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Joane: O plástico está nos matando no Tapajós

Esta jovem ativista brasileira luta para mudar os hábitos de seu povo, para que recolham e deixem de queimar resíduos. Este é o quarto capítulo da série apresenta cinco jovens líderes que defendem a floresta. Español English

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Francesc Badia i Dalmases
11 July 2019
Joane pousa para um retrato na praia da sua comunidade perto a embalagens de plástico que chegam pelo rio.
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Foto: Pablo Albarenga

Quanto plástico a bacia amazônica pode suportar antes de entrar em colapso? Quanta agressão inconsciente? Quanta degradação ambiental?

Um saco plástico, um frasco de polietileno, um pedaço de poliuretano são objetos banais, baratos e descartáveis. Seu uso diário é medido em bilhões de unidades em todo o planeta.

No entanto, após um único uso, eles são sistematicamente despejados pela natureza, com um impacto catastrófico, especialmente quando se multiplicam ao infinito, invadem o território, se decompõem em micro-plásticos e contaminam a água. Eles acabam matando a fauna do rio: peixes, tartarugas, pássaros.

Segundo a Earth Day Network, o Brasil ocupa tristemente o primeiro lugar em má gestão de resíduos plásticos nas Américas, acima dos Estados Unidos.

Em muitas áreas do baixo Tapajós, a proliferação de plástico no meio ambiente é gigantesca. Parar esse absurdo e começar a revertê-lo é uma tarefa de enorme dimensão. Embora não seja impossível.

Um exemplo disso ocorre em Suruacá, uma pequena comunidade dentro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, estabelecida pelo Decreto S/Nº de 6 de novembro de 1998. Aqui, algo poderia começar a mudar se pessoas como Joane, uma jovem tapajônica de 20 anos, forem bem-sucedidas em seu valioso esforço.

A comunidade de Suruacá foi uma das primeiras a fazer parte de um extenso programa de regeneração socioambiental, liderado pela organização não-governamental Projeto Saúde e Alegria, sediada em Santarém, no Pará.

A comunidade de Joane ilustra como uma política comunitária coerente, aplicada com continuidade ao longo do tempo, tem efeitos transformadores de longo alcance.

Certamente, o desafio é gigantesco. Mas a comunidade de Suruacá está suficientemente organizada para fazer prosperar uma iniciativa como essa, que possa acabar com a onipresença do lixo plástico.

Desde garotinha, Joane gostava de brincar com plásticos, diz sua mãe, professora da escola local. "Ela fazia pequenas joias, objetos para o banheiro ou vasinhos para as plantas do jardim", diz ela, enquanto limpa um peixe. Agora, graças à conscientização adquirida em vários treinamentos ambientais, Joane propôs intervir em sua comunidade.

A situação piorou quando o modelo alimentar começou a mudar, passando em poucas décadas de uma dieta baseada em culturas nativas, frutas, peixes e água dos poços ou das fontes que alimentam o rio (os belos igarapés), a uma dieta exógena, que incorpora produtos enlatados e embalados, refrigerantes e água engarrafada.

Quem sabe um dia esta situação poderá ser invertida? Será difícil. Mas enquanto isso, jovens líderes com consciência como Joane têm ideias, lideram projetos, e estabelecem metas.

Joane, junto à fogueira que um vizinho fez para queimar resíduos. | Pablo Albarenga

Muito recentemente, Joane, juntamente com membros do Coletivo Jovem Tapajônico, que ela ajudou a fundar, realizou uma ação de conscientização para causar impacto.

Além dos resíduos sólidos gerados pela própria comunidade, existe o acúmulo de plásticos na ribeira que vêm dos barcos que navegam ao longo do rio, ou da cidade de Alter do Chão, um resort turístico incipiente no lado oposto do rio Tapajós. O vento e as correntes arrastam o plástico para a praia, que às vezes assume a aparência de um verdadeiro lixão.

A ação consistiu em usar lixo plástico para desenhar na areia da praia um monumental barco amazônico, do qual tiraram uma fotografia aérea. Foi difícil convencer a comunidade da importância daquela foto, mas quando a viram, entenderam a razão de ser.

"O coordenador achou que nossa ação ia prejudicar a comunidade, dando uma imagem ruim, porque para ele o problema não é de Suruacá, vem de fora." Nessa ocasião, não sem esforço, os jovens conseguiram convencê-lo, especialmente quando ele viu a fotografia e o impacto que poderia ter na prefeitura e em outros órgãos administrativos para tomar conhecimento de que medidas urgentes devem ser tomadas.

Mas, embora o problema real seja a falta de políticas públicas de gestão de resíduos sólidos pela prefeitura, que é quem tem a responsabilidade sobre o assunto,

Joane dá muita importância à mudança de hábitos que ela está percebendo em alguns dos jovens da comunidade. É isso que a faz feliz, especialmente quando ela também tem a aprovação da sua avó e da sua mãe, elas próprias combatentes e portadoras de valores ancestrais, aprendidos de hábitos de vida passada muito mais próximos da sobrevivência no meio ambiente natural, que veem na jovem ativista, continuidade e futuro.

E ao lado do lixo, há a ameaça do fogo. Primeiro as fogueiras que os vizinhos usam para queimar todo tipo de plástico e borracha, que geram uma fumaça negra, tóxica e inútil. "Essa não é a maneira de tratar os resíduos", diz Joane, e ainda não há família em Suruacá que não tenha um canto para sua própria fogueira.

Joane conta que muitos problemas começaram quando a alimentação deixou de consistir em produtos locais. | Pablo Albarenga

Além disso, há o fogo que alguns vizinhos põem com o objetivo de obter parcelas para o cultivo, e que muitas vezes resultam em incêndios reais. Uma vez que a parcela da floresta é delimitada, em vez de reutilizar a terra, deixando que se recupere por um ano, para a próxima colheita, eles queimam outro pedaço, e depois outro, aumentando assim o desmatamento, muitas vezes multiplicado por incêndios acidentais. O sistema funciona dessa maneira já há muitas décadas, e a mudança cultural necessária para pôr fim a essa contínua depredação levará tempo.

Apesar da sua juventude, Joane está determinada a mudar as coisas. Ela pensa até em lançar outro biodigestor, cujo design ela conhece bem, uma vez que ela já construiu outro em outro lugar. O biodigestor, sobre o qual Joane fornece todo tipo de detalhe, forneceria gás para cozinhar e fertilizante para o jardim, fruto do mesmo ciclo. "Quando eu for para a cidade, comprarei os recipientes necessários. Se isso funcionar, com certeza a comunidade vai entender e acabar adotando". Seus olhos brilham com entusiasmo: seria um grande avanço.

Quando descemos para a praia para tirar algumas fotos, por uma longa escadaria de madeira em crescente desuso, Joane está convencida de que mais e mais jovens acabarão se juntando a iniciativas semelhantes, ao longo do rio Tapajós e além. "O homem", conclui Joane com indignação, "é possuído por um forte desejo de devorar a floresta. Devorar e devorar. Mas a floresta não é infinita e um dia vai acabar".

Mas, no fundo dos olhos de Joane, há uma centelha de esperança. Nada a faria mais feliz do que ver a floresta livre de resíduos plásticos, e que esse fogo destruidor se apague.

Esse fogo que não só consome os polímeros acumulados, transformando-os em fumaça negra no pátio de cada vizinho da comunidade de Suruacá, mas devora a vida das gerações presentes e futuras.

E a isso Joane se opõe com toda a força de sua juventude.

Este artigo pertence à série Rainforest Defenders, um projeto do democraciaAbierta em colaboração com Engajamundo Brasil, com o apoio do Rainforest Journalism Fund do Pulitzer Center. Foi originalmente publicado pelo El País Brasil aqui

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