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Iván Duque afirma que os assassinatos de líderes sociais caíram na Colômbia. Da onde ele tirou esses números?

Em 20 de julho, dia da independência do país, o presidente afirmou que os assassinatos de líderes sociais diminuíram 25% no seu governo. Os números dizem o contrário.

DemocraciaAbierta
28 July 2020
Flickr/CC BY-SA 2.0

A Colômbia comemorou o Dia da Independência em 20 de julho com aviões sobrevoando uma Bogotá sem plateia, já que vários setores da sociedade seguem em quarentena e outros estão passando necessidades básicas, não deixando tempo para entretenimento. O presidente Iván Duque, seguindo a tradição, dirigiu-se a seus compatriotas através da televisão e das redes sociais. Seu discurso, uma lista de conquistas e bajulações de seu governo, atingiu o auge quando disse que, em seu mandato, os assassinatos de líderes sociais no país caíram em 25% em relação aos números entre 2016 e 2018 – ou seja, durante o mandato do ex-presidente Juan Manuel Santos.

A declaração do presidente colombiano é curiosa e, até certo ponto, obtusa, pois está comprovado que os assassinatos de líderes sociais na Colômbia estão em ascensão. Da mesma forma, parece que o governo Duque, ao invés de elaborar estratégias que realmente abordam o problema, limita-se a dar números que mostram que estão fazendo melhor do que o governo anterior.

Neste ponto é importante olhar os números, ou seja, fatos, sobre estes assassinatos: de acordo com o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz, Indepaz, entre 7 de agosto de 2016 e 20 de julho de 2018, ou seja, durante o último mandato de Santos, um total de 438 líderes sociais foram assassinados. Por outro lado, entre 7 de agosto de 2018 e 20 de julho de 2020 – durante o atual mandato Duque – 572 líderes já foram assassinados. No total, isto somaria mais de 1000 assassinatos. Os números são horripilantes.

E então, presidente?

Após o discurso de Duque, a congressista Ángela María Robledo, uma das líderes da oposição, tuitou: "é inadmissível que @IvanDuque diga que o assassinato de líderes diminuiu 25%. Em que país vive esse homem?"

Mas de onde Duque tirou seus números?

O presidente tira seus números da Procuradoria Geral e do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), que, apesar de serem fontes oficiais, têm relatórios parciais e com corte em 31 de maio. Existem, entretanto, entidades dedicadas ao acompanhamento desses assassinatos, como o Indepaz, o Centro de Pesquisa e Educação Popular (CINEP) e a Cúpula Agrária, que mostram outras cifras.

A verdade é que tanto o governo Santos quanto o governo Duque foram incapazes de enfrentar a violência incontrolável contra os líderes sociais.

O democraciaAbierta falou com uma líder social e defensora dos direitos humanos de Putumayo, uma das regiões onde os líderes da Colômbia são mais ameaçados e mortos, que por razões de segurança prefere permanecer anônima. Para ela, "devemos contradizer muitos discursos neste momento, inclusive o de Duque, que não é coerente com a realidade que vivemos no território".

Desde que o Acordo de Paz foi assinado com o grupo guerrilheiro das FARC em 2016, 971 líderes sociais foram assassinados. Mas o governo, citando o ACNUDH como fonte, não compara os números dessa fonte com os das organizações que acompanham diariamente os assassinatos relatados pelos movimentos de base.

A outra grande fonte oficial é Procuradoria Geral. Entretanto, o atual promotor, Francisco Barbosa, disse em entrevista ao El Tiempo em 23 de janeiro de 2020 que o assassinato de líderes sociais na Colômbia não pode ser chamado de "sistemático" porque "reconhecer que há uma sistematização no assassinato de líderes sociais implica que há um plano orquestrado ou tolerado por parte do Estado colombiano, o que, e devo afirmá-lo enfaticamente, não é verdade".

Em abril deste ano, a Missão de Verificação das Nações Unidas apresentou um relatório sobre a implementação do Acordo de Paz no qual Carlos Ruiz Massieu, chefe da Missão, declarou que "a violência contra líderes sociais, defensores dos direitos humanos e ex-combatentes continuou apesar da quarentena nacional" e pediu que o fim da violência contra líderes sociais, defensores dos direitos humanos e ex-combatentes fosse uma das três prioridades do governo colombiano em 2020.

Em janeiro deste ano, a Procuradoria Geral informou que um líder social havia sido morto naquele mês. O Indepaz, no entanto, informou que houve 29 assassinatos. Quase um para cada dia do mês. A Procuradoria Geral nunca retificou ou atualizou seus números, o que mostra que os líderes também não estão sendo ouvidos pelas instituições do país.

Minimizar a tragédia dos líderes sociais na Colômbia só contribui para tornar invisíveis os processos que cada um desenvolve no território. É por isso que a declaração do Presidente Duque de que o número de assassinatos diminuiu não só é questionável, como também abre a questão de como o governo mede seus líderes.

Por que minimizar os números ultrajantes? As respostas permanecem em aberto: por causa da incompetência do Estado em deter o massacre? Por falta de vontade política? Ou porque o desprezo pelos líderes sociais é tal que, se eles forem mortos, o governo pouco se importa?

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