mas em um país onde menos de 30% da população tem acesso à internet, o ensino a distância só vai aumentar as lacunas entre aqueles que têm (Guatemala urbana) e aqueles que não têm (Guatemala rural).

E essa não foi a única consequência do fechamento de escolas. A merenda escolar semanal foi substituída por doações esporádicas. Nos últimos meses, o número de famílias com necessidade de assistência alimentar aumentou 102,8%, enquanto a desnutrição aguda em crianças menores de 5 anos aumentou 112,1%.

Amanha será pior

Não é por acaso que nenhuma das estatísticas aqui apresentadas faça referência à taxa de mortalidade da Covid-19. As crianças indígenas da Guatemala têm maior probabilidade de morrer de desnutrição, distúrbios neonatais ou violência do que de doenças recém-descobertas. Essa é a realidade há décadas.

É uma ironia cruel que as consequências mais sinistras da pandemia de Covid-19 não tenham surgido de uma doença para a qual não há cura, mas de problemas sistêmicos já antigos e bem documentados. Uma eventual vacina não resolverá isso. As crianças desnutridas e sem educação de hoje serão os adultos pobres e discriminados de amanhã, em um eterno ciclo vicioso.

Intencionalmente ou não, parece que pouco mudou naquele aparato estatal da Colônia que fez questão de subjugar os povos indígenas. Podemos promulgar mil leis e assinar inúmeros acordos protegendo os direitos humanos, mas sem uma mudança estrutural real, será em vão. No final das contas, a hipocrisia também faz parte do sistema: até as Leis das Índias proclamavam que espanhóis e "índios" tinham direitos iguais.

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