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O último sopro dos Kuruaya? Extrativismo acelera a extinção cultural no Brasil

Odete Kuruaya é a última falante fluente da língua nativa de seu povo. Sua cultura, quase dizimada no início do século 20, poderia ser completamente exterminada à luz de projetos futuros.

miguel pinheiro
24 August 2020
Odete Kuruaya
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Miguel Pinheiro. All rights reserved

A compreensão do mundo se faz a partir da língua. Um enorme quebra-cabeça de significados que se entrança, e que forma uma lente a partir da qual percecionamos o passado, o presente, o futuro e o invisível. No coração da Amazônia, ao longo do rio Xingu e seu principal afluente, o Iriri, são encontrados vestígios de uma população desaparecida. Os desenhos cavados nas rochas são uma crónica abandonada, vozes que não sabemos mais decifrar.

Uma língua pode ser um mapa ou uma memória. Uma cosmogonia ou um requiem. Não à toa, em grego, logos significa linguagem e pensamento. No final de uma língua, só o silêncio das pedras. Em espiral de esquecimento, seguem-se tradições, histórias e toda a arte dos sons de uma cultura. Existem cerca de sete mil idiomas no mundo, a maioria é falada por povos indígenas. São orais, sem ortografia, nem dicionários. Segundo um relatório de 2014 (Loh, Harmon), 25% das línguas estão hoje em perigo de extinção, uma percentagem superior à de mamíferos (21%), répteis (15%) ou aves (13%).

O declínio na diversidade linguística está associado a elementos sociais, políticos e económicos, como migrações forçadas ou urbanização. O percurso do grupo indígena dos Kuruaya, da região do Médio-Xingu no Pará, é uma soma desses fatores. Primeiro perderam seus territórios junto ao rio Curuá quando foram perseguidos por missionários e colonos no início do século XX. Em 1934, restavam cerca de 30 indígenas Kuruaya num local chamado o Gorgulho do Barbado (Handbook of South American Indians, Smithsonian Institute, 1948). Os que sobreviveram, tomaram a balsa e desceram o Curuá, o Iriri e o Xingu, até alcançarem a cidade de Altamira.

Para comunidades nativas, idioma e terra estão entrelaçados, num delicado equilíbrio com a natureza. No Xingu há muito as terras foram invadidas, as culturas dos povos foram dizimadas e Odete Kuruaya (Iawá), a última falante fluente de Kuruaya, quer contrariar esta estatística. Mas em 2011, a alguns quilómetros do seu território, foi inaugurada a terceira maior Hidrelétrica do mundo, Belo Monte, que agora controla o volume e a qualidade da água do rio.

A barragem impactou a navegabilidade pelo Xingu, a principal via de comunicação, afetou a limpidez e a qualidade da água, peixes e caça no passado abundantes, hoje rareiam. No futuro próximo se discute a instalação da maior mineradora de ouro a céu aberto da América Latina, juntamente com seus rejeitos de minério, seus venenos químicos e o prenúncio de uma paisagem devastada.

A multinacional, Belo Sun, é uma empresa canadense que desenvolve projetos internacionais de mineração em África, Ucrânia, América do Norte e Brasil. Os Kuruaya foram encurralados pela história. De acordo com os dados de satélite, no mês de Julho de 2020, uma área maior que a Grande Londres foi desmatada na Amazônia. Desde 2012 que a tendência crescente de desmatamento se acentua. Neste cenário é indispensável debater, como consegue um povo indígena gerar e preservar uma identidade? O que se perde quando um idioma desaparece? E que fatores contribuem para este dramático desfecho?

Homem escala pedra para mostrar arte indígena
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Mãos de Odete Kuruaya segurando uma varinha.
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Ao redor da cidade de Altamira, no Pará, o contato entre povos urbanos e tradicionais se intensificou ao longo dos séculos, sempre em nome do avanço econômico, um progresso por vezes cruel, e frequentemente controverso. Nesta região encontramos vários dos primeiros povos da floresta: os Xipaya, os Kuruaya, os Kayapó, os Xikrin, os Parakanã, os Asuriní, os Juruna. A diversidade linguística é maior que na Europa. É uma Babel tropical.

Quando criança, Iawá brincava no rio, dançava, fazia casinha. Seus pais viviam da terra, plantavam milho, melancia, abóbora, macaxeira, mandioca pra fazer farinha, algodão para fazer rede. Casou-se aos treze anos com um migrante nordestino e, pouco depois, em regime de aviamento, foram forçados pelos não indígenas na extração da borracha, na coleta da castanha e na caça de gato-do-mato para vender as peles.

Odete Kuruayade perfil em frente a um lago durante o pôr-do-sol
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Nessa mesma época, Henry Ford mandou construir Fordlândia – um extravagante projeto para uma cidade-usina no meio da selva brasileira, dedicada a produzir borracha para os automóveis da Ford, e que rapidamente se revelou um tremendo fracasso.

Iawá se distanciou do quotidiano indígena, do transcendente na vida, ritos e tradições, o que acabou favorecendo a aceleração da perda cultural do grupo. Na década de 70, finalmente conseguiu um pedaço de terra de seus ancestrais na Volta Grande do Xingu, um trecho de cerca de 130 quilômetros em que o rio Xingu, o terceiro maior tributário do Amazonas, muda o curso por volta de 90 graus em três grandes curvas – e é morada para algumas centenas de famílias de extractivistas, pescadores, ribeirinhos e indígenas. Lorena Kuruaya, neta de Iawá e estudante de Medicina, se voluntariou durante a quarentena para distribuir alimentos nestas comunidades, e testemunhou um perigoso isolamento.

Lorena e Odete Kuruaya durante o entardecer.
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Lorena pinta a perna de outra moça enquanto Odete Kuruaya observa ao fundo
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Apesar das ações de mitigação contratualizadas por parte da Norte Energia, concessionária responsável pela operação da Hidrelétrica de Belo Monte, os povos da Volta Grande usufruem de um sistema de comunicação deficitário. “O sinal de celular quase não pega, não tem acesso à internet, e os poucos rádios que existem muitas vezes não funcionam”, comprovou Lorena.

Em termos de transporte, o volume de água no rio não permite o tráfego das populações, as estradas são precárias, e poucas famílias tem veículo próprio para se deslocar para comprar comida, ou até em caso de emergência médica. Enquanto algumas comunidades têm acordos favoráveis de assistência, muitas outras estão abandonadas”, concluindo que as medidas de mitigação da Norte Energia até ao presente momento não foram colocadas em prática, “um descaso no seu tratamento, e óbvia gravidade no descumprimento”.

É um terrível paradoxo para o conceito de direitos humanos, explicado nas palavras do líder indígena Ailton Krenak. “Cheguei à conclusão de que a humanidade era só um clube que faz muita propaganda de si mesmo e convence todo mundo de que aquele negócio existe. Um clube bem-sucedido. E o resto pode morrer.

Indígenas conversam sobre uma mesa
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Lorena, Odete e crianças Kuruaya à noite
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A destruição ambiental caminha de mãos dadas com o aniquilamento da biodiversidade cultural, que é a estocada final no silenciamento dos povos tradicionais. De acordo com o cientista e prémio Nobel, Philip Fearnside, “os grandes projetos de investimento executados na Amazônia não têm oferecido condições para o desenvolvimento humano, da diversidade sociocultural e dos ecossistemas na floresta tropical. O cenário indica a urgência em se repensar a produção energética e mineral em territórios tradicionais no bioma amazônico, um primeiro passo para garantir que possamos continuar a habitar um mundo de incrível diversidade.

Iawá está agora na casa dos 80, provavelmente 90, ninguém sabe ao certo. Os Kuruaya conseguiram superar os missionários, os colonos e mostram resiliência à medida que a barragem sufoca o Xingu. Iawá construiu uma família, encontrou uma terra e prosperou. Hoje ela é reverenciada como a mais velha, consultada sobre o melhor momento para produzir uma colheita ou sobre quais ervas são úteis para remédios ou orações. Nas refeições, ela é a primeira a ser servida. Durante o dia, ela colhe sementes e frutos secos da floresta, a partir dos quais ela cria anéis e colares. Agora é uma tarefa mais difícil, pois as árvores estão morrendo de sede e algumas sementes e frutos são escassos. Quando os netos a visitam, todos cantam juntos. Iawá ama essas músicas dos Kuruaya. Isso a lembra de um tempo antes da civilização chegar.

Odete Kuruaya em sua aldeia
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