Pandemic Borders

Imigrantes não são responsáveis pelas epidemias globais: lições do passado e do presente

Não surpreende que imigrantes sejam acusados de serem portadores de doenças, dada a longa e feia história de epidemias associadas à migração.

Tahseen Shams
22 June 2020
Hospital de emergência durante a epidemia de gripe espanhola, Camp Funston, Kansas (1918-20)
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Otis Historical Archives, National Museum of Health and Medicine / wikimedia commons. Public Domain

Em 21 de abril, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, diante de severas críticas pela forma como sua administração lidou com a crise de Covid-19, declarou uma suspensão de 60 dias na emissão de cartões de residência permanente para supostamente dificultar a imigração para o país. Embora seu ataque à imigração tivesse a clara intenção de revigorar sua base para sua próxima campanha de reeleição, não surpreende que imigrantes sejam acusados de serem portadores de doenças, dada a longa e feia história de epidemias associadas à migração.

No século XIX, imigrantes irlandeses foram responsabilizados por trazerem cólera para os Estados Unidos, italianos pela poliomielite e judeus pela tuberculose. No século XX, imigrantes chineses foram igualmente acusados de disseminar a peste bubônica. Quando a chegada de refugiados haitianos nos anos 80 coincidiu com a epidemia de AIDS, haitianos e africanos foram culpados pela doença. Hoje, a xenofobia voltou seu olhar para os de ascendência asiática, que, acusados de espalhar o coronavírus, enfrentam um intenso preconceito.

No entanto, um ponto crucial, mas negligenciado, desarticula esses medos sobre os imigrantes serem vetores ativos: enquanto a mobilidade humana transforma a transmissão regional entre humanos em surtos globais, os imigrantes e refugiados são relativamente estáticos em comparação com os viajantes sazonais. Ao contrário de turistas e viajantes a negócios, que cruzam fronteiras de forma temporária, mas regular, imigrantes e refugiados se estabelecem em seus países de destino de forma bastante permanente. Seus recursos, muitas vezes limitados, impossibilitam viagens frequentes. Em contraste, cruzeiros que navegam por semanas apesar de terem pessoas infectadas a bordo ajudaram a transportar o coronavírus ao redor do mundo, contribuindo para o aumento do número de casos e mortes. E o retorno ao Canadá de centenas de milhares de canadenses aposentados que costumam passar o inverno na Flórida, um epicentro de Covid-19, levantou temores entre os oficiais de saúde sobre um aumento de casos infectados no país.

Ativistas de direita usam pandemias e outras perturbações da ordem internacional (como ataques terroristas) como evidência dos perigos da imigração

Apesar de ser uma população muito menos móvel, os imigrantes nunca parecem ser capazes de deixar para trás o manto de "estrangeiro". Ativistas de direita, com base em pouco além de racismo mal disfarçado, usam pandemias e outras perturbações da ordem internacional (como ataques terroristas) como evidência dos perigos da imigração. Suas narrativas desconsideram que imigrantes constituem a maior parcela da força de trabalho das atividades essenciais de um país. Tal temor aumenta a xenofobia que já percola na sociedade. A mídia e o discurso político conectam os imigrantes aos perigos que se desdobram em terras distantes, destacando o "estrangeirismo" dos imigrantes e seus descendentes. Os imigrantes, consequentemente, passam a ser retratados como ameaças internas. Isso se mantém mesmo quando os imigrantes não nasceram ou nunca visitaram os lugares de origem das ameaças (exponho sobre este assunto em meu livro Here, There, and Elsewhere): The Making of Immigrant Identities in a Globalized World).

Muitos segmentos do público americano culpam os latinos pelo Zika, e os imigrantes africanos pelo Ebola, independentemente de quais países da América do Sul ou da África os imigrantes tenham vido. Hoje, a crise de Covid-19, tendo origem na China, está fomentando o racismo pré-existente anti-chinês. Isso se dá apesar de o vírus que levou ao surto em Nova York, que tem o maior número de mortes nos EUA, ter vindo da Europa. Os crimes de ódio contra aqueles percebidos como chineses aumentaram de forma semelhante no Canadá.

Embora limitar a mobilidade das pessoas seja uma medida epidemiológica necessária para conter a transmissão, fazer distinção entre cidadãos e não-cidadãos não é

Mesmo os governos não são imunes à xenofobia. A reação de muitos governos à epidemia é fechar as fronteiras aos não-cidadãos. Embora limitar a mobilidade das pessoas seja uma medida epidemiológica necessária para conter a transmissão, fazer distinção entre cidadãos e não-cidadãos não é. Já que a probabilidade de que cidadãos sejam portadores do vírus é tão alta quanto os não-cidadãos. Mas a obrigação dos Estados de proteger seus cidadãos supera os fatos epidemiológicos – fatos que nos dizem que as restrições de viagem muitas vezes fazem mais mal do que bem, porque impedem profissionais da saúde e ajuda médica de alcançar as áreas afetadas. As proibições também fazem com que as pessoas infectadas fujam preventivamente, causando uma maior propagação. Esse fenômeno exacerbou a crise da Covid-19 na China, e de forma mais destrutiva, na Itália. Para além disso, as restrições às viagens internacionais retardam os surtos de forma muito modesta: na China, as proibições atrasaram o surto em apenas 3-5 dias, e em outros lugares do mundo, em aproximadamente duas semanas, com a maioria das transmissões ocorrendo internamente.

Apesar de ter se saído melhor que outros países ocidentais, o Canadá também fechou suas fronteiras para não-cidadãos e requerentes de asilo. Mas a própria história do Canadá revela uma resposta mais justa e eficaz: durante o surto de SARS, o Canadá não fechou fronteiras, mas introduziu várias medidas de triagem para os viajantes internacionais. Testagem extensiva é sem dúvida a maneira de conter a Covid-19 de forma justa e eficaz. A detecção precoce da doença através testes, assim como prevenção por lavagem das mãos, isolamento e quarentena são muito mais eficazes na atenuação de pandemias do que as restrições de viagem.

A Covid-19 tem trazido muitas tensões sociais à superfície. A disparidade global entre nações ricas e pobres; as brechas entre os que têm e os que não têm, mesmo no país mais poderoso do mundo; a oscilação de poder entre o populismo e o establishment, a islamofobia e outras formas de xenofobia são apenas alguns exemplos. Mas também temos diante de nós inúmeras oportunidades: como acadêmicos, a de fazer um balanço do que sabemos e encontrar novos rumos para a pesquisa; e como cidadãos, de alcançar a solidariedade transnacional. O caminho a ser percorrido ainda não está traçado. A questão é: para onde vamos a partir daqui?

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