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Como jornalistas das favelas estão lutando contra a Covid-19

Em 8 de abril, seis mortes pela Covid-19 foram confirmadas nas favelas. Preocupadas com a cobertura local, as iniciativas estão se espalhando por todo o Rio de Janeiro e além. English Español

Thaís Cavalcante
Thaís Cavalcante
20 April 2020
Rio de Janeiro, Brasil
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Flickr/Dhani Borges. Creative Commons

Assim que surgiu o alerta da pandemia do novo coronavírus no Brasil, jornalistas comunitários já começaram a pensar em como agir.

“A população continuava nas ruas e com dúvidas sobre como garantir a quarentena, já que precisa trabalhar para comer”, disse Gizele Martins, jornalista e moradora do Conjunto de Favelas da Maré, em depoimento ao episódio “As favelas e o novo coronavírus” do podcast Na rede com o Cinco. Ela integra um grupo que pensou ações de prevenção antes mesmo do primeiro caso de COVID-19 ter sido confirmado em uma favela.

O Brasil tem 13,6 milhões de pessoas vivendo em favelas, segundo pesquisa do Data Favela. Só no Rio de Janeiro são quase 1,4 milhão. Atualmente, os trabalhadores informais enfrentam o desafio que é cumprir a exigência do Ministério da Saúde para respeitar a quarentena e ficar em casa, enquanto há casos registrados da doença nos territórios mais vulneráveis.

De acordo com o levantamento da Secretaria Municipal de Saúde do dia 8 de abril, são seis mortes confirmadas pelo novo coronavírus: duas na Rocinha, um caso em Manguinhos, dois em Vigário Geral e um no Complexo da Maré. Para acompanhar também os casos suspeitos e os recuperados, a ONG Voz das Comunidades criou o Painel de Atualização de Coronavírus das Favelas do Rio.

As iniciativas estão espalhadas pela cidade. Preocupados com a cobertura local, coletivos como Maré 0800, Maré Vive e A Maré Vê produziram áudios com auxílio de profissionais da saúde para divulgar no carro de som pelas ruas. O formato do conteúdo foi de propósito, afirmou a comunicadora Suzane Santos, que faz parte desta Frente de Mobilização na Maré. “Entendemos que nem todos os moradores têm acesso à internet, logo a conscientização online torna-se limitada, não chegando a todos. Mas pessoalmente, conseguimos passar maior afeto e cuidado”. A produção foi local: criaram cartazes e mais de 60 faixas foram penduradas em espaços movimentados como campos de futebol e bares, com orientações de higiene e reforçando o pedido de isolamento social.

Em outras favelas como o Complexo do Alemão, Cidade de Deus e Rocinha, também há iniciativas de divulgação de notícias em seus portais e materiais de comunicação fora da internet, reforçando as orientações do Ministério da Saúde que incentiva a higienização frequente das mãos e evitar espaços com um grande número de pessoas.

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Faixa da mensagem de prevenção do novo coronavírus | Foto de divulgação da ação do Maré Vive, Maré 0800 e A Maré V

A articulação de comunicadores de toda a cidade carioca também levantou a hashtag no Twitter #COVID19NasFavelas e #CoronaNasPeriferias há semanas, para compartilhar vivências, opiniões, notícias desses territórios e estimular discussões sobre a necessidade urgente de prevenção, mas também de alimentação, água e produtos de higiene para essa população.

Os veículos de comunicação das favelas estão produzindo, diariamente, conteúdos e reportagens sobre prevenção, impactos e as mudanças que a chegada da COVID-19 trouxe aos moradores. São textos, fotos e vídeos informativos e urgentes, feitos por quem é comunicador e oferecendo o que nem toda cobertura pode: a técnica jornalística e a experiência local.

Um exemplo é o portal de notícia Favela em Pauta, que dedicou em seu site uma página para notícias sobre o novo coronavírus. O Jornal Voz das Comunidades também tem trazido opiniões de moradores sobre o assunto, além da ONG de mesmo nome apostar em uma intensa divulgação e mobilização para arrecadar doações de alimentos e higiene pessoal, com a Campanha Pandemia com Empatia.

A comunicação de favela não acontece sozinha. Uma rede de quase 70 comunicadores e mobilizadores periféricos de todo o país estão a distância mas juntos e prontos para trabalhar com e pela periferia. Essa rede #CoronaNasPeriferias assinou uma carta, que mostra como o coletivo está se articulando para comunicar e conscientizar seu público-alvo: os moradores.

Um dos participantes foi Renato Silva, jornalista do Favela em Pauta. Ele disse que acredita que só iniciativas faveladas e periféricas podem praticar a empatia necessária e responder com agilidade, mesmo com dificuldade, aos riscos da pandemia. “É importante que uma coalizão una informações e iniciativas de comunicação que contemplam as favelas, periferias, guetos, quilombos e sertões”, disse Silva. “Fortalece a iniciativa individual, cria a sensação de que não estamos sós, mesmos isolados, e auxilia no combate às fake news.”

Enquanto o trabalho de base faz a sua parte com os recursos que tem, o Ministério da Saúde ainda estuda formas de atuar efetivamente nesses territórios, como a inclusão na pasta de enfrentamento ao coronavírus o atendimento às favelas, a pedido da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC/MPF).

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Este artigo foi originalmente publicado pelo IJNet e republicado com permissão.

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